Voltar ao arquivo
Artigo

França

Acidentes e sinistrosArqueologia e patrimónioEconomia e comércioExércitoJustiça e ordem públicaReligiãoSociedade e vida quotidianaAchados funeráriosAcidentes de trabalhoAgriculturaBebedeiras e desordensBeneficênciaFalecimentosHomenagensMovimentos de tropasReformasRuínas e monumentos
África · França Exterior / internacional · Interpretacção incerta

Recebemos hoje na integra o novo manifesto do conde de Chambord. A suá linguagem é categorica, mas talvez geralmente pareça inopportuna. N’el!e estão confirmadas as negociações teletivas á fusão borbonica seguidas de um mal logro completo. Eis como se exprime Henrique V: «Francezes : estou entre vós. Abristes-me as portas de França e não pude renunciar á felicidade de tornar a ver a minha patria. Não quero porem dar com uma demorada residência novos pretextos á agitação dos espíritos, tão perturbados nesta occasião. Saío pois de Chambord, que me offerecestes, e cujo nome tenho usado com orgulho durante 40 annos de desterro. Ao afastar-me desejo dizer-vos que não me separo de vós ; a França sabe que lhe pertenço. Não posso esquecer que o direito monarchico é patrimonio da nação, nem declinar os deveres que elle me impõe para com ella. Estes deveres cumpril-os-hei, attestando a minha palavra de homem honrado e de rei. Auxiliados por Deus, fundaremos juntos e quando assim o quizerdes, sobre as amplas bases da descentralisação administrativa e das garantias locaes, um governo conforme com as necessidades do paiz. Daremos por garantias a estas liberdades publicas, ás quaes tem direito todo o povo christão, o suffragio universal moralmente exercido, e a intervenção das duas camaras, e continuaremos, restituindo-lhe o seu verdadeiro caracter, o movimento nacional do fim do seculo passado. Uma minoria sublevada contra os votos do paiz, fez d’aquelle movimento o ponto de partida de um periodo de desmoralisação pela mentira, e de desorganisação pela violência. Os seus criminosos attentados impuzeram a revolução á nação que só pedia reformas, e empurraram-na para o abysmo, onde haveria perecido, sem o heroico esforço do nosso exercito. As classes laboriosas, esses operários do campo e das cidades, cuja sorte é objecto das minhas mais vivas preoccupações e dos meus mais caros estudos, são as que mais padeceram com esta desordem social. Mas a França, cruelmente desenganada por desastres sem exemplo, comprehenderá que não se torna á verdade mudando de erro ; que não se foge por meio de expedientes a necessidades eternas. Ella me chamará, e eu virei para ella todo inteiro, com a minha abnegação, o meu principio e a minha bandeira. A proposito d’esta bandeira, tem-se fallado de condições que não devo supportar. Francezes ! Estou prompto a tudo para ajudar o meu paiz a levantar-se do meio de ruina e a recuperar o seu posto no mundo ; o único sacrificio que lhe não posso fazer é o da minha honra, rendo homenagem a todas as grandezas, e seja qual fôr a côr da bandeira sob a qual marchavam os nossos soldados, admirei o seu heroísmo e de tudo dei graças a Deus; com a sua bravura enriquececem o thesouro das glorias francezas. Entre vós e eu, não deve subsistir nem má intelligencia, nem segunda intenção. Não : não deixarei, só porque a ignorancia ou a credulidade tenham fallado de privilegios, de absolutismo ou de intolerância, e, que sei eu? de dizimos, de direitos feudaes, phantasmas que a mais audaz má fé tenta resuscitar aos nossos olhos, não deixarei, digo, arrancar das minhas mãos o estandarte de Henrique IV, de Francisco I e de Joanna d’Arc. Com elle se fez a unidade nacional, á sua sombra conquistaram vossos paes, conduzidos pelos meus, essa Alsacia e Lorena, cuja fidelidade será o consolo das nossas desgraças. Com elle foi vencida a barbarie na terra de África, testemunha dos primeiros feitos de armas dos príncipes de minha família ; é elle que vencerá a nova barbarie, que ameaça todo o mundo. Confiai no seu receio ao valor do nosso exercito ; elle sabe que nunca seguio outro caminho senão o da honra. Recebi-o como deposito sagrado do rei ancião, meu avô, que morreu no desterro; sempre foi para mim inseparável da recordação da patria ausente ; fluctrioii sobre o meu berço, e quero que dê sombra á minha sepultura. Nas dobras gloriosas d’este estandarte, sem mancha vos trarei a ordem e a liberdade. Francezes ! Henrique V não póde abandonar a bandeira branca de Henrique V.—Henrique. Chambord, 5 de julho de 1871.»