VARIEDADES
(TOMOS) D. Manuel Martins Manso, por mercê de Deus e da santa sé apostólica bispo da Guarda, do conselho de sua magestade fidelíssima, par do reino, etc. — A todos os reverendos parochos do nosso bispado, saude, paz e benção em Jesus Christo, nosso redemptor e salvador. Fazemos saber que no Diario de Lisboa n.º 234, deste anno, vem publicadas umas instrucções, expedidas pelo ministerio do reino em 12 de outubro ultimo, pelas quaes se devem regular os commissarios dos estudos, inspectores das escolas de instrucção primaria, da visita extraordinaria e inquérito, a que hão de proceder no corrente anno lectivo. Nestas instrucções faz-se um apello aos prelados diocesanos, para que convidem os reverendos parochos a coadjuvarem os inspectores das escolas, ao serviço da visita que lhes é commettido. Igual appello se faz aos prelados, em portaria do ministerio dos negocios ecclesiasticos e de justiça, de 24 do mesmo outubro; na qual o ex.mo ministro se compraz em reconhecer a benefica e salutar influencia, que o digno clero parochial exerce sobre os povos, e o valioso auxilio que elle pode prestar aos poderes públicos, no empenho de diffundir a instrucção e educação popular, fazendo-a chegar até ás ultimas camadas sociaes. Atendendo nós gostosamente aos desejos do governo de sua magestade, convidamos os reverendos parochos do nosso bispado, a que da melhor vontade e promptamente auxiliem os commissarios dos estudos e inspectores mencionados, em tudo o que de si dependa para o bom e instruido desempenho da sua missão; prestando-lhes os esclarecimentos e informações que neste sentido lhes solicitarem; e satisfazendo a qualquer justa requisição, que a bem das escolas de suas parochias por elles lhes forem feitas. Podem alem disto os reverendos parochos prestar um bom serviço á causa de desenvolvimento e propagação da instrucção popular; já preparando a opinião publica para que favoravelmente acceite as uteis reformas, que neste ramo o governo de sua magestade tenciona em breve propor ao poder legislativo, segundo as bases indicadas nas precitadas instrucções; já persuadindo ao estudo, pelas vantagens que delle resultam para os muitos e variados usos da vida; e admoestando publica e particularmente os chefes de familia, a que não descurem a educação intellectual e moral de seus filhos e familiares, mas sejam zelosos em os fazer frequentar as escolas diurnas ou nocturnas, que por toda a parte se vão estabelecendo em grande numero. Outro serviço maior podem os reverendos parochos prestar á egreja e ao estado, á causa da religião e da moral, á mesma causa da sã instrucção e educação popular. Para lembrar este serviço, reproduziremos as bellas palavras do ex.mo ministro dos negocios ecclesiasticos e de justiça, na citada portaria de 24 de outubro proximo pretérito: «Pregar e ensinar, diz elle, é preceito do Evangelho. A visita e a inspecção dos que ensinam, e a correcção dos erros de doutrina, é um dos primeiros encargos do officio pastoral.» Segundo esta doutrina, absolutamente conforme ao evangelho e aos sagrados cânones, os reverendos parochos, cada um na sua freguezia, são uns verdadeiros inspectores, ordinários e permanentes, constituidos pela santa egreja como sentinellas vigilantes tendo como um dos primeiros encargos do seu officio pastoral, o visitar as escolas, e vigiar assiduamente sobre as doutrinas que nella se ensinam, para corrigir os erros, contrários as verdades do evangelho, que lhes cumpre pregar e ensinar constantemente, e procurar que sejam ensinadas e observadas em toda a parochia, e muito principalmente nas escolas publicas e particulares d’ella. A este proposito, não podemos dispensar-nos de empenhar o zelo e constante vigilância dos reverendos parochos, para preservar os fieis commettidos ao seu cuidado espiritual, e sobretudo as innocentes creanças das escolas da leitura dos maus livros, e jornaes anticatholicos, que são uma verdadeira peste da sociedade. É bem sabido, como a imprensa, por um deplorável abuso da liberdade, está lançando diariamente no centro da sociedade, e introduzindo no seio das famílias, milhares de livros e impressos os mais detestáveis e corruptores. Uns, declaradamente impios e atheus, chegam a negar a divindade de Nosso Senhor e Dominador Jesus Christo! e até a existência do proprio Deus!! Outros pregam mais ou menos abertamente essa heresia, ou aggregado de heresias, que se chama o protestantismo. Cremos que n’esta diocese não terão ainda penetrado estas duas classes de livros prohibidos. Mas se desgraçadamente alguém os possuir sem licença canônica, tem rigorosa obrigação, segundo os sagrados cânones, de immediatamente os entregar ao seu reverendo parocho, para este os remetter ao seu prelado. É de receiar, que sejam mais vulgares, especialmente entre a mocidade, os chamados romances e livros amalorios, cheios pela maior parte de obscenidades e torpezas revoltantes, e repassados do mais brutal sensualismo. Os menos offensivos d’entre elles sob o ponto de vista da honestidade, são a outros respeitos immoraes. O duello, o suicidio, o aborto, o infanticídio, o perjúrio, a blasfêmia, o sacrilégio e mil outros flagícios, são nelles propostos ás turbas incautas, como outras tantas acções indifferentes senão virtuosas. Parecem adrede escriptos para promover a depravação e corrupção de costumes. Um christão, uma pessoa honesta peja-se de os lêr. A par de todos estes nefandos escriptos, e tal mais ainda do que elles, empenha-se, na obra de perverter e descatholisar o povo portuguez, o grande numero de jornaes que se publicam por todo o reino, infensos á santa egreja catholica, e ao seu chefe, o summo pontífice, bispo de Roma, e vigário de Jesus Christo na terra. Quanto são dignos dos maiores louvores os poucos athletas catholicos que no campo da imprensa periódica tão gentil e denodadamente rebatem o erro e a mentira; tanto são dignos de lastima os muitos adversários, que, desconhecendo a nobre missão da imprensa, a toda a hora a desauthorisam por seus ataques mais ou menos violentos ao catholicismo. Ainda que nem todos ousam atacar descobertamente e affrontar os sentimentos eminentemente catholicos, que animam a grande maioria do nosso povo; vão sempre lançando pérfidas insinuações e calumnias contra o supremo chefe da egreja, e contra a santa sé, no intuito de separarem o reino fidelíssimo do centro da unidade catholica. Neste particular, ha uma regra certa para discernir os jornaes verdadeiramente catholicos dos que falsamente se dizem taes para illudir os incautos: é o modo como fallam do papa, e da santa sé. Não pode ser catholico, não pode ser lido por catholicos, todo o escriptor ou escripto, que diz mal do pae commum dos fieis, e desacata ou se insurge contra o seu poder espiritual ou temporal. Estes taes jornaes, bem como os livros obscenos e immoraes, ou hereticos e impios a que alludimos cumpre que os reverendos parochos se empenhem com toda a solicitude, em retirá-los das mãos dos fieis e afasta-los para bem longe das escolas, aonde elles podem fazer os maiores estragos. Pelo púlpito e pelo confessionário, pelas admoestações publicas e pelas correcções fraternas, seguindo sempre os dictames da prudência e as regras evangelicas, podem os reverendos parochos, pelo legitimo ascendente que o seu sagrado ministério lhes dá sobre as consciências, combater com vantagem contra todas estas pestiferas producções da imprensa, que tanto a degradam e envergonham. Em todo o caso, avisam os inexperientes, desencarregam suas próprias consciências, e offerecem um poderoso concurso aos poderes públicos, no empenho de derramar nas classes populares a verdadeira illustração; que é só a que anda acompanhada do santo temor de Deus, e da observância da religião de nossos paes, hoje tão desacatada e combalida. E agora, já que alludimos á crua guerra que por tantos modos se está fazendo ao catholicismo, não concluiremos, sem chamar a attenção dos reverendos parochos e mais clero desta diocese, para o impreterivel dever, que todos temos, de orar sempre, e cada vez com maior insistência, pelas necessidades espirituaes e temporaes da santa egreja, e do seu chefe supremo. Muitas são estas necessidades; muitos são os males que a egreja soffre por toda a parte. Mas os que ha annos affligem, e os que ameaçam de futuro a cabeça do orbe catholico, são superiores a todos os outros. Proximo se annuncia o prazo, em que pela sahida das tropas francezas de Roma, tem o santo padre de ficar entregue exclusivamente aos seus próprios recursos de defesa, no meio de tantos inimigos que o cercam. Fracos, bem fracos, humanamente fallando, são estes recursos. Ao sahir de Roma o exercito francez, quem ficará ali para defender o pontifice-rei?!... Uma crise medonha se avizinha... Mas é certo que Deus não abdicou nem abdica o governo do mundo: é certo que elle prometteu, que as portas do inferno nunca prevalecerão contra a sua egreja, nem contra a pedra que lhe serve de alicerce: é finalmente certo, que a oração é um poderosíssimo recurso para obter de Deus o auxilio em tempo opportuno. Recorram pois os fieis, recorram tambem os pastores, recorramos todos á oração, com fé viva, esperança certa, e perseverança indefectivel; façamos, com esta arma, uma grata violência a Deus, á qual elle não resiste longo tempo; e, interpondo o valimento da immaculada sempre virgem Maria Senhora nossa, roguemos a seu beneditissimo filho, que se digne humilhar os inimigos da egreja catholica; que proteja e defenda o magnânimo pontífice que ora a governa, bem como a sua soberania espiritual e temporal; e que dê paz aos nossos dias. Nesta conformidade, para que tambem no santo sacrifício da missa congruentemente se implore do altíssimo ás necessidades espirituaes e temporaes da santa egreja catholica, e deste reino fidelíssimo; ordenamos e mandamos que o ill.mo e ex.mo cabido da nossa cathedral, e todos os reverendos parochos e mais sacerdotes do nosso bispado, immediatamente antes da collecta da missa recitem as orações—Pro quacumque necessitate, até ao fim da futura quaresma. Cada um dos reverendos parochos communicará esta nossa carta pastoral aos reverendos sacerdotes da sua freguezia, e depois a archivará competentemente. Dada no paço episcopal da Guarda, sob o nosso signal e sello das nossas armas, em 5 de novembro de 1866. Manoel Bispo da Guarda.