Um morto que fallava
Vivia em uma certa aldêa um sapateiro que se tinha imposto o dever de velar os mortos da localidade. Muito lhe agradeciam tão caritativa complacencia, e o sapateiro tinha-se por bem pago do incommodo com os emboras dos parentes e visinhos dos finados. Lembraram-se certo dia uns estudantes de pregar uma peça ao bom do sapateiro. Ajustaram-se entre si que um d’elles se fingisse morto e se deixasse velar pelo sapateiro, a fim de lhe causarem depois um susto com a apparição do que elle julgava morto. Procurou um dos estudantes o sapateiro e disse-lhe: Venho pedir-lhe um favor, mestre: Morreu F. ... e como não tem mulher nem filhos que o acompanhem, espero que o mestre lhe fará essa obra de caridade. O sapateiro metteu a ferramenta na alcofa, sobraçou as botas começadas, e partiu para casa do defuncto. Encontrou chorosos os amigos do supposto finado, e deitada na cama uma figura pallida, de olhos cerrados e com um barrete branco enterrado até ás sobrancelhas. Rezou um devoto Padre Nosso, e começou a trabalhar nas botas começadas. Á meia noite trouxeram-lhe café e com um copinho de aguardente. O estudante já dizia mal á sua vida e ao papel de defuncto que estava fazendo. O sapateiro, confortado pela aguardente e disposto a não se deixar vencer pela tristeza, começou a cantar o Rei Chegou, modinha da sua predilecção. Ao estudante pareceu occasião própria para se safar; e levantando meio corpo, disse com voz sepulchral: —O tu, chumeco de Satanaz! Quem acompanha defunctos não canta! O sapateiro, aterrado a principio, acabou para logo todo o seu aprumo, e empunhando o tirapé e zurzindo com elle o estudante, desfechou-lhe este axioma: —Pedaço de maroto! Quem está morto não falla.