Fineza por fineza
A bordo do navio Eake Eric embarcára-se dos Estados Unidos para Bufallo um mancebo, cuja bagagem consistia apenas n’um pequeno e mal provido saco de noite, cuja fortuna era sómente um rosto prazenteiro. O nosso humilde viajante chamava-se Christy. Satisfazendo a passagem ficára-lhe a algibeira sem um dollar; interrogado porém por Folger, capitão do navio, sobre o seu destino, quaes os seus projectos, Christy respondeu-lhe que era actor e que, encontrando quem lhe alugasse um theatro, se proporia a dar espectáculos. O capitão, attrahido pela figura sympathica do artista, encantado pela viveza da sua imaginação, interessa-se pelos seus projectos, e pergunta-lhe: —De que somma careceria para começar com as suas representações? —De vinte dollars. —Tão pouco?! —Sim, senhor. —Eil-os. Se for feliz, pagar-nos-ha; aliás cousa alguma me deverá. Decorreram alguns annos. Christy andou de cidade em cidade, percorreu a America, fixou alfim sua residencia em Nova York. Ahi, alem do que esperava, protegeu-o a fortuna extraordinariamente. Pela mesma epocha o generoso capitão, Folger, aquelle bom amigo que tão desinteressadamente havia emprestado, ou antes dado a Christy os vinte dollars, perdeu todos os seus haveres. Indo a Nova York solicitar negociações, teve de sobreestar no seu desígnio, porque lhe faltava dinheiro, porque não tinha até quem o apresentasse aos negociantes. Em tão desesperadas circumstancias Folger propunha-se recorrer ao extremo remedio que muitos procuram quando a adversidade successivamente os persegue, e teem a coragem precisa para supportal-a... Lançado pois em sua terrivel meditação, desfigurado pelas dores que lhe pungiam n’alma, passava Folger em Broadway, quando sentiu tocarem-lhe no hombro. O capitão voltou-se, porém não pôde reconhecer desde logo quem o detivera tão acolhidamente. Era Christy, que se deu a conhecer, e que notando a profunda tristeza do seu protector mostrou desejos de saber as causas. Folger conta-lhas; patenteia toda a sua desgraça; declara-lhe que anceia por se empregar, senão... —E porque não compra um navio? acudiu rápido e com interesse o artista já empresario. —A rasão é boa. Falta-me o dinheiro. —A rasão é má. Por ventura possuo? eu dinheiro quando parti para Buffallo? Diga-me; quanto custa um navio? —Mais de vinte mil dollars... —Cinco, dez, vinte mil que sejam, é compral-o. O senhor emprestou-me vinte dollars para eu me estabelecer, não é assim? Pois eu empresto-lhe agora vinte mil, e ainda lhe fico em obrigação. Se for feliz repartiremos os lucros; aliás cousa alguma me deverá; ficaremos quites. O capitão aceitou entre abraços de reconhecidissimo affecto a offerta que tão generosamente lhe acabava de fazer o grato e honrado artista, com quem ficou travando relações de invejável amisade—de rara amisade, com toda a nossa civilisação.