Conferencia com Saldanha em 18 de novembro de 1830—«O general Saldanha veiu a Londres em consequencia de uma carta de Lima que o mandou vir aqui para tratar com elle sobre um seu offerecimento para servir de qualquer modo em qualquer empreza que houvesse contra o governo de Paris. Antes d’esta conferencia, houveram varios officios e respostas entre elle e D. Thomaz. Teve logar a conferencia hoje, e n’ella propoz o general, que tendo ajustado entre elle e tres hespanhoes—Pinheiro, Quadra e Rodriguez—com missa rios de Mina, o ajuntar uma força de emigrados portuguezes nas fronteiras de Hespanha, para depois de lá estarem, passarem por Hespanha para Portugal, necessitava de libras 8:000, para levar a effeito este plano. Depois de se lhe mostrar a impossibilidade de executar tal plano, não só porque não havia emigrados sufficientes para formar um corpo que merecesse alguma consideração, mas porque Mina tinha sido repellido e dispersada a sua força, convieram dois planos que se lhe apresentaram. 1.º Se a Galliza se revoltasse, embarcar comigo e mais alguns para Vigo e de lá passármos ás províncias do Norte, promover a reacção—2.º Se tal não acontecesse, então esperarmos novas de Lisboa, e se tivéssemos a certeza de que um regimento nos vinha esperar ao ponto onde desembarcássemos, embarcarmos em um barco de vapor, e irmos tentar fortuna d’este modo, pondo-nos á testa d’esse regimento, e levantar o grito da liberdade na nossa patria. Disse por ultimo que estava prompto para tudo, e o que queria é que ninguém fosse a Portugal sem elle ir tambem.» Eis totalmente esclarecida a famosa conferencia. Essa conferencia não foi promovida por iniciativa da regencia ou seus delegados, mas sollicitada pelas instancias do sr. duque de Saldanha, que esquecido das multiplicadas aggressões que movia á mesma regencia, e inspirado do mais louvável patriotismo, levou a abnegação a ponto de lhe offerecer os seus serviços. Não se tratou alli uma palavra da ilha da Madeira, como não podia tratar-se, visto terem sido duas vezes rejeitadas nos conselhos superiores, conforme do relatorio de 1831 já se viu, todas as idéas para restaurar aquella ilha. Não se recebeu por inadmissível a proposta apresentada pelo sr. duque. Dispozeram-se ao contrario dois novos planos, igualmente arrojados para penetrar no reino, e atacar a usurpação, e era meu pae quem espontaneamente se promptificava a acompanhar o sr. duque, que estava por tudo. Houve confusão, e confusão grande nas reminiscencias de s. ex.ª, e como não é justo que d’essa confusão possa resultar menoscabo a um sepulchro respeitado, antes para honra da historia e do paiz, importa reunir e perpetuar todos os documentos que illustrem os acontecimentos e illibem os grandes caracteres e as cinzas sem razão offendidas; espero que v. não duvidará dar ainda logar a estas linhas pelo que se confessa muito grato. De v. etc. S. C. 2 de novembro de 1866. Visconde da Silva Carvalho.
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