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Tinha razão o sr. João

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João e Antonio iam por uma estrada. Antonio perguntou a João: — Amigo, quero pedir-te um conselho. — Falla. — Tu que já sabes o que é ser casado, poderás explicar-me a vida do homem casado? — Olha, respondeu João, só com essas palavras me fazes doer a cabeça; porém, uma vez que queres, vou referir-te uma passagem da obra de fr. André Ferreira de Valde: «Os bem casados fazem da casa um paraíso; e os mal casados fazem da casa um inferno. Não ha mulher tão perfeita nem homem que, a um, não falte alguma cousa e à outra muito. Poderei dizer-te mais: se a mulher é generosa, é louca; se é rica, orgulhosa; se bonita, não se póde guardar; se feia, não se póde viver com ella; se intelligente, não é boa para arranjo de casa; se desarranjadeira, insoffrivel; se honesta, ciumenta. Se o marido a fecha, queixa-se; se a deixa, perde-se; se ralha com ella, enfada-se; se lhe soffre tudo, ensoberbece-se; se lhe não dá dinheiro, furta-o; se lh’o dá, perde-o. Se o marido está sempre em casa, aborrece-se; se sáe, chora. Se veste com luxo, quer que todos a vejam; se a não veste, alvoroça a casa. Se lhe mostra muito amor, despreza-o; se lh’o não mostra, tudo é choro. Se lhe faz a vontade, zanga-se. Se se lhe communica algum segredo, não o sabe guardar; se é bom, porque é bom; se é mau, porque é mau; o bem faz-lhe mal e o mal incommoda-a. Oh! calamidade! calamidade das calamidades! É esta a razão porque, se ha dous casados que vivem satisfeitos, ha duzentos que vivem aborrecidos.» Isto é, querido Antonio, o que posso dizer-te; porém, se em alguma cousa devemos abster-nos de dar conselhos, ainda a quem precise d’elles, é em matéria de casamentos.