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Artigo

9 de julho

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Alvito · Beja · Lisboa · Mértola · Porto · Serpa · Portugal Igreja · Interpretacção incerta

Para commemorar a entrada dos liberaes n'esta cidade, mandou o ex.mo sr. coronel do regimento 17 d'infantaria tocar á alvorada á manhã d'este dia e á tarde, por espaço de mais de uma hora, na praça d'esta cidade, a banda do seu regimento. Delicado e attencioso, como poucos, o ex.mo sr. coronel Camacho não perde occasião de mostrar a sua deferência para com os habitantes d'esta cidade. Como talvez muitos ignorem o que se passou n'esta cidade no dia 9 de julho de 1833, narrar-lhe-hemos os acontecimentos. Diz-nos sobre o assumpto o sr. Sousa Porto, n'uma brochura, que publicou ha annos o que se segue: «Na tarde de 8 de julho se pôz em marcha Romão de Goes com a sua força, vindo pernoitar ás vinhas d'aldêa da Silvada aonde descançou (cuja aldêa fica distante 2 léguas da cidade), esperando a força dos voluntarios de Serpa e cincoenta francezes, aquelles commandados por Araújo, e estes por um capitão francez, cuja força chegou áquelle ponto ás 2 horas da noute.—As forças existentes na cidade eram compostas de 500 voluntarios realistas de Beja e Serpa, e 300 ditos de cavallaria de Montarte, e 50 soldados de cavallaria n.° 5. A força reunida na Silvada pôz-se em marcha para Beja ás 3 horas da manhã, e chegando ás 5 ao tanque dos Cavallos, junto da cidade, dispôz-se para o ataque, e marchando assim junto da pedra da Victoria, o capitão francez mandou tocar as caixas a rebate, e seguindo todas assim se chegou até defronte da cerca de S. Francisco, aonde a força recebeu do inimigo intrincheirado dntro da cerca do convento, tres descargas, de que resultou cahirem feridos alguns soldados. Neste tempo Francisco Romão marchou com parte da força em uma especie de quadrado na direcção da igreja da Sr.ª do Carmo, e entrando n'a rua de Santa Catharina da parte do poente foi advertido que acodisse ao sitio da Corredora e a estalagem do Vargas, aonde a cavallaria n.° 5 estava enfreando os cavallos; o que fez mandando seguir a sua gente a marche marche, e chegando ao sitio indicado de facto se encontraram alguns cavallos á porta da dita estalagem, e dando-lhe a força alguns tiros aquelles se pozeram em confusão, ao tempo em que o tenente commandante do esquadrão, fugindo na direcção na rua de Lisboa fora morto de algumas ballas que sobre elle cahiram, ficando o cavallo em poder dos aggressores; n'este entretanto a outra face especie de quadrado fazia fogo sobre a cavallaria que estava á porta da estalagem, a qual tambem fugindo para dentro da mesma resistiu por algum tempo fazendo fogo de clavina até que pelos constitucionaes foi vencida, ficando alguns soldados prisioneiros, cavallos e armamento etc. assim como tres cavallos mortos no pateo da estalagem; d'aqui marchou o commandante Romão de Goes com a força pelo arco dos Prazeres, seguiu á praça publica em cujo sitio fez alto, e mandou soltar da cadêa os presos politicos, Francisco Pessanha de Mendonça Furtado, e o reverendo padre Antonio Joaquim da Rosa, e outros muitos que ali jaziam com o epitheto de malhados. Neste tempo recebeu o commandante ordem para soccorrer a força franceza que se achava batendo e disputando o terreno pouco a pouco no arco das portas de Mertola, e marchando da praça pela rua do Touro seguiu a da Conceição, em a qual fôra ferido d'uma balla.—Entretanto o digno capitão commandante dos francezes valoroziamente se defendia no largo junto da porta do cidadão Joaquim Pedro Conde, atacando com a sua força, e alguns de Serpa, poucos, porque a maior parte eram a cavallo pelejando tanto n'aquelle sitio como nas entradas das ruas visinhas, até que se vio obrigado a dar entrada pelo arco dos Prazeres, e viram ás portas de Mertola, aonde soccorridos pela força já dita, tiveram fogo renhido com inimigo, que se achava dentro do arco, a cuja acção Romão de Goes não assistio por se estar curando em casa do reverendo reitor do Salvador, pelo cirurgião José Maria Rosado: Passado algum tempo os realistas retiraram para dentro do convento de S. Francisco, onde se intrincheiraram, e destacando-se da nossa força uma columna commandada pelo major Araújo e o capitão Saraiva de Alvito, foram atacar pela parte da porta Nova o dito convento, em cujo liroteiro falleceu o valente e bravo doutor Araújo, irmão d'aquelle, havendo por espaço de 2 horas resistencia de parte a parte, até que finalmente cessou o fogo, soando apenas algum tiro, de quando em quando. Perdeu-se n'este combate alem de differentes pessoas da parte dos constitucionaes, sendo as mais salientes o doutor Araújo, como fica dito, o doutor Batalha da villa de Portel, e os soldados, Antonio Maria Imperial, e padre Domingos, frade de Franciscanos, um sargento, e tres soldados francezes, soffrendo o inimigo a perda entre mortos e feridos muito acima de 60 homens. A força retirou de Beja no mesmo dia 9 ás 5 horas da tarde etc.»