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Uma palavra acerca do antigo mosteiro de S. Cucufate, hoje (vulgo) S. Thiago das vinhas, freguezia de Villa de Frade—A dois kilometros approximadamente de distancia, ao oeste, desta Villa de Frade, se encontra o antiquíssimo mosteiro de S. Cucufate, hoje (vulgo) S. Thiago das Vinhas, por estar o local, que o circumda do povoado de vinhedo, e por se achar n’aquelle demolido, o vetusto mosteiro, onde se admira o residuo de um grande colosso, muitas galerias e abobadas de argamassa; a imagem do Santo, a quem annualmente vão as romeiras ofertar suas fogaças e render-lhe o culto, que a santa egreja lhe concedeu em troca dos serviços que elle relevantemente lhe prestou, na cruzada contra os musulmanos, e pelas suas eximias virtudes. Foi no correr do anno 3811 da criação, e 151 antes da era christã, sendo cônsul romano e pretor Lucio Munio, que se achava n’esta península o proscripto Cezarom tambem romano, o qual capitaniando as hostes lusitanas alcançou contra Roma immensas victorias. Como porem a soldadesca romana se possuira do pânico, em virtude dos estragos, que os lusitanos lhes faziam sempre que havia peleja; o pretor Lucio Munio fez votar a Prozerpina de lhe eregir um templo, onde vencesse e desbaratasse completamente o exercito do seu inimigo Cezarom. Confiando a soldadesca romana nos votos feitos pelo seu general, readquiriram a coragem perdida, e bateram a Cezarom desde Andaluzia, passando o rio Guadiana, e a cinco legoas de distancia, ao norte, d’este mesmo rio, n’um valle cercado de arvoredo teve logar uma batalha, onde foi completamente desbaratado todo o exercito lusitano, e morto o seu general Cezarom. Este valle é onde hoje se encontra o antigo mosteiro, que, Rezende nas suas antiguidades diz ser o templo de Prozerpina eregido pelo cônsul romano L. Munio em cumprimento do voto, que tinha feito, ou um outro levantado de suas ruínas; seja como for, o facto é, que el-rei D. Affonso 3.º no dia 24 de junho no anno de 1254 fez doação do mesmo aos conegos regulares de S. Vicente extramuros de Lisboa, egualmente terras adjacentes ao mesmo mosteiro; consentindo n’esta doação o bispo de Evora D. Martinho, como se vê na seguinte declaração do dito prelado—Cum D. A. Illustris Rex Portugaliae accedente concensu nostro (scilicet Martini episcopi) monasterium S. Cucufatis Eburensis Diocesis nuper de fanis gentilium cum tacis adjacentibus vobis contulit. Nos donationem ejusdem Domini ratam habentes, confirmamos etc. Este mosteiro foi o mais celebre no seu tempo, por ser a primeira casa dos conventos da provincia transtagana; o seu superior tinha o titulo de abbade dos abbadcs, ou prior dos priores, como se pode ter na seguinte carta que foi encontrada em Roma, no Vaticano, pelo dr. João Affonso de Beja no tempo do reinado de D. Sebastião endereçada a um S. pontifice: Abbas Abbatum de S. Cucufate mittimus ad te nostrum legatum nostri oppidani. Re uje quand vis, dummodo sim Abbas—Vale. Nas antiguidades de Vianna do Alemtejo se lê, que Alvito, Villa Ruiva, Villa Alva, Oriola, Malcabra, ou Malcabrão pagavam foral á Serpa, Bona Albergas; ora todas estas povoações ainda hoje existem com maior ou menor brilho, que tiveram então, e só Malcabra, d’ella se encontraram relíquias nas escavações, que fizeram junto do demolido mosteiro de S. Cucufate: foi esta povoação, que chamaram cidade, evadida por uma devastadora epidemia, que obrigou a seus habitantes a deixarem o antigo solar, e virem alojar-se em choupanas, na encosta do outeiro, sobre o cume do qual está eregida a ermida S. Antonio (vulgo) ao Alto, e desde então aquelle local, onde estiveram alojados os primeiros habitantes d’esta villa, ficou conhecido pela Sitio das Choupanas, o que ainda hoje conservam. Como porem os conegos regulares possuíssem a herdade denominada dos—Moutinhos—que lhes foi dada conjunctamente com o mosteiro, elles offereceram terreno aos indivíduos que habitavam nas choupanas, e começaram a edificar casas, chamando á povoação nascente Villa de Frades, por serem elles, quem lhes alcançou o foral da mesma Villa. Esta povoação tem hoje cerca de 500 fogos, o solo é proprio para vinhedo, o seu commercio exclusivo é o vinho, que exporta em muita abundancia, e de boa qualidade, a despeito de ser preparado sem apuro. A matriz parochial é um templo vasto feito a despesas dos conegos regulares de S. Vicente, e o orago é São Cucufate, que os primeiros habitantes trouxeram do antigo mosteiro, quando foram obrigados, pela assoladora epidemia, a deixarem o seu solar. Este santo é portuguez, natural de Braga, irmão de S. Tarquato, e foi martyrisado em Barcelona no tempo de Nero, sendo proconsul Sérgio. Antonio Francisco Galfarro.