A BATALHA DE SADOWA—«Escrevo esta carta—dizia em 4 de junho d’este anno o correspondente da Patrie—no meio de uma ambulancia, e que ambulancia! uma cidade inteira! Os trens, que chegam sem interrupção desde pela manhã, depositam na estação da via ferrea centenas de feridos. A terra está juncada de palha ensanguentada, e rastos de sangue aqui e acolá indicam em cada rua a passagem dos fúnebres transportes! Quantos soffrimentos! mas tambem quanta dedicação! Cada habitante dormirá esta noite no solo. Todas as camas e roupa branca, de que a cidade podia dispor, foram distribuídas aos feridos. Que desastre! A quem attribuil-o? A voz publica profere os nomes de grandes personagens, de mistura, com a palavra traição. Se isto é verdade, não sei dizebo. No meio d’esta terrível confusão torna-se impossível obter esclarecimento algum. Vão lá conversar com desgraçados que teem membros fracturados, e que, com um supremo esforço de vitalidade, vos pedem agua! Com tudo graças á amabilidade de alguns officiaes feridos menos gravemente, pude colher os seguintes pormenores da batalha de Sadowa. Depois do segundo combate de Skalitz perdido pelos austríacos, o exercito prussiano marchou para a frente, estendendo a sua linha desde Boemische-Trubau até Munchsgratz, e cortando as communicações entre Josephstadt e Koenigsgraetz. Em 2 de julho, sendo informados que o exercito bavaro ia operar a sua junção com as tropas austríacas, os prussianos saíram de Boemische-Trubau e, passando por assim dizer ao alcance de artilheria de Koenigsgraetz, chegaram a marchas forçadas até aos arredores de Smidar, onde se operou a junção com o formidável corpo de exercito vindo de Atunchsgratz, Jung-Buuzlau e Melnick. Durante a noite de 2 para 3, as tropas dormiram ao ar livre, e, antes do alvorecer, foram occupar as suas posições de combate entre Nochanitz e Simuig, que em parte fazem frente a uma posição elevada, onde se acha um burgo chamado Chlumetz. O marechal Benedek, cujo plano parece ter sido attrahir o exercito inimigo entre Koenigsgraetz e Chlumetz, e que, para este fim, tinha reunido em torno de si um dos mais formidáveis exercitos (os militares avaliavam-n’o em 280:000 combatentes), modificou as suas primitivas disposições. O exercito austríaco tomou posição entre Konigsgraetz, Uppe, e Chlumetz, formando um triângulo escaleno cujo vertice era Chlumetz. Seria difficil escolher uma posição mais desfavorável. Na rectaguarda do exercito assim disposto, o Elba, mui lodoso, forma, n’uma extensão de muitas léguas, um angulo recto, o qual, n’uma das margens, confina com a via assaz elevada por onde passa o caminho de ferro. Além disso, o terreno comprehendido n’este angulo, o terreno, digo, é formado em parte de turfeiras e de pântanos. O sitio escolhido para campo de batalha é mal conhecido. Os prussianos começaram o ataque segundo a sua nova tactica, isto é arrojando um chuveiro de ballas contra os seus adversarios, e em seguida estendeu-se o canhoneio por toda a linha, para depois marcharem sobre Chlumetz á baioneta calada. Esta posição foi tomada e perdida varias vezes. Ao meio dia, em resultado de movimentos mal combinados ou mal comprehendidos, o exercito austríaco foi desbaratado no centro, ao passo que (é aqui que o facto se torna inexplicavel) em consequência de uma manobra executada com uma fortuna rara por varias divisões prussianas, o corpo de exercito concentrado em Chlumetz era atacado ao mesmo tempo na rectaguarda e de flanco. Supponde, que de repente nos achamos na presença de um cataclysmo, que a terra se abre de um só golpe ou que um volcão rebenta do solo, e tereis uma fraca ideia do assombro causado ás tropas austríacas logo que se viram assim atacadas. Combatiam com encarniçamento filho da desesperação com o inimigo situado na sua frente. De súbito, como duas montanhas que um abalo de terra fizesse abalroar, os batalhões compactos da rectaguarda abalroaram com os batalhões que formavam á frente e que recuavam. Resultou d’ahi um choque enorme e mortifero, cujo tumulto foi dominado pelo grito de: Estamos cercados. As vozes de: Voltar para a rectaguarda! formar quadrado! conseguiram fazer-se ouvir, porem não puderam ser executadas; o combate á baioneta tornava-se quasi impossível por causa do aperto em que se achavam as fileiras; foi preciso recorrer ao sabre, á lucta corpo a corpo, e combater á maneira dos animaes com as unhas e os dentes, e isto não para vencer, mas para fugir. Ao anoitecer, o exercito austríaco apresentava apenas uma serie de troncos informes e mutilados. Tocou-se á retirada sobre toda a linha, a qual foi executada com bastante ordem até ás primeiras turfeiras; junto ao Elba, transformou-se em derrota completa. A ala direita, mais favorecida, pôde abrigar-se em Koenigsgraetz. A ala esquerda e o que restava do centro suspendeu a sua marcha em Pardubitz, conservando assim o Elba entre si e os vencedores. O quartel general foi provisoriamente estabelecido uma legua mais adiante n’um local chamado Huhenmauth. Os prussianos não abusaram da sua victoria: senhores do campo de batalha, pouparam os destroços d’um valoroso exercito tão subitamente destruido. Ninguém poderá dizer ao certo o algarismo dos mortos: a ajuizar-se pelo numero dos feridos dever-se-hia computar em muitos milhares. A artilheria austríaca foi sublime de energia e empregou os maiores esforços para defender e salvar as suas peças. O general ChnMHhs e o chefe de estado maior general foram presos. As estatisticas publicadas depois d’esta jornada infeliz dão-nos os algarismos seguintes: Mortos, afogados no Elba, ou feridos, apenas mil homens! Quasi toda a cavallaria pereceu afogada. Duzentas e vinte peças de artilheria cahidas em poder dos prussianos, muitas bandeiras; tal foi o balancete d’esse fúnebre dia, único nos annaes militares da Áustria.
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