Carta dirigida a Deus
Um jornal do Porto insere a seguinte carta extrahida de um periódico de Paris: N’uma d’essas estreitas ruas contíguas ao mercado de Santo Honorato, e no ultimo andar de uma casa antiguíssima, vive uma família de operários, a qual acaba de ser assaltada por uma d’essas desgraças que fazem estremecer. A esposa, moça ainda, estava doente de cama ha muito tempo, e o marido, unico sustentáculo da sua família, deu uma terrível queda que o impediu de trabalhar e de sahir de casa. Vossa situação o que haviam de fazer? Como alimentar-se aquella pobre gente? Entre os cinco filhos da família ha uma menina loura, de olhos azues, muito desembaraçada e que todos os dias vae receber lições a uma escola gratuita. No dia em que mais afflictos estavam ficou em casa para acudir quanto possível a seus paes doentes. A desgraça succedida a seu pae causava-lhe summa pena, porque a fome que os perseguia mostrava-lhe toda a extensão da desgraça. Assim pois inspirou-lhe a innocencia um meio de sahir das difficuldades. —Quando estamos attribulados devemos dirigir-nos a Deus, diz-nos a mestra frequentemente. Pois bem, vou dirigir-me a Deus. Vou escrever-lhe uma carta como as que a mamã me faz escrever para a madrinha, pois ainda tenho um bocado de papel. Dito e feito. E em quanto seu pae e sua mãe dormiam o pesado somno da febre, escreveu mal ou bem uma carta cheia de borrões, na qual pedia a Deus saude para seus paes e um pouco de pão para si e para seus irmãos. Em seguida sahiu de casa, correu á egreja do S. Roque e tractou de deitar na caixa das esmolas o seu lacónico bilhete, buscando occultar das pessoas que a vissem esta acção. Uma respeitável senhora que ia a sahir da egreja, observou que a menina andava em torno da caixa das esmolas, e no momento em que lh’estendia o braço disse: —Que fazes menina? A innocente, cheia de terror, começou a chorar, e como a senhora continuasse interrogando-a referiu-lhe ingenuamente o caso. Enternecida a boa senhora consolou a menina e tomando a carta disse-lhe: —Eu me encarrego de a fazer chegar ao seu destino. E acrescentou: —Escreves-te aqui os signaes da tua casa? —Não senhora, teem-me dito que Deus sabe tudo. —É verdade minha filha, mas talvez quem se encarregue de responder não saiba tanto. A menina lhe disse então aonde viviam seus paes, e cheia de alegria voltou á sua pobre casa. No dia seguinte ao levantar-se encontrou, diante da porta, um cesto immenso cheio de fato, de homem e de mulher, roupa de cama, legumes, pão, carne e dinheiro, tudo perfeitamente cosido. Pegado ao cesto havia um papel em que se liam estas palavras: —Resposta de Deus. Poucas horas depois apresentou-se um medico encarregado de visitar os dois enfermos. Vupõe-se, pois, se a carta da menina loura havia ou cabido directamente ao ceu, ou pelo menos sido recebida por um dos seus anjos. É pena que o numero destes não seja maior. Isto prova o que vale a esperança. Não a abandoneis nunca.