Festividade
A da immaculada conceição de Maria, nossa Senhora, e Padroeira do reino, foi celebrada com toda a pompa e solemnidade pelas religiosas do convento da Conceição d’esta cidade. Assim era de justiça e dever. Orago da casa e sua matriarcha, muito mal andaria aquella communidade se não se disvelasse, quanto lhe fosse possivel para o esplendor da sua principal festividade, e para a pompa do culto rendido a Deus por intervenção da Benedicta entre todas as creaturas. A igreja estava perfeitamente decorada, e primava com aceio e decencia. Freiras e pensionistas, porfiavam qual mais contribuiriam a satisfazer a sua dedicação e amor para com a Rainha dos Anjos e a que é a consolação dos afflictos. A missa do padre fr. José Marques foi a escolhida para aquelle dia. Mais uma occasião se offereceu para se apreciar o talento e merecimento da menina D. Maria das Dores, acompanhando-a no orgão. O solo Gloria e Laudamus foi perfeitamente desempenhado pela menina D. Maria Eugenia: seguio-se o terceto Domine Deus cantado pelas sr.as D. Maria Felisarda, D. Marianna Carolina e pela menina D. Maria Magdalena correu bem, como era de esperar de tão habeis e acreditadas senhoras na arte musical. Dizendo-se que desempenharam seria pouco, diz se bastante quando se nomeam aquellas senhoras religiosas em quem não ha falta de merecimento. As duas meninas D. Maria Eugenia e D. Augusta Cypriana cantaram o dueto Qui sedes que se desempenharam perfeitissimamente: com tudo estas mesmas meninas, e a menina D. Henriqueta Fonseca cantando pro graduali no terceto Ego sum panis vivus, musica d’Hernani andaram sublimes, tudo era attenção, o auditorio parecia todo preso; as tres cantoras como que desprendidas da terra, e impressionadas do sentido e alcance mistico do que traduziam em muzica; talvez tambem concorresse muito á perfeição com que a menina Dores acompanhou. A sr.ª D. Marianna Carolina cantou em letra sacra a aria do Nabuco, antes do sermão. Esta sr.ª tem creditos já estabelecidos. E ouvida sempre com prazer. De tarde, antes do sermão as meninas Eugenia e Augusta cantaram o dueto Bénie nomen tuum, musica composição do padre Francisco de Assis que muito agradaram. A festividade correu toda bem. O orgam esteve sempre accorde o que não é de admirar tocando a menina D. Maria das Dores. Esta menina, quando acompanha, o instrumento sob os seus dedos é todo espressão. No dia da vespera orou o reverendo sr. dr. Emigdio, que soube desempenhar-se do encargo fallando da Santissima Virgem, da qual nunca se falla bastante. No dia da festividade orou de manhã o reverendo sr. Ramos Cid prior de Santa Maria que fez ver que o mysterio da immaculada conceição é uma homenagem contra o peccado contra o vicio e contra o crime, acabando com uma prece á divina padroeira pela independencia de Portugal. O sentimento patrio manifestou-se no auditorio. De tarde orou o reverendo sr. Feio, prior de S. Thiago. Todos os oradores ouvidos com attenção e empenho continuaram o credito que tem feito merecer.