Testamento curioso
Diz o Jornal de Lisboa: Falleceu ha annos em Lisboa um homem muito pobre, mas que em vida fora muito folgazão. Lembrou-se de fazer testamento poucos dias antes de morrer, e mandou chamar um amigo para lhe redigir algumas disposições. Chegado o amigo, deu-se o seguinte dialogo: — Escreve lá. «Deixo á minha ex-criada Joanna a casa de S. José de Ribamar, e as terras adjacentes...» — Tu estás doido, disse o amigo escrevente. O que tens tu a casa e mais as terras? — Escreve e não faças comentarios! «Tambem deixo ao meu amigo F... a minha carruagem e a parelha de cavallos andaluzes.» — Não estou já para te aturar. Não é occasião de caçoadas, mas de encommendares a alma a Deus, se te julgas a ponto de deixar a vida. — Homem, costuma respeitar-se a vontade dos moribundos: portanto escreve. «Deixo um conto de reis a cada uma das casas de asylo estabelecidas em Lisboa, sob condição de que mandarão dizer annualmente uma missa pelo descanço da minha alma.» — Agora já é de mais! Vê se tens outra coisa a exigires da minha amizade que a respeito de testamento temos conversado. — Ó Marcos, quem morre, sou eu ou és tu? — Parece-me que és tu. — N’esse caso faze-me a vontade, e dize aos herdeiros que pleiteiem a herança.