Quanto é prejudicial escrever com falta de letras
Um provinciano pouco esperto, que pelos modos avessava bons contos de reis, desejando possuir para seu divertimento dois ou tres macacos, enviou a um seu amigo de Lisboa, a quem parece merecia attenção, uma carta assim concebida: «Quero ter a satisfação de possuir para meu recreio e divertimento 2o3 macacos. Encarrego-o desta encommenda e espero-a com a brevidade... possível... etc...» O lisbonense, que poderia não comprehender... tudo, menos o numero de macacos que o nosso heroe lhe pedia—provavelmente com o desejo de absorver uma boa parte das entranhas metallicas da nedea bolsa do inexperto e simplório campino—respondeu-lhe em continente e em linguagem polida «que tomando na devida consideração a ordem de s. s.ª havia encarregado o negocio a um seu correspondente, e que podia contar estar servido; que qualquer dia os macacos lhe estavam a bater á porta!» O pobre do homem, extasiado ante tamanha consideração, que o seu amigo ligava, não a elle, mas ás piedosas entranhas de seu ferrenho animalario, saltava como desvairado, quando ouvia bater á porta, a cuidar que eram os macacos; e em quanto no calor do extasi, invadio as funcções da creada, que, graças a seu bello amo, não tinha de estar a toda a hora a repelir com voz afflicta, o attrazador monologo—quem é?... Passaram assim horas, dias, noites e mezes, e nada de macacos; e elle entrementes a recrear-se phantasticamente com os graciosos saltos dos monos!!! Eis senão quando (negra hora) batem á porta, e desta vez era a realidade. Sabendo a alegre noticia, apoderou-se delle um tão vivo prazer, que alguém de menos boa fé, vendo-o, julgaria que estava... doido pelos macacos!... De repente, como nuvem que tolda o dia, fica petrificado e... immovel, qual estatua de pedra, deixando cahir a impalracef cabeça sobre o peito... e só a custo de muito tempo, poude arrancar estas sepulchraes palavras d’aquelle gelado peito:—A quem pertence toda essa tropa, sr.?! Era evidentemente ao conductor da caterva magna que elle se dirigia. —Oh! essa!... está visto que ao senhor mesmo pertencem... e ainda aqui não está tudo o que v. pedio a F... que aqui me manda com esta carta e estes bichos!... —É verdade!—respondeu amargamente, tendo lido a carta—mas isto é uma caçoada... e eu não estou cá para caçoadas do sr. F... percebe? De mais a mais é uma... maroteira!—e prosseguiu em outras amabilidades deste gosto... O conductor dos singes ouvindo proximo a vozearia dissonante de rapazes cantando, advinhou ser escola; e a todo o custo conduziu até lá o nosso obstinado arguente... Como esperto e avisado que vinha (se o não era já) apresentou-lhe na presença do respeitável mestre-escola aquella carta original, e a firma, que tudo confessava ser de seu proprio punho! Em seguida deu a ler a carta ao discípulo mais distincto (segundo a opinião do mestre) que leu... leu... e afinal—203—macacos... Horrível verdade! Cahio, portanto, o homem no caso, graças á lógica do mestre e do discípulo distincto e d’uma má letra de Fernandes de Lafontaine, lá foi assignar asylo áquelles, que tinham corrido boa parte do mundo, só para virem lisongear os desastrados caprichos d’um tolo, que, por sobre tudo, ainda os recebe descontente! O resto advinha-se facilmente. Escreveu immediatamente ao seu amigo arguindo-o cruamente de ter abusado da boa fé d’um pobre homem; amaldiçoando a cada passo a negra hora em que tinha visto macacos, e se tinha apaixonado por suas gracinhas. Poderá! acabava de receber 112 destes monos, e a carta esperançava breve o resto. Depois teve de passar pelo desgosto de ser monopolista de macacos; morreu de morte macaca legando a seus filhos ainda uma boa doze. E toda esta macacada é o resultado de se escrever com falta de letras! O. C.