Noticias de Mertola
Em data de 20 d'este mez diz-nos o nosso assíduo correspondente de Mertola o que se segue: «Em um dia da semana passada houve fogo entre os guardas aduaneiros de S. Domingos, e uns contrabandistas, capitaneados por Manoel Dionisio da Orta do Pinho—resultou um guarda de 1.ª classe ficar gravemente ferido e dois de 2.ª, levemente. Manoel Dionisio foi preso no dia seguinte, em sua casa, (não sei se lhe formaram culpa n'essa noute) e afiancado por um cunhado (regedor da freguezia) resolveu depois evadir-se, sem lhe importar a responsabilidade do seu fiador—veremos o resultado. —D. Antonio Vera, hespanhol, curandeiro intitulado cirurgião, que veio para aqui expulso d'Evora, (onde, dizem, tinha outro nome) intitulado emigrado de Prim, mas que (quando foi de D. Basilio) sendo chamado á administração d'este concelho e pedidas certas explicações acerca de... cousas, declarou não ser de Prim, (mas sabe-se, sem hesitação, não ter livre entrada na sua patria) praticou ha poucos dias o seguinte: O sr. Simão de Brito, barbeiro e sangrador n'esta villa estava lavando e curando em pé da Manoel Martins Grego, que mora nos baixos do dito D. Antonio. E sem mais tir-te nem guar-te, Vera desce a escada, penetra na habitação de Grego e socca muito bem o sr. Brito, quebrando-lhe uma bengala nas costas, porque o apanhou sentado, e desprevenido! Dá-se como unico motivo d'este facto, Grego ter sido tratado por Vera, e como não fizesse caso do enfermo este mandou chamar Brito, que indo valer ao padecente, immediatamente soffreu as brutas consequencias da má indole do castelhano. Resumo: D. Antonio Vera, é hespanhol, profugo, ou emigrado da sua patria por...; cirurgião que cura e receita sem authoridade, nem documentos que comprovem o que recebeu de Esculapio. O sr. Simão é portuguez, homem de bem e conhecido por tal—perfeito nos seus officios, e tão prudente que não tirou desforra, e nem pede justiça! Já é paciência! Aos ill.mos delegado de saude, medico do partido, e auctoridades locaes pedimos providencias. Fóra com charlatães atrevidos, que descummedidamente abusam da credulidade publica não os contendo nem o exilio nem a hospitalidade estrangeira. Vão os portuguezes á Hespanha tão audaciosamente abusar, mas levem logo a mortalha. —Temos audiências geraes—trez causas a julgar—1.ª e 2.ª absolvidos; e a 3.ª para as Costas d'Africa, por crime de roubo de ferro na mina de S. Domingos. O ill.mo juiz Arrouca tem inimigos, e é por cá um pouco antipathico; não ha todavia rasão para isso—O sr. Arrouca é muito recto e não perdoa a criminosos, mas ainda não mandou para as Costas d'Africa nenhum innocente. —Temos medico novo no partido de... 400$ reis.—É o sr. dr. Gaspar, joven de maneiras delicadas, com quem sympathisamos. Temos lisongeiras informações de s. s., se bem que nada podemos, por ora, avançar sobre o seu saber. —O nosso amigo dr. Batalha, digno administrador d'este concelho foi a caza com licença—será curta a demora por s. s. fazer falta. —A estrada de Mertola á Cella vae paulatinamente: calculam-se de 200 a 300 homens a gente ali empregada—é pouco para o difficil trabalho que é, e para a urgencia d'uma estrada que liga o Alemtejo com o Algarve, por cuja conclusão a anciedade publica suspira. —Dá-se como certo que a empreza da mina de S. Domingos quer fazer a navegação a vapor entre Mertola, e Villa Real de Santo Antonio.—É profícuo e de grande vantagem para os transeuntes de norte a sul e vice-versa. —Depois d'escripta esta carta deparamos com um comunicado do Espirito Santo, inserto no n.º 343 do Bejense de 20 do corrente.—Quem o ler indigita por author o reverendo prior Medeiros; nós porem não formamos, ainda hoje, tal idea, porque a correspondência está um pouco sandia, e o sr. Medeiros não escreveria sandices e mentiras, e nem o julgamos capaz de judiar com «o pobre Monteiro» metido n'um processo (que não merece) por almas mais vis que as do «pobre Monteiro». A aldeia não tem 100 fogos, e o correspondente dá-lhe 500! Abastadas casas não ha ali: e uma passagem regular poucos a teem naquella aldeia. Privilégios, recordações, e despreso... não entendemos... não sabemos traduzir esta linguagem. «Na villa calçadas e mais calcadas» mentir tão atrevidamente é um descaramento indizivel—Em Mertola ha seculos que se não fazem calçadas a não ser a do Terreirinho, de que ha pouco fizemos menção, e nada mais. No Espirito Santo ha 3 poços publicos, e muitos particulares (fóra o da tia Matilde) e ainda o articulista quer outro? Mertola não tem poço—tem uma poça. Os regedores bebem da tia Matilde, e o articulista d'onde bebe? O Monteiro e o regedor hão de saber disso—elles o dirão. O articulista, sobre modo, respeitou a camara e o presidente—não o fez por virtude propria—bom é fugir com a cauda á seringa, porque o terreno é escorregadio. Mas não se persuada o leitor que falamos com o sr. prior do Espirito Santo. Até á semana que vem. * * *»