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Artigo

Casamento d’El-Rei

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Lisboa · Porto · Itália · Portugal · Sabóia Exterior / internacional · Interpretacção incerta

Foi remettido ao procurador geral da corôa o contracto do casamento de S. M. F. com a princeza D. Maria de Saboya, cujas principaes condições são: Dotação de 60:000$000, garantidos pela dotação d’El-Rei. Viuvando a futura rainha, pôr-se-ha á sua disposição um palacio mobilado. Se não quizer viver no reino no estado de viuvez, receberá unicamente a pensão. Viuvando El-Rei sem successão, passarão todos os bens da futura rainha para a casa de Saboya. O casamento deve verificar-se na primeira quinzena de outubro, no vasto templo de Santa Justa. Já sobe a mais de cinco contos de reis a subscripção feita pela associação commercial para os festejos que esta illustre corporação projecta, e entre os quaes se mencionam particularmente, o arco triumphal ao Corpo Santo, e o obelisco ao Caes do Sodré. Dos navios de que se compõe a esquadrilha que ha de ir buscar á Italia a augusta princeza, e que a receberá a seu bordo, é a corveta Bartholomeu Dias, por ter sido commandada pelo monarcha. A camara destinada á sr.ª D. Maria de Saboya foi adornada pelo sr. Gardé, e pintada pelo sr. Rambois, que n’ella traçou varias allegorias ao faustoso consorcio. Parece que sua alteza virá embarcar em Bordéus por ser uma viagem menos penosa. A divisão naval, que deve no meado do corrente mez de setembro, sair do porto de Lisboa a fim de conduzir a esta capital aquella princeza, compor-se-ha das corvetas Bartholomeu Dias, Sagres e Stephania, sendo commandada a divisão pelo chefe d’esquadra graduado o sr. Soares Franco. Já está feito o diadema que ha de cingir a fronte de sua magestade a futura rainha. Dizem que é muito elegante e vistoso. Importou em reis 14:000$000. O dia 25 do mez findo foi um dos mais festivos para a villa de Mafra e em particular para a escola real, pela distribuição dos premios que n’ella se effectuou, festividade que foi celebrada debaixo dos auspicios de sua magestade el-rei D. Luiz I, com a mesma edificante solemnidade com que o era em tempo do augusto fundador de perdurável e saudosissima memoria. Pela uma hora da tarde entrou el-rei na sala da escola acompanhado de seu augusto irmão, e de um numeroso cortejo de altas personagens, entre ellas o presidente do conselho, ministros do reino, da guerra, da fazenda e da marinha, general commandante geral d’engenheiros etc. etc. A sessão começou, como nos annos anteriores, pela distribuição de 40 esmolas em roupa a 40 meninas da escola regia, cujos fios passando das mãos da mestra para as de el-rei eram por sua magestade graciosamente entregues ás creancinhas, que beijando as reaes mãos recebiam ainda carinhosos afagos tanto d’el-rei como de sua alteza real o senhor infante D. Augusto. Seguiram-se os premios em livros, que haviam antes sido todos rubricados por sua magestade e foram distribuidos a 20 alumnos, dos quaes 6 foram tambem agraciados com medalhas, duas de prata e quatro de cobre, além de 10 alumnos de premios menores, que tendo só merecido accessit, receberam só um livro sem a real firma. Os quatro alumnos mais distinctos tiveram além dos premios dados por el-rei, cada um o seu tomo do Archivo Pittoresco; dois destes como premios da Sociedade Madrepora, os outros dois offerecidos pela empreza do Archivo. Foram em seguida distribuidas pelas reaes mãos de sua magestade 24 esmolas em fato a 24 alumnos dos mais pobres da escola, melancholica recordação dos 24 annos com que finára o magnanimo augusto fundador. Rematou el-rei esta edificante sessão, em que com premios viera estimular a bem entendida emulação, e com os estimulos minorar um estorvo á assiduidade da applicação escolar, aconselhando, em um breve e sentencioso improviso, os paes a que se empenhem em mandar os seus filhos á escola, porque se na sua instrucção recebem um serviço, não o fazem menor procurando que estes venham a ser bons e uteis cidadãos, e os filhos a que realisem as santas intenções do augusto fundador (a saudade soffocou ao proferir este nome querido a voz do extremoso irmão) estudando deveras para se tornarem bons cidadãos e bons Portuguezes. (A Opinião.)