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Póvoa · Portugal Hospital · Interpretacção incerta

Viva ou morta!—No Vimarense lê-se o seguinte: «A exm.ª sr.ª D. Antonia Amelia Pinheiro da Silva Rocha, de que já demos uma local, debaixo da epigraphe — Raro accidente — morreu na madrugada da sexta feira para o sabbado na Povoa do Varzim. «Como já tivesse acontecido esta menina, havia quinze dias, ter sido considerada morta, e no espaço de trinta e oito horas reviver, tendo-se já ordenado o funeral, etc., sua familia conservou-a em casa o dia de sabbado e o domingo até ás Trindades; porem vendo que ella não voltava a si, resolveu mandal-a para esta cidade por quatro homens. «Chegou com effeito aqui pelas 6 horas da manhã do dia de hontem, e ás 11 teve o funeral e todas as ceremonias da sepultura. Porem principiando-se a espalhar que a defuncta estava viva, o digno administrador ordenou que ella não fosse enterrada, sem que previamente se procedesse a um minucioso exame; afinal ordenou que se não enterrasse sem que o cadaver estivesse no estado de putrefação. «Foi então o cadaver levado para o hospital de S. Francisco desta cidade, e depositado n’uma cama, coberto com a roupa necessária, etc., e duas enfermeiras para velarem junto do corpo mysterioso. «Nós cremos que a exm.ª snr.ª D. Antonia gosa o somno eterno, ha porem alguns symptomas que nos apresentam signaes vitaes. Verdade é que nós somos completamente estranhos na sciencia medica, porem em o nosso humilde entender julgamos que as apparencias são vitaes; comtudo crêmos que a exm.ª snr.ª D. Antonia Rocha vive com os anjos. «As apparencias são: Flexibilidade de nervos. Beiços com côr natural. Carnes das faces moles. Meninas dos olhos sem névoas, e as palpebras flexiveis. Orelhas encarnadas, e ao tocar-se-lhes parece fugir-lhes o sangue, que novamente volta, e finalmente o corpo não no estado de putrefação, havendo já cento cincoenta e tantas horas que o corpo está considerado morto!...» Grande numero de gente correu hontem para as Capuchinhas a fim de ver a defuncta viva, até que foi mister mandar-se fechar a porta do templo, não só para evitar a pouca reverencia com que a gente em multidão ali estava, mas tambem porque todo o mundo queria tocar na defuncta. Uns esfregavam-lhe as pernas, outros apalpavam-lhe os pulsos, etc. Gostamos então d’um dito aproposito de uma creancinha de oito annos, pouco mais ou menos, a quem lhe perguntam se a defuncta estava viva, ao que ella respondeu: — Se ella estivesse viva, já aquella gente a tinha matado.