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Artigo

Um caso extraordinário

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Porto · Portugal

Deu-se ha dias no lugar do Forno, na freguezia do Rio Tinto, um caso extraordinário, que seria licito duvidar d’elle se nos não tivesse sido contado por uma testemunha presencial. Foi o caso que em uma das noites passadas estava um lavrador, rico, da mesma freguezia e lugar, em uma esfolhada, e ouviu que sobre uma nora d’agoa, que ali estava próxima, caiam pedras de espaço a espaço. Procurando-se conhecer quem lançava as pedras, não foi possível ver alguém, não deixando apesar d’isso de continuarem a cair pedras. O facto, a que não acharam explicação, atemorisou profundamente toda a gente que estava na esfolhada, e d’ahi seguiu-se que começaram a gritar. Acudiu muita gente a presenciar o facto e admirar o caso. As pedras não cessaram de cair. Toda a gente fugiu afinal espavorida. O lavrador, porém, por nome Antonio Perusas, e toda a sua familia, retiraram-se mais impressionados que ninguém, e cairam de cama doentes de tal sorte, que o lavrador falleceu no domingo passado, uma sua filha na segunda feira immediata, e a mulher na terça feira. Mas o mais extraordinário disto é que uma outra filha, já casada e residente no lugar d’Amieira, da mesma freguezia, indo de Rio Tinto para sua casa, caiu no caminho com um accidente e, sendo levada em braços para a cama, corria ante-hontem grave risco de vida, na opinião de um facultativo residente em Medancellhe, que foi chamado a visitar a doente. Mas o que é notável é a explicação que o povo dá a este caso singular. Uma lavadeira daquelles sítios, a quem hontem ouvimos assegurar o facto, perguntada sobre a razão por que se dera uma tal serie de fatalidades, respondeu que toda a gente dizia lá pela freguezia que «Deus não dorme e o alheio chora por seu dono», e que a familia com quem se dera o caso tinha restituições a fazer, porque possuía, por sentença judicial que lh’os dera, uns bens de grande rendimento, que de direito lhe não pertenciam. Relatamos o facto e a irrisória opinião. Commente-os, ou procure-lhes a explicação, o leitor investigador. — Jornal do Porto.