Voltar ao arquivo
Artigo

Vamos vel-os

Arqueologia e patrimónioEconomia e comércioExércitoMeteorologia e fenómenos naturaisReligiãoTransportes e comunicaçõesAgriculturaCorreioDescobertas e achadosDestruição de patrimónioMovimentos de tropasSecas
Lagos · Brasil · Portugal Exterior / internacional · Igreja · Interpretacção incerta

Assegura-se, diz o Correio dos Estados Unidos, que existe nos bosques que se estendem ao longo dos lagos de Saint-Clair e Huron, uma tribu ou família selvagem d’aspecto summamente extranho, e d’uma especie phenomenal e desconhecida. É composta de 7 ou 8 individuos; dois d’elles, homens, uma mulher e 3 ou 4 pequenos seres. Os homens são de elevada estatura, mas magros, apesar da robustez dos musculos; a mulher é de baixa estatura, e os filhos parecem ter de 10 a 16 annos. São todos cobertos de pello, e tanto a mulher como as crianças, e os homens tem o rosto coberto de barba encrespada, como a de certos monos do Brazil. Um dos homens é calvo, e tem a barba branca. A cabeça é pelo grande volume muito desproporcionada ao corpo. Tem um ventre enorme, os braços extremamente compridos e são cambados. São estes os caracteres apresentados em geral pela raça dos indigenas da Australia, de Borneo, e da Nova Guiné, os quaes constituem o ponto de transição entre a especie humana e os quadrumanos. Donde procede aquella tribu? Ninguém o sabe. Ha proximamente dois mezes que foi descoberta por alguns caçadores indios, que iam levar pelles a Monte Clemente, 30 milhas de distancia para o Oeste. Oito dias depois era ella encontrada nas cercanias de Puerto Huron. Mais tarde a mesma família era vista em Saginow, nas margens do rio Shiawac. Por toda a parte por onde ella passa infunde grande espanto, irreflectido e injustificado, porque não ha facto algum positivo e real que possa imputar-se-lhe com visos de culpabilidade; todavia n’alguns dos sitios por onde tem passado, teem occorrido successos tão singulares, que disparam a malignidade e a attenção dos habitantes. Assim n’uma aldêa junto de Lapeer quasi todos os cães morreram n’uma só noite, noutra parte as sarnas enfurecidas fugiam atraz dos campos e das selvas. Alguns dias depois, vinte cinco milhas mais longe, as cabras deixaram de dar leite, e os morcegos soaram a luz do sul. Em resumo parece que desde o momento da apparicão d’aquellas estranhas personagens o paiz que percorrem é victima d’alguma feitiçaria. Existe uma parochia junto do Lago Huron; á approximação d’aquella família repicou o sino da igreja por si só durante uma noite inteira; na manhã do dia seguinte viram-nos divertir-se nas agoas do lago durante uma tormenta espantosa, e em seguida chegar a nado a uma pequena ilha. Os camponezes armaram-se de espingardas, e embarcaram direitos á ilha em sua perseguição, mas quando abordavam ahi, já haviam desapparecido os individuos a quem buscavam. As folhas dos arbustos junto dos quaes haviam passado pareciam seccas como no fim do outono. Os que tem visto tão estranhos sêres, dizem que elles se arrastam como as serpentes, correm como gamos, nadam como peixes, e em caso d’apuro se desvanecem como sombras. N’uma palavra é uma apparicão extraordinaria; a superstição, como é natural, apodera-se do assumpto, e espalha o terror por toda a parte. As povoações armam-se, e n’alguns districtos chegam a organisar-se forças para dar caça ao bando maldito. Até agora ainda não foi possível chegar até elles, e nem os cães corredores teem chegado a alcançal-os. Em toda a região dos lagos se celebram meetings frequentes, a fim d’accordar nos meios mais adequados, para purgar o paiz da família do diabo, como lá lhe chamam. É provável que desappareça da mesma maneira que appareceu, sem se saber o caminho por onde vai, da mesma maneira que ninguém viu aquelle por onde veio.