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Artigo

Ainda sobre a carta do duque de Saldanha

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Bragança · Lisboa · Porto · Setúbal · Portugal Correspondência · Interpretacção incerta

O sr. Francisco Travassos Valdez, filho do general conde de Bomfim, publicou no Jornal do Commercio a seguinte carta: Sr. redactor—Devéra eu ser um dos primeiros, mas não serei talvez dos últimos, a escrever estas regras e a pedir a v. o obséquio de as fazer inserir no proximo numero do Jornal do Commercio, a proposito de uma carta que no meu regresso de fóra do reino, vim encontrar publicada em 26 de outubro ultimo no n.° 3:905 da mesma folha, na qual s. ex.ª o marechal duque de Saldanha falla de seus serviços e relata varias occurrencias, que lhe dizem respeito, por occasião do cerco do Porto e das campanhas que se lhe seguiram: mas, infelizmente, vim tambem logo passar pelo desgosto do fallecimento de minha muito prezada mãe, a ex.ma condessa do Bomfim. Por isso e pela dor que tenho soffrido, não me foi possível até agora cumprir este sagrado dever, em homenagem á memória respeitável do meu sempre lembrado pae, o bravo e honrado general conde do Bomfim. Por diversos motivos que interessam ao illustre marechal, apresenta s. ex.ª, na sua mencionada carta, os nomes, os feitos, as opiniões, etc., de alguns dos beneméritos milhares que mais se distinguiram durante aquella guerra fratricida. Como eu veja, porém, que não é citado um dos mais principaes, qual foi, sem duvida, o meu já fallecido pae, para com quem, aliás, houve sempre muita ingratidão da parte de alguns ministros que dirigiram este paiz, assim como, por morte d’elle, houve egual e manifestamente para com a minha infeliz mãe, apezar dos serviços e do copiosissimo sangue derramado do primeiro e dos trabalhos e riscos de ambos pela causa da liberdade e do throno constitucional, como o prova a historia do paiz e os preciosos autographos e outros documentos que, na minha família, possuímos—única herança de meus paes, além do seu honrado nome, como já alguém o tem publicado,—seja-me relevado, como filho extremoso, que me préso de ser, fazer aqui notar muito claramente, que se o sr. marechal duque de Saldanha não citou o nome de seu digno camarada de armas, o valente e bem conhecido general conde do Bomfim, foi de certo, por entender que era desnecessário para o fim que levou em vista, e nunca por não ser s. ex.ª o primeiro, em todo o tempo a tributar respeito por aquelle seu illustre companheiro de guerra,—o único, além do nobre duque, que teve a honra de haver servido de chefe do estado maior de sua magestade imperial o senhor D. Pedro, duque de Bragança, dirigindo, sob as suas immediatas ordens, meu pae, por consequencia as respectivas operações militares. Não ha que admirar de que o sr. duque de Saldanha, tractando de tão memorável guerra, não falle do general conde do Bomfim, na carta a que alludo, quando provavelmente por alguns motivos, tambem não falla ou pouco diz de outros muitos bravos, uns já fallecidos, outros ainda vivos, e commandantes de corpos, n’aquella epoca, que tanta ajudaram s. ex.ª nas batalhas que ganhou, e n’outras em que não entrou, taes como os srs. Sartorius (hoje conde de Penha Firme), Napier (depois conde do cabo de S. Vicente), visconde da serra do Pilar, barão do Monte Pedral, condes da Campanhã, da Foz, das Antas e o de Santa Maria, Schwalbach (depois visconde de Setúbal), barão de S. Cosme, general Bravo, coronel Pacheco, etc., etc. Sobretudo, deve-se notar muito particularmente, que tambem do nosso glorioso duque da Terceira, commandante em chefe do exercito constitucional, cujos relevantissimos serviços são notáveis entre nacionaes e estrangeiros, muito pouco diz o sr. marechal de Saldanha na sua referida carta, e nada absolutamente de maiores glorias, adquiridas, incontestavelmente, acima de todos os generaes do exercito constitucional, por sua magestade imperial o senhor D. Pedro, duque de Bragança, que a nação e o mundo todo sabem foi quem verdadeiramente assegurou o throno constitucional, graças á valentia, sem egual, de tão grande capitão, a maneira porque se expunha aos perigos e dava o exemplo, e, com especialidade, á sua reconhecida perícia e firmeza. Em vista de quanto tenho exposto, repito, não ha que admirar de que na alludida carta do sr. marechal duque de Saldanha não toque nem sequer por incidente no seu camarada e antigo amigo o general conde do Bomfim. Mas, apezar d’isso, não deve esquecer-se a gloriosa parte que a este ultimo coube, quando ainda conhecido como o general Valdez, durante o cerco no Porto, e as memoráveis campanhas que se lhe seguiram, muito mais sendo certo que meu pae mereceu a sua magestade imperial o senhor D. Pedro a alta distinção de nomear seu ajudante general, logo depois da batalha no dia 23 de junho de 1832, pelos importantes serviços que ajudado do bravo coronel Pacheco, prestou n’aquella acção; distinção e confiança que o valente general conde do Bomfim continuou a merecer, a ponto depois, ser encarregado das funcções de chefe do estado maior do exercito, e dirigindo as operações sob as immediatas ordens do imperador, como dito fica, até que falleceu sua magestade imperial, porque a verdade é que o nobre marechal duque de Saldanha, mesmo quando chefe do estado maior imperial se achava distraído das respectivas funcções, por commandar um corpo do exercito em operações, com o qual, ajudado de tantos bravos, alcançou brilhantes victorias, que tanto lustre déam á carreira militar de s. ex.ª. Além de quanto deixo referido, a melhor prova da subida consideração e particular estima do illustre marechal para com o conde do Bomfim são as próprias partes officiaes de s. ex.ª das quaes, como de justiça fez a meu pae os elogios os mais honrosos pela maneira porque coadjuvou o sr. duque em algumas das acções famosas em que ambos entraram—particularmente por occasião do ataque contra as linhas que occupavam defronte do Porto as tropas do senhor D. Miguel de Bragança, rompendo o bravo marechal e meu pae as mesmas linhas, e levantando o cerco da cidade, cada um por seu lado; á frente de suas respectivas columnas. Não são estes só os serviços mais notáveis prestados pelo conde do Bomfim, e que lhe dão justa consideração publica, porque antes e depois fez outros muitos e da maior transcendência para o paiz e para a actual família reinante, dando-se a circumstancia, mezes antes da chegada de s. ex.ª o marechal duque de Saldanha ao Porto, de ter meu pae contribuído efficazmente para que o exercito inimigo não conseguisse entrar na cidade havendo rompido as linhas das tropas constitucionaes, do que lhe proveiu o titulo de Barão do Bomfim, porque este general, na defesa de tão arriscado ponto alli ficou ferido quasi mortalmente no memorável dia 29 de setembro de 1832 sendo depois em 1838, elevado á grandeza d’este reino, com o titulo de conde, por haver suffocado a anarchia no paiz e evitado graves desgostos, e novamente salvado Lisboa, até o proprio throno constitucional, que essa mesma anarchia ameaçou seriamente, muito de perto, como é bem sabido. Finalmente, ouço, que s. ex.ª mesmo o sr. duque de Saldanha a todos diz com a maior imparcialidade pelo seu natural e cavalheirismo e pela sua muita bondade, quanto foi sempre amigo e respeitador de meu pae, tanto por haverem servido de soldados juntos, desde a guerra da peninsula, sendo ambos mui jovens e partilhando eguaes perigos como muito especialmente tambem pelo muito sangue que o conde do Bomfim, já na patente de general, derramou pelo bem da nação, salpicando até a farda do illustre marechal na acção de 5 de setembro de 1833, em Lisboa, quando meu pae ficou gravemente ferido n’um braço. Creio, portanto, haver mostrado bem palpavelmente que da carta do nobre duque de Saldanha não deve resultar a mais pequena impressão, no inexacta acerca da consideração e estima que merece, particularmente a s. ex.ª, e á nação em geral a memoria do bravo e honrado general conde do Bomfim, meu sempre chorado pae, e, cumprindo assim o meu dever de filho, terminarei aqui esta minha carta, assignando-me, como sempre, com toda a estima e n maior consideração, por sympathia d’aver e gratidão. De v. etc. Francisco Travassos Valdez.