Voltar ao arquivo
Artigo

Theatro

Cultura e espectáculoEconomia e comércioJustiça e ordem públicaMeteorologia e fenómenos naturaisPreçosFeirasHomicídiosPreços e mercadosSecasTeatro
Interpretacção incerta

A companhia dramatica portugueza representou a Condessa de Marsay e o Diabo atraz da porta, no domingo, e a Culpa e perdão, O preço d’um marido e Mel e fel, na quinta feira. O drama Condessa de Marsay apresenta alguma novidade, e tem interesse. Conheciamos este drama, na lingua hespanhola, em que foi escripto, com o titulo de Loca de San Roman, e na traducção outi ns incorrecções que difficultmente serão perdoadas pelo espectador sisudo e sensato. O terceiro acto é injustificavel. A loucura da condessa reile tão prompta e inesperadamente que o publico hesita em acredital-o e o papel cálhe deixando uma impressão incompleta no animo de todos. Aqui porém o effeito dramatico equilibra a deficiencia do texto. A acção é precipitada e vicinsa e o galan, no final deste acto, offerece o seu amor nascido certamente ou do despreso e odio, que lhe merecia a assassina de seu irmão, ou então da piedade, que lhe inspirava a alienação mental, de que elle tinha sido a causa. O final não está pois preparado, nem natural e racionalmente deduzido das scenas fund mentes do drama. Occorreram-nos estas considerações e não hesitámos em escrevel-as, porque a Condessa de Marsay tem, como já dissemos, certa originalidade e interesse, e magoa-nos sempre um trabalho de merecimento cahir n’um erro, que o traductor não soube evitar. Vamos ao desempenho. Toda a responsabilidade do drama pertence a Branca e a Estevão d’Orby e ainda alguma ao dr. Lagrange. Temos pois o desempenho confiado. Estêvão d’Orby (Silva Junior) teve difficuldade de em apresentar com traços bem firmes toda a originalidade do typo que representava; no 2. acto não aproveitou com felicidade todo o effeito dramatíco, que o seu lindo papel lhe proporcionava — Foi acanhado e pouco elegante na scena, que fechava este acto. Assim mesmo louvamos o sr. Silva Junior pela boa vontade e intelligencia, com que sempre estuda os seus papeis; e desculpamos-lhe estas pequenas faltas pela necessidade que teve de se encarregar de copia, onde se contraria d’algum modo a sua vocação artistica. Na companhia certamente não ha quem melhor o substitua. O papel da protagonista foi confiado a sr.ª D. Gasparinha. Custou-nos dizel-o, mas a sinceridade de noticiarista, e a muita consideração, que nos merece a intelligencia d’esta actriz, obrigam-nos a ser francos. Gostando muito da sr.ª D. Gasparinha, apreciando muito o seu talento e respeitando os belos dotes artisticos, que incontestavelmente possue, devemos comtudo confessar que não gostámos do desempenho da Condessa de Marsay. Porque não sabemos explicar bem o enleio, a unica egualdade, a pouca pressa e por vezes má interpretação, que nos pareceu dar a algumas phrases do seu papel, suspendemos hoje o nosso juizo a respeito d’uma actriz, a quem só desejariamos offerecer muitos louvores, mas sempre verdadeiros, mas sempre justos. Bem conhecemos, que uma causa insignificante, sempre possivel, perturba de tal modo o espirito d’um actor, que as incorrecções, que pratica, não significam incapacidade nem descuido na interpretação dos seus papeis. Por isso acceitamos qualquer hypothese que não prejudique os bons creditos d’esta sympahica actriz, e reservamos melhor juizo para outra occasião. O dr. Lagrange (sr. Manoel Silva) foi muito bem. Temos mais uma vez o praser de registrar n’este logar o bom conceito, que até hoje nos deve este actor. O dr. Lagrange foi um bello typo apresentado e rigorosamente sustentado pelo sr. Silva. Nem só um momento descompôz a gravidade d’aquelle caracter. Foi sensato, severo, sincero o dedicado, mas sempre digno, sempre correcto. A sr.ª D. Maria José Soares mostrou-nos mais uma forma do seu bello talento dramatico. Adriano de Maulon foi representado com acerto. Não é facil aquelle genero, e a sr.ª D. Maria José venceu, com louvor, as difficuldades. Na comedia—O diabo atraz da porta—foram muito bem os srs. Silva Junior, Soares, e a sr.ª D. Maria José. A comedia é engraçada, e agradou. Na quinta feira representou-se a Culpa e perdão, em que devemos especialisar o sr. Soares no papel de José Manoel. Apresentou os traços mais caracteristicos do nosso marujo, e conservou-o sem hesitação até ao fim do drama. O sr. Silva Junior e D. Maria José foram muito bem. O sr. Mendonça representou soffrivelmente o seu papel. Se ás vezes recuou ante difficuldades devemos todavia louvar-lhe o desejo, que mostra por agradar. A sr.ª D. Candida comprehendeu bem o seu papel e agradou. Nas comedias distinguiram-se, como sempre, a sr.ª D. Maria José e Silva Junior. São belles auctores na comedia; tem naturalidade e muita graça. D. Candida na comedia—Mel e Fel representou com chiste; pena é que não fosse muito egual, talvez porque estava pouco segura do seu papel. No domingo começam os espectaculos no theatro de S. Francisco. O annuncio damolo na respectiva secção.