CORRESPONDÊNCIAS
Ao ex.mo ministro do reino — Beja 4 de dezembro de 1866. — Se não ligássemos, sr. redactor, no seu jornal a consideração que merece, e bem assim aos nossos escriptos em assumptos similhantes, começaríamos a resposta ao artigo do sr. Thomaz Nobre de Carvalho inserto no Jornal do Commercio numero 3935 pelo verso seguinte do Palimnestiço: Unde venit tibi, parva, vae fiducia tanta? porem deixamos esse thema, que assentava tão bem no sr. Nobre, e abraçamos antes o estylo serio baseado somente na verdade, para rebater a sua bagatella, pela qual se nos quer inculcar um Demosthenes, um Cícero, e não sei que mais. O sr. Nobre pelos seus escriptos, e pelo juízo que faz de si, quer-nos levar a crer que o Espirito Santo operou milagres, illuminando o espirito e intelligencia daquelle, que quando estudava geographia respondia ao seu professor da maneira seguinte. Perguntava o digno professor de geographia: onde vai, sr. Nobre, desaguar o Danubio? Respondia o sr. Nobre pondo a mão no mappa sobre o reino de Portugal: «aqui sr. doutor.» Hilaridade de todos os condiscipulos!! Tornava o digno professor: onde fica, sr. Nobre, o Cabo da Boa Esperança? Respondia o sr. Nobre pondo a mão sobre o norte do mappa: «cá o sr. doutor» etc., etc. Hilaridade geral!!! E quer ser professor d’um lyceu um individuo, que arrastou creditos d’esta natureza, e que hoje são apontadas publicamente na praça e lojas publicas d’esta cidade, pelos seus contem por aneus, e proprios condiscipulos!!! É aonde pode chegar a innocencia do sr. Nobre, para não dizermos outra cousa. Deixamos as provas do concurso, para onde nos chamou, porque já está discutida a superioridade do sr. Graça sobre o sr. Nobre, e creia que a opinião publica é um juiz auctorisado, e que n’ex.mo ministro do reino deve respeitar, porque o sr. Nobre tem visto que alguns jornaes se teem pronunciado a favor do sr. Graça, e tem sido coherentes comnosco no nosso pensar a seu respeito. Se s.s.ª tivesse justiça não faltar ia quem viesse advogar a sua causa, porem até hoje ainda ninguém o fez, e foi necessario que s. s.ª se arvorasse em seu defensor e proprio juiz. Quando a opinião publica levanta os seus brados a favor d’um indivíduo, é porque tem fundamentos, e bem assim no caso combatido, e se não veja sr. ministro do reino o systema que o sr. Nobre adoptou n’este lyceu como professor interino, e que o recommenda muito. Ei-o—Lê-se no Bejense n.º 100 de 22 de novembro de 1862: «Que bom professor! ...Que coração! —Homo horae accusativo do singular? perguntava com grande emphase da magistral cadeira que interinamente occupa, o profundo latino Nobre de Carvalho a um innocente de 13 a 14 annos. Horae... respondeu o innocente. Quinau! Horam... respondeu um membrudo e alambazado que se seguia. Chegue-lhe, e sem dó nem consciência tremenda palmatoadas era dada no innocente. Ablativo do plural? Torna de novo o professor. Iluribus... Quinau! Iloris... Chegue-lhe, dizia o interino acudindo-lhe aos brios aquelle sorriso alvar que tão bem lhe fica, e assim continuou a perguntar e a mandar bater desapiedadamente n’aquella criança: affirmam-nos que o innocente levara vinte e tantas palmatoadas. Aposto sr. professor padre mestre ou que é, que te lha perguntassem o verbo tero, v. s.ª ou v. reverendíssima errava? Que lhe parece?» Por estes motivos e pelas impressões pouco lisongeiras que deixou a todos os professores, e mui especialmente n’um dos ornamentos d’este lyceu o sr. dr. Barradas, cuja grandiosidade d’alma e fina educação soffreu ao sr. Nobre certas leviandades de ditos, como dizem nos círculos d’esta cidade, se conhece quão inconveniente seria para o lyceu desta cidade, se as protecções do sr. Nobre supplantassem a razão e a justiça. Conteste-nos pois sr. Nobre isto tudo se é capaz, e prove-nos que no seu concurso sustentou o dialogo em inglez, como o sr. Graça, que não se servio de diccionario para fazer as versões, que vive em perfeita harmonia com os professores do lyceu, que então eris mihi magnus Apollo, e acreditaremos no milagre do Espirito Santo, de outra forma persistirão sempre os nossos exemplos.