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Abnegação heroica

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Os jornaes hespanhoes que recebemos hoje (diz a Opinião) dão conta d’um verdadeiro acto de abnegação praticado por uma fraca rapariga de Yanguas, na provincia de Soria. Eis o caso: No dia 2 de agosto, ao lusco-fusco, cresceram tanto as aguas do rio, que saindo do seu leito arrebataram uma creança do sexo masculino de dois annos e meio, sendo o innocente levado pela corrente. Aconteceu que por acaso uma criada de servir, chamada Feliciana Ramos, de 19 annos de idade, se encontrava lavando roupa próximo ao local do sinistro, e vendo o menino em tão grave risco, sem cuidar do que ella própria ia correr, arrojou-se galhardamente á agua, conseguindo deitar a mão ao vestido do innocente que ia levado de envolta com a cheia; mas a força desta era tal que derrubou Feliciana, e a creança escapou-se-lhe das mãos, occultando-se á sua vista. Novamente se lançou ao rio, conseguindo alfim apoderar-se tenazmente de quem queria salvar, trazendo a creança para terra. Tempo depois, chegaram alguns habitantes da povoação e encontraram a criada desmaiada e estendida por terra, tendo estreitamente abraçado o menino, que parecia morto. Prestaram-se a ambos os necessários auxilios e felizmente, uma e outra, foram salvos, apezar de ser necessário sangrar copiosamente a corajosa criada. O governador civil de Soria propoz ao governo que fosse concedida a Feliciana Ramos a cruz da ordem civil de beneficencia. De certo que com justo e nobre orgulho poderá trazer ao peito a condecoração que lhe foi concedida por este rasgo de abnegação e heroicidade.