Lisboa
19-2-79. (Correspondência particular.) Meu caro redactor. — Vão realisando-se os planos do governo ácerca de empatar as camaras a fim de que não seja discutida a lei do orçamento. Umas vezes adoecem os ministros, outras não se reunem os deputados! No dia 17, não houve sessão. Ora como havia de haver numero, se o sr. Fontes tinha de se defender das accusações que o povo lhe faz? Está claro que sim, e até era uma imprudência se n’este dia houvesse sessão, visto que se tratava de um negocio tão importante, com o qual o paiz tanto lucra: a defeza do sr. Fontes perante a opinião publica! É uma das primeiras necessidades do paiz! Pois não é?... O Partido do povo, faz as seguintes reflexões ácerca da concessão da Zambezia: «Desde os fins de outubro que se segreda em Lisboa o seguinte: 1.º que estavam lançadas em Inglaterra as bases de uma poderosa companhia, para tomar posse de uma das nossas provincias ultramarinas; 2.º que a esta companhia se ia fazer uma concessão na provincia de Moçambique; 3.º que esta companhia destinava para Portugal UM MILHÃO DE LIBRAS; sendo SEISCENTAS MIL a pretexto de emprestimo, e QUATROCENTAS MIL LIBRAS PARA ALTOS PERSONAGENS, cabendo, na partilha, ao maior de todos elles a medica quantia de MIL OITOCENTOS CONTOS. Ultimamente deixaram de ser segredo, para muitos homens politicos, aquellas incriveis noticias, porque se diz, que estão plenamente confirmadas por cartas chegadas de Londres.» Os scepticos começam agora a abrir os olhos, a approximar e comparar esta noticia com os factos e circumstancias que se deram na concessão Paiva de Andrade. 1.º — a transgressão das leis; 2.º — rapidez com que se fez a concessão; 3.º — a falta de prévio deposito pecuniario; 4.º — o desprezo do parecer da Junta Consultiva do Ultramar; 5.º — não ser ouvido o procurador da corôa nem o governador geral de Moçambique; 6.º — dois mezes depois da primeira noticia em segredo da existencia e planos da tal companhia, fez-se a concessão Paiva de Andrade. — No dia 17 foi entregue ao sr. D. Luiz o punhal que desappareceu na noite do baile no palacio da Ajuda. O punhal estava em poder d’um gandaieiro, quer dizer, d’um d’esses homens que andam pelas ruas apanhando trapos e papeis; mas por certo este não foi ao baile real; e a policia anda aos alcances de saber quem foi o ladrão, e quem foi o fidalgo lambareiro que veio dizer ao Zé povinho que ao baile real também iam ladrões. Dos fidalgos que extraviam os dinheiros das casas bancarias, diz-se que estão alcançados; mas os que se apossam dos objectos da casa alheia, como se lhe hade chamar? — Está concluida a reedificação do palacete em que habitou D. Philippa de Vilhena em 1640. Dirigiu os trabalhos o notavel architecto o sr. Manuel Lourenço Junior. — A alfandega rendeu até 17 do corrente 666:984$281 reis. M. Bruno.