Theatro
A companhia dramatica portugueza abriu o theatro de S. Francisco com a travessa burlesca—A Princesa de Arrentella. Fez bem. É hoje a mania, nos grandes centros, a concurrencia a este genero de espectaculos—parece que o sentimentalismo está esgotado, ou tão apurado e buliçoso, que as scenas commovedoras do drama intimo ou enfastiam ou cançam o publico mais propenso a resonar na platea ao som das melodias chulas d’Offenbach e dos disparates engenhosos e engraçados de F. Palha e L. d’Araujo. Nem o louvamos, nem o censuramos por isso. Ha-de gostar-se d’alguma cousa e como a variedade sempre agrada, e ja não ha de que gostar-se, gosta-se da Grande-dugueta, do Barba Azul, da Princesa d’Arrentella ou de qualquer outra cousa, comtanto que apresente alguma novidade, embora extravagante e absurda. O theatro na nossa opinião parece-nos ter missão mais elevada; e estas farças cheiram-nos até a sacrilégio dramático, que faria estremecer de vergonha os verdadeiros cultores da arte. No entanto a moda perfilhou estes engeitados da arte, e não ha remedio senão atural-a, e curvarmo-nos submissos ás suas leis caprichosas—Destoa-nos, é verdade, tanta loucura n’um templo tão respeitável, mas transigimos com estas exigencias do mundo elegante. A companhia fez bem, repetimos. Mostrou-nos por mais uma forma a sua aptidão, e especulou o bom ou mau gosto d’uns e a sinceridade d’outros. Que dizer do desempenho? O que quizerem. Bom ou mau, optimo ou pessimo—Desde que não ha unidade para lhe medir o valor, desde que não ha padrão a que o aferir, toda a censura é arbitraria e inconsequente. Podem, é verdade, reconhecer-se algumas qualidades estimáveis n’um actor, mas não pode apreciar-se convenientemente a sua propriedade. Por exemplo a sr.ª D. Maria José foi uma princesa-absurdo, e por isso mesmo natural e propria. O sr. Silva Junior foi um rei-disparate, e por isso mesmo natural e proprio. O sr. Sá foi um ministro-impossivel, e por isso mesmo natural e proprio; e assim todos, que souberam mais ou menos dar uma feição extravagante e fantastica aos typos que apresentaram. O auctor roubou a verdade e seriedade ao seu escripto, e deu aos actores liberdade absoluta para o dizerem e sentirem; elles recorreram á sua imaginação e estro comico, e crearam os personagens da Princesa de Arrentella. O que podemos affirmar, é que não lhes faltou graça e conseguiram offerecer aos seus assignantes uma noite agradavelmente passada. A musica foi bem cantada. A peça é escripta pelo sr. Luiz d’Araujo n’aquelle estylo zombeteiro e mordaz, que o tem tornado tão conhecido no nosso theatro; e isso basta para lhe assignar todo o mérito, que pode competir a este genero de trabalho. Pena é que as pessimas condições acusticas do theatro nos roubem a maior parte das palavras, que os actores não teem cuidado ou não podem dizer mais forte e pausadamente; a este grande defeito já prevemos que hade fazer-se sentir ainda mais no desempenho d’um drama intimo. Se estas condições se não modificarem por qualquer maneira, ao actor morre-lhe o effeito das suas melhores scenas, e ao espectador foge-lhe o interesse que lhe corresponde. Hoje subio á scena o drama de Cesar de Lacerda Os dois mundos, que foi bem desempenhado. A canção «Pilha» fechou o espectaculo. Foi uma bella noite. Não faltaram applausos e foram justos. Espectaculo de domingo vae annunciado n’outra secção.