Aljustrel
Aljustrel em 10 de novembro. É’ no dia 25 que o povo deste concelho tem de decidir da sua sorte! É’ no dia 25 que elle por meio do seu voto consciencioso tem de dar a sua sentença de vida ou de morte, de livre ou de escravo, de sensato ou imprudente, de progressista ou retrogrado. Caminhar como até aqui votando nos homens que por tantos annos e por tantas vezes teem gerido os negocios municipaes, é suicidar-se, e trabalhar toda a sua vida para de muito livre vontade lhe ir entregar o suor do seu rosto, para o applicarem em seu proveito. Para que o novo paiz se desvie desse papel triste que tem representado; para que o povo veja o seu dinheiro empregado em melhoramentos; para que o povo possa trilhar o caminho do progresso e por consequencia da felicidade, só lhe basta uma cousa, votar nos homens indigitados pela opposição. É bem facil esta tarefa, é bem simples o remedio para o seu mal, como claro é adivinhar as consequencias futuras do seu passo, pelos precedentes. Votar com os homens que representam o esbanjamento, é a morte; votar com aquelles que levantaram o grito da emancipação, é a vida. Escolhei. Para o povo não ha mysterios, para o povo só deve haver a verdade, nua e crua como aqui a temos dito, desmascarando tanta miseria e tanta infamia praticada por esses homens que se tentam reeleger para nosso flagelo. Por isso, o povo não acredite em cousa alguma que lhe digam; ponha o povo de parte as paixões partidarias ou pessoaes, as promessas falsas e indignas que só teem em vista falsear o seu voto, lembrando-se só da sua dignidade, da sua consciencia e da sua liberdade tanta vez calcada aos pés. O povo é nobre e digno com tanto que saiba sustentar os seus direitos. O fidalgo, o rico, o sabio, o branco e o catholico, não é mais do que o plebeu, que o pobre que o sabio, que o preto e que o athêu; tudo são homens feitos da mesma massa, com os mesmos direitos e obrigações; somos todos eguaes, valemos todos a mesma cousa. Que valem essas riquezas tão apregoadas em algumas mãos que tu bem conheces, povo? Que vantagem te vem d’ellas? Só se é o escarneo com que te olham, o desprezo com que te fallam e o servilismo com que te pedem fazer esquecer os teus direitos, a tua dignidade e a tua liberdade?! Será isto o que te obriga a desprezares os teus interesses? Não é de certo. Que te importa os refractarios, aos partidos que os receberam em seu seio, com a lealdade que caracteriza o homem de bem? Que te importa que os influentes sejam hoje pretos, amanhã brancos? Trabalham segundo os seus interesses? Pois trabalha tu segundo a tua convicção e serás livre e feliz. Deixa-os a elles, que um dia virá que ninguem os queira e que tu mesmo os lances ao ostracismo da opinião publica como elles teem feito aos teus interesses. Temos a consciencia do ter cumprido com o nosso dever. Temos feito graves accusações e ainda ninguem nos veio pedir nos tribunaes as provas d’ellas; é que nós temos dito a verdade, como verdade é não termos dito ainda metade. Onde estão as calçadas, onde estão as estradas, onde estão as fontes, onde estão as casas de escola e tantas outras necessidades que ha no nosso concelho? Onde? Em parte alguma. Desappareceu o dinheiro, como desappareceram as fayas que a camara tinha em Alvalade; desapparece tudo quanto passa por esses homens que teem feito do nosso concelho, o concelho mais desprezivel de Portugal. É tudo pouco para elles. Em Aljustrel o dinheiro dos orphãos desapparecia como por encanto; trabalhava um pae noute e dia para deixar o pão a seus filhos, entrava por sua morte o dinheiro na caixa dos orphãos, para outros se governarem com elle, emquanto que os desgraçados morriam de fome; as derramas já de si bastantes crescidas vinham tambem com a percentagem legal uma outra lançada por elles e que era repartida irmãmente, porque um excesso tão avultado não podia entrar legalmente no cofre; no recrutamento quantas iniquidades se não praticaram, quantos paes não ficaram sem filhos para irem satisfazer vinganças, servindo em logar de outros?! E tudo isto é por culpa do povo que se tem deixado enganar; e que continuará a acontecer se tivermos a desgraça d’elles serem reeleitos; se porem tal acontecer não é por falta de aviso, é porque o povo chegou ao auge da decadencia moral e politica. Salvemo-nos pois pondo na rua os intrujões que teem levado couro e cabello aos pobres poupando os ricos de quem elles precisam. E se tal acontecer gritemos todos: Viva a liberdade do povo do concelho de Aljustrel. É preciso que o povo tenha a maior prudencia para não dar logar a dissabores; soffra com paciencia os olhares dos Ferrabrazes, porque é mais uma lição que elles recebem.