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Beja · Mértola · Portugal Correspondência

Correspondencias — Beja 21 de julho de 1877. Sr. redactor.—Peço-lhe um cantinho do seu jornal para levar ao conhecimento do sr. commissario de policia uma arbitrariedade commettida na noute de 22 deste mez, pelo cabo, o sr. Navarro. Eu, João Manguito, Diogo Palma e Francisco Lobo, estavamos conversando ás portas de Mertola. Não gritavamos em voz alta e o grupo, no sitio onde estava, não impedia o transito publico. O sr. Navarro porem veio entender comnosco e tratando-nos asperamente ordenou-nos que nos fossemos deitar. Os meus companheiros callaram-se e eu respondi que deitar-me não ia, porque não tinha vontade, porque não queria. O que imagina v. ex.ª sr. redactor, que me replicou o sr. Navarro? Dando-me voz de prisão e mandando-me para a esquadra acompanhado pelo guarda [ilegível]. Fui. Não resisti, nem vontade tive de o fazer, mas sobrou-me a de dar vivas ao corregedor Noronha. Se me custara ver-me assim vexado, ao sr. Navarro roía-lhe na consciencia a arbitrariedade que havia praticado, e a prova está em que, passadas pouco tempo, mandou soltar-me. Se a prisão me surpreendeu, o porem-me em liberdade, alada me surpreendeu mais, porque preso eu, não era um policia que podia soltar-me: (artigo 51.º do regulamento § unico.) Tem-se pois: Um cidadão reprehendido e preso por estar conversando. Ora se o cabo observasse o n.º 1 do artigo 11.º do regulamento, tal se não daria. Infringido o § unico do artigo 51.º do regulamento, pelo mesmo cabo, porque se eu fui preso ao sr. commissario e não a elle competia mandar-me em paz e isso somente no caso de eu ser mandado, para averiguações, á esquadra. Finalmente que a policia é um elemento de desordem, e se continuarem a dar-se destes casos póde ser que nem todos tenham a paciencia que eu tive. Ao sr. commissario queixo-me do succedido porque é necessario reprimir as demasias dos seus subordinados. Eu pago para a policia, pago para que ella me defenda e aos meus concidadãos, a vida e fazenda. Não lhe pago para me vexar, para me prender... por não querer ir metter-me na cama em uma noite de julho. Sou sr. redactor, de v. etc. Antonio Manoel Goes. (Segue-se o reconhecimento.)