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Artigo

Desgraça

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Dizem-nos de Trigaxes: «Sahiu desta povoação a mendigar para si e um filho cego, uma pobre mulher por nome Perpetua, mas como não voltasse a casa, foi um filho em procura de sua mãe mas a poude encontrar. Porem o cabo encarregado da policia desta aldeia, vendo que não havia noticia da infeliz Perpetua, pediu aos habitantes desta povoação, no dia 6 do corrente, que o acompanhassem em procura da desgraçada. Assim o fizeram, porque este povo apesar de pouco instruido sabe cumprir os deveres da humanidade, e lá foram cerca de 100 homens formados em linha de caçadores procurando pelos mattos a infeliz. Neste tempo veio aqui a noticia de que a desgraçada estava afogada no açude do moinho da Ruiva, e sem embargo de estar chovendo, correram áquelle sitio muitos homens, mulheres, e creança. Fomos tambem e lamentamos com toda aquella gente a sorte da infeliz, vertendo lagrimas de dó porque não somos indifferentes aos padecimentos dos pobres, apesar de não sermos; e ainda mais nos contristou ver que a infeliz deixou fóra d’agua um bornal com as esmolas que havia obtido, como que mostrando que morria mas que deixava tudo que possuia para seu filho cego matar a fome. Gostei da maneira como este povo se houve e louvo-o por isso. F. J. E.