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Artigo

Algarvio é mysterio

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Barrancos · Portugal Interpretacção incerta

Faz hoje 15 dias recebiu-se n’esta redacção um anonimo que rezava assim: Sr. redactor—Um caso digno de saber-se acaba de ter lugar na quarta feira passada. O algarvio que dormia na cavallariça do sr. Cândido Penedo desappareceu. Mas sabe v. porque? Eu lhe diga porque o fizeram desapparecer: o Fadista e um soldado mandaram-no chamar á cavallariça onde elle se achava torrando umas fatias para ceiar com elles; o homem que fazia freios sahiu e elles mandaram-no á venda da Maria Gertrudes mas esta como nada queria mandou-o embora; depois disseram-lhe que fosse com elles para ir levar uma cama á viuva que mora d’esquina dos arcos mas era mentira d’elles porque elles o que quizeram foi levar o homem porque tinha tenção de ter dinheiro para fóra da cidade para o roubarem e matarem. Isto merece ir ao Bejense. ** A fallar a verdade não fizemos caso d’este apontado de rodilhas, mas encontrando o administrador substituto, o sr. Moraes Corrêa, por acaso fallámos-lhe no que dizia o anonimo. Immediatamènte sua s.ª começou com o seu costumado zelo e tino a indagar o negocio e veio ao conhecimento de que era verídico, até certo ponto, o que nos haviam relatado. Levantou o auto, que já hoje se acha no poder judicial, no qual depuseram oito testemunhas e continua syndicando ainda pois que o tal algarvio não consta achar-se em localidade alguma e se foi assassinado, como se diz, o cadaver não apparece pois tem-se passado revista a poços, fossos, barrancos etc., etc., mas sem resultado. O Fadista, que não resta duvida ter entrado no negocio, fugiu d’esta cidade, e hontem a requisição da authoridade judicial foi preso um porta-machado do regimento 17 d’infanteria, por idruvilha o Cem, o qual se diz, e com fundamento que tambem se acha implicado no crime. E este soldado, n’uma das noutes passadas, entrou em casa de uma das testemunhas para a assassinar o que conseguiria, se não houvessem gritos de soccorro. Hoje foram acompanhados pelo escrivão da administração, regedor do Salvador e cabos de policia, a visitar a casa do porta-machado e duas contíguas, o sr. delegado do procurador regio e administrador d’este concelho. Cavou-se até grande profundidade em todo o quintal mas não se descobriu cousa alguma. As authoridades continuam activamente nas suas diligencias. O sr. Moraes Corrêa, administrador, e Costa e Almeida, delegado são dignos de todo o louvor pela maneira por que hão procedido.