[Aljustrel] Aljustrel 6 de novembro de 1878. Sr. redactor
No dia 31 sahio a philharmonica denominada intrujôna tocando o hymno de s. magestade; porém na vespera, o sr. presidente da camara, tinha proposto na sociedade intrujôna, cantar-se um Te-Deum sendo convidado para esta solemnidade a referida sociedade, nossa mesma occasião pessoas mais doutas aconselhavam-lhe, que seria decentissimo o proceder convidando as duas, mas elle como pessoa muito entendida... tomou a seu bello prazer a resolução de não attender aos conselhos de seus amigos, para pôr em pouca consideração aquelle que ainda ha pouco elle dizia sou amigo e protector, mas que em breve foi seu traiçoeiro, e isto tão sómente pela razão de não se ligar á sua politica. Sr. redactor creio que a verdadeira politica manda, que em actos solemnes, e religiosos, se tratem todos com igualdade; mas... oh!... quam grande foi a minha espectação!... vendo que se praticou o contrario! Um l.º egrégio conselho sr. presidente: quando por acaso houver uma occasião de manifestarmos a sympathia por qualquer pessoa real, não convide todos geralmente, e não cahirá na crassa ignorancia de fazer excepções, como effectivamente praticou, não convidando o digno capellão da santa casa da misericordia, que a nada se tem poupado para brilhar qualquer acto de sua missão; bem como excellentes outras muitas illustres personagens, patriando assim é a meu ver, charivar, não a fraternidade, mas sim a rebellião, e dizer-se-ha que é uma perfeita anarchia. Sr. redactor! minha intenção não é mais do que mostrar ao publico na certa de seu mui illustrado jornal a calumnia de que se serve o Diario de Portugal, n’um communicado d’Aljustrel, que diz mais ainda de povos politicos não manifestaram o jubilo devido ao anniversario de sua magestade. Oh! que calumnia!... pois será possivel, que em terra desta ordem baixam o necessario para que se faça uma illuminação cabal? e eu caso de cada um dos habitantes? não; o regosijo demonstrou-se n’aquelles, que primeiramente tiveram a grande satisfação de se levantarem, uns á uma hora, outros ás duas, e tres horas da madrugada, de maneira, que quando eram quatro horas já a philharmonica larica tocava pelas ruas com todo o affan o hymno real, em vista do que o ex.mo não sei, e nem posso saber, que haja, quem tenha o caracter tão ridiculo de cair na miserima ignorancia, e estupidez de estampar um jornal tão acreditado, communicando de tão insignificante ordem; o mesmo é mostrar em tão terna consciencia do que fizeram, e publicaram. Tomando pois, esta regra por norma, proseguirei com passo firme no caminho encetado, para que excitando-lhes a pratica das virtudes, lhes indique o caminho da bemaventurança. No entanto, attendendo a que me não é possivel hoje exarar aqui todos os factos ou apontamentos contidos em minha velha carteira, apenas lhes iniciarei os que mais recentes se tem dado, deixando para outra occasião os mais remotos, mas por ventura mais terriveis. Ora pois, meu reverendo prior, permitta-me lhe dê alguns conselhos na certeza de que, se bem os receber, alguma cousa lhe aproveitarão. Cumpra fielmente as ordens de seus superiores, não transgrida com ellas. Consta que o meu amigo ha pouco recebeu uns noivos em uma capella particular, quando o mandado determinava a séde da freguezia para celebração do dito consorcio. Tambem se diz que o meu caro ha poucos dias, tendo ido com o seu coadjuctor a uma outra freguezia assistir a uma festividade, só recolheu á sua, já noute, fazendo esperar os paes, padrinhos e mais pessoal que d’aqui havia partido para essa aldeia christianisar um recemnascido, o que só se effectuou ás 8 horas da noute, tendo os pobres de voltarem para esta povoação debaixo de um verdadeiro diluvio, o sem que para isso o meu bom amigo estivesse superiormente auctorisado — dizem. Tambem o meu reverendo tem causado alguns prejuizos a noivos, sahindo com o seu coadjuctor para fóra de villa e termo, e tendo os pobres de esperar para o dia immediato. Diga-me, meu caro, se em vez de um casamento ou baptisado fosse uma confissão ou extrema-unção a um enfermo, tambem se lhe mandaria esperar para o outro dia? É natural que assim succedesse. O senhor padre João Ignacio Godinho, seu digno coadjuctor, pelo simples facto de ser thesoureiro da parochia, entende estar auctorisado para pegar nos paramentos da capella particular d’esta aldeia e leval-os para dizer missa ahi na séde da freguezia, dizendo que, os que ahi existem estão incapazes de serviço. Na realidade o senhor padre Godinho tem graça! Continue! se d’aqui a pouco alguém pedir á junta d’esta parochia uma casula — por exemplo — para serviço n’esta igreja, o meu amigo será um dos primeiros que, com a sua opaca intelligencia, responderá — a junta não tem cousa alguma com o culto das capellas particulares! no entanto o meu affectuoso amigo, veio com os seus caros compadres inventariar todos os objectos pertencentes a objectos pertencentes a esta capella, que amanhã com certeza chamará particular. Vá, meu rico, aprender a ser um pouco mais escrupuloso, e para a outra vez não arrogue a si poderes que não tem. Até outro dia, meus caros, porque bastante prolixo tenho hoje sido e, acreditem-me, sou seu verdadeiro admirador. Montes.