Ferreira 20 d’agosto de 1866
Sr. redactor—Tem o seu jornal aqui um correspondente que se encarregou de noticiar-lhe o resultado da eleição municipal e ultimamente o da mesa da misericórdia, de certo pela respeitabilidade dos membros que a compõem; mas noto o cuidado que tem tido de deixar em silencio a historia, aliás digna de saber-se e que acompanha cada uma delias, talvez por entender que não devia occupar-se de coisas insignificantes; mas eu que penso de outro modo e que vi e estou vendo, cada vez mais, tanta miséria, tanta indecência e tão grandes escandalos que por aqui vão, sem que appareça uma alma caridosa que tente pôr-lhe um dique, estou meio resolvido a usar ao menos, do desafogo que a lei permitte a todo o cidadão, dando conhecimento ao publico dos abusos e não sei que mais que diariamente se observam para o que desde já fica prevenido; limitando-me por esta vez, a pedir-lhe simplesmente o favor de inserir no Bejense as poucas linhas que se seguem. Notando-se com grande pasmo e admiração o rigor (geralmente esquecido) com que o nosso administrador do concelho fiscalisa em certos e determinados casos o cumprimento da lei; animou-me a perguntar-lhe se na ultima eleição da misericórdia se cumpriu fielmente o compromisso? Se o provedor e o escrivão tem a idade exigida, não faltando já nas qualidades pessoaes tão geralmente recommendadas? Se todos os membros da mesa tem posição definida, assim como os novos irmãos que fizeram a eleição? E finalmente se não tem consciência de que todo o processo eleitoral está eivado d’irregularidades mais que suficientes para ser annullada tal eleição? E porque não deu conhecimento d’isto tudo á auctoridade superior como o fez a respeito da eleição do anno passado? A esta pergunta respondemos nós—é porque os espíritos santos de orelha de então são o provedor e escrivão d’agora. E para que? para satisfação de vinganças pessoaes, como já começaram a fazer, demittindo o capellão sem ser convencido de ter commettido faltas, dando posse immediatamente, para dizer hm missas, ao prior! e para acompanhar a bandeira da irmandade nos enterros a um velho aprendiz de padre, ambos collegas e amigos! Mudando de assumpto perguntamos mais ao sr. dr. José Lança se já entrou no cofre municipal a quantia de 22:500 producto da venda que se fez de umas talhas penhoradas em agosto de 1864 para pagamento de derramas, quantia que, geralmente se diz, suas-’ embolçou ou o seu amanuense; accrescentando-se agora, que para cobonestar, a acção que tem seu que de.... exquisita, se figurara um deposito em mão do sogro d’este ultimo, quando a cousa se simplificava a entregar o dinheiro no cofre competente. Veremos o que a isto se responde; e se d’este modo despertamos a attenção do sr. governador civil, e se afinal reconhece por estes factos apontados e pelos que mais publicaremos, que não é conveniente impor com pertinácia uma authoridade sem prestigio a um concelho, que era digno de melhor sorte, do que aquella de que está sendo victima, pelos erros e incúria d’aquelles a quem cumpre empenharem-se pelo seu renome e bem-estar, cabendo-lhes por isso grave responsabilidade, que poderão afastar, se ainda quizerem pôr termo ao mal que tem deixado correr á revelia. Voltaremos ao assumpto, porque acabaram as contemplações. * *