Voltar ao arquivo
Artigo

O Jesuíta

Cultura e espectáculoEducacção e instruçãoReligiãoLivros e publicações
Interpretacção incerta · Romano

Presenteou-nos o digno representante da empresa G. L. nesta cidade, o sr. Francisco Antonio Vargas, com um novo livro que aquella empresa acaba de editar, intitula-se elle o Jesuíta, e é seu auctor o padre [ilegível], a quem se devem tambem os excellentes e já mui conhecidos livros o Maldito e a Freira. No Jesuíta o padre [ilegível], esse homem que da obscuridade tanta luz envia ao mundo, adoptou, como no Maldito e na Freira, a forma de romance, talvez para o tornar mais lido. Vê-se que o padre [ilegível] não é grande romancista, e nem ligou demasiado apreço á fórma que escolheu, mas perdoa-se-lhe isto pelo grande aproveitamento que se colhe dos seus escriptos. No Maldito e na Freira ha dois typos admiráveis, o padre Julio, marcado pela cúria romana com o ferrete de maldito, e o padre Lombaire, caracter impetuoso, dominado pelas paixões, mas convencido afinal do bom exemplo dado pelo padre Julio; mas no Jesuíta ha um typo, que não sendo o do protagonista, vale talvez mais do que toda a doutrina do livro. É o padre Montgazain. No livro de que tratamos os jesuítas são desmascarados como nunca o foram. Nelle se justifica a expulsão da companhia, deste reino, pelo marquez de Pombal, por um documento que mostra ter sido o padre Matagrida cumplice contra a vida de el-rei D. José I. Os manejos empregados pela companhia para terem um papa de escolha sua tambem ali estão bem patentes; o que se passou no sacro collegio por occasião da elevação do papa actual á cadeira de S. Pedro. Na leitura do Jesuíta não ha perigo para a religião, como por ahi se diz. O proprio padre [ilegível] aos que o accusam de querer derribar o catholicismo responde deste modo: «A verdade reside na alma humana; não ha de perecer. Está nella a religião; e como as leis do mundo material e os axiomas inatacáveis das mathematícas, a religião não poderá perecer.» É este tambem o nosso voto e por isso recommendamos a leitura do Jesuíta onde a par dos amores castos e virtuosos, são desmascarados os hypocritas, que envoltos no manto da religião procuram embustecer os povos para os dominar. A traducção do Jesuíta é devida ao sr. Silva Vieira, e está primorosa.