Acontecimentos na Europa
Na preterita semana reinou perfeita calmaria nas espheras políticas e diplomáticas europeias. As viagens dos ministros francezes, as manifestações levantadas a proposito d’essas viagens, os discursos e os banquetes terminaram, e apenas no campo da publicidade se sustentou a questão motivada pela conferencia do príncipe de Bismark com o conde do Andrassy e a que está em projecto entre o primeiro e o príncipe de Gortschakoff. Em França, depois dos altos clamores ácerca do artigo 7.º do projecto de instrucção publica, e das buliçosas recepções feitas aos amnistiados da communa no seu regresso ao seio de suas familias e dos seus amigos, tudo voltou ao silencio e parece que não será perturbado até que a abertura das camaras em Paris tenha logar. Os orgãos da reacção não cessam comtudo nas suas truanisaes contra a forma do governo legalmente estabelecida; dizem elles que a republica é o espectro vermelho que desgraçará com a sua mão descarnada a pobre França; a guerra preparada nos conventiculos ultramontanos redobrou de força e de energia com a eleição d’uns dos amnistiados recemchegados para um dos logares vagos no conselho municipal de Paris, e, procedendo d’essa forma, espalham que só o conde de Chambord poderá com o auxilio do ceu salvar o paiz; é por isto que as manifestações politico-religiosas tem tido logar umas após outras. A mesma linguagem mas em sentido de propaganda a favor do príncipe Jeronymo Napoleão observava-se ainda nas folhas imperialistas. No entretanto, convem notar que o governo consolida a republica nas bases da tolerância, e o povo incitando-o a que prociga avante no trilho das reformas e da economia recebe á gargalhada as loururas dos defensores da monarchia do direito divino, e dos que exaltam as virtudes do império fazendo por esquecer que o império desgraçou a França, que a arrastou á beira do abysmo, e entregou á Allemanha a Alsacia e Lorena duas ricas provincias, desmembrando assim o territorio. Algumas folhas de Berlim, a proposito da projectada entrevista entre o príncipe de Bismark e o sr. Canovas del Castillo, deixou escapar vários boatos com referencia ao resultado da entrevista, caso venha a ter logar, e dos importantes successos no futuro que poriam em risco a paz europeia e mui principalmente nas potências latinas; o jornalismo madrileno occupa-se egualmente d’essa questão e diz ainda que vagamente, que na entrevista se discutiriam altas questões políticas e se assentariam as bases de uma alliança entre a Hespanha, a Allemanha e a Austria-Hungria. As combinações politicas que servem de thema aos commentarios do jornalismo madrileno, teriam sido sugeridas a proposito do enlace régio, que essas mesmas folhas se comprazem em julgar como prologo de acontecimentos que hão de mudar totalmente o estado de coisas e o modo de ser na península. Affirmar-se-iam as instituições monarchicas, que em Hespanha estão edificadas n’um solo minado pelas correntes revolucionarias, e por essa alliança do reinante, com o apoio e ostensivo beneplacito de dois poderosos impérios, se realisariam no futuro proximo as reivindicações históricas, que são o bello ideal do Imparcial e dos políticos utopistas que em Hespanha se deixam dominar pela embriaguez das aspirações ambiciosas, que em 1640 ficaram desfeitas nos campos da batalha, e mais de dois séculos de vivos e energicos protestos teem contrabalançado e repellído, levantando uma grande barreira politica, que é a fronteira mais forte que existe na independencia de dois paizes na parte occidental da Europa, Portugal e Hespanha. Essa entrevista, pois, teria por objectivo principal a fusão de dois paizes sob o mesmo sceptro, a constituição do sonhado império iberico, e seria o preço porque se pagaria á Hespanha o seu auxilio armado em taes ou taes conjuncturas graves de que a Europa anda ameaçada. Conforme se vê os conservadores realengos são os mesmos em todas as partes e seguem á risca as suas velhas tradições. Cremos, porém, poder affirmar que a epocha dos tratados de Fontainebleau vae muito distante, e que a independencia dos povos, firmada nas demonstrações da sua actividade, tradições e vida propria, perfeitamente designadas pela historia e accentuadas definidamente, de dia para dia, no movimento geral da civilisação e do progresso, não poderá ser um presente de núpcias nem tão pouco o premio de ambições que estão condemnadas a perecerem perante as exuberantes affirmações que resultam espontaneamente do mais vigoroso de todos os sentimentos políticos que se abrigam no seio dos povos; o da sua justa e inteira independencia. Já aqui o dissémos e não o cessaremos de repetir: no dia em que a monarchia hespanhola mandasse os exercitos violar o nosso territorio Portugal levantar-se-hia como um só homem e proclamando a republica federal firmaria a sua independencia e mostraria aos déspotas do Norte que ainda tinha forças para responder com hombridade aos insultos dos que só sabem viver explorando o povo acobertados com os arminhos dos mantos reaes. Portugal seria então republicano, isto é, livre, altivo, audaz, glorioso, e mostraria á monarchia hespanhola e aos déspotas do Norte que ainda tinha forças para firmar a sua autonomia e responder aos insultos dos que só sabem viver explorando o povo acobertados com os arminhos dos mantos reaes. Olhem os monarchicos hespanhoes para o estado lastimoso a que tem reduzido a nação e deixem-se de pensar em aventuras que serão sempre perigosas para os interesses das instituições monarchicas. Cabe aqui a proposito fallar do estado universal a que o actual estado de cousas tem reduzido a Hespanha. Eis o que diz um correspondente de Madrid: Cada dia se torna mais grave a questão do trabalho. O porto de Vinaroz, na Catalunha, tem 1:500 marítimos sem trabalho e sem pão. Da Navarra saem centos de operários para a America; no Aragão a miseria toma proporções assustadoras; Almeria, Valência, Alicante e Murcia veem partir todos os seus homens validos para a Argélia. São dados officiaes, em que não ha exageração. Feliz situação! É a este estado, repetimos, que a obra de Sagunto tem arrastado a Hespanha. E pensam os monarchicos em projectos de altas combinações politicas! O partido democrático procura porém collocar um dique ás demasias dos conservadores salvando ao mesmo tempo a liberdade para dar novo impulso ao progresso. Em uma correspondência de Madrid lemos que o sr. Martes reuniu em sua casa os membros da junta directora do antigo partido progressista democratico; assistiram quinze pessoas, tendo faltado, o sr. Becerra e Gasset, director do Imparcial, por não estarem conformes com as bases estabelecidas em Paris, inclinando-se para as idéas conservadoras, os srs. Calvo Asensio, Santas e outros amigos do sr. Ruiz Zorrilla, por serem contrários á união tal como se projecta e partidários de uniões e principios mais avançados. É o que se affirma. O sr. Martos, apesar de dizerem que havia perdido a minuta das bases approvadas na conferencia de Paris, suppriu a falta com a sua excellente reminiscencia, e declarou que o partido defenderia a constituição de 1869 e as leis orgânicas que vigoraram até 1873, mas com algumas acclarações; a unidade de Hespanha e a autonomia administrativa sob a inspecção do governo e que se conservaria separado da demagogia e da reacção. Depois de serem manifestadas pelos srs. Figueirola, Mosqueza e Sardoal algumas duvidas a que o sr. Martos respondeu, assim como o sr. Montero Rios, foi approvado o procedimento do sr. Martos em Paris, ficando elle auctorisado a entender-se com todos os grupos democraticos que estivessem de accordo com aquellas bases para a formação do novo partido, que se intitulará — Democratico hespanhol. É cousa resolvida que o sr. Gasset e o seu jornal o Imparcial não acompanham o novo partido, o qual, segundo parece, fundará um jornal para defender as suas idéas. Parece que o sr. Martos enviará copias das resoluções tomadas em Paris e em Madrid aos srs. Pi y Margall, Figueras e Castellar, assim como a todos os jornaes democraticos, para que as discutam. A attitude do El Globo, orgão do sr. Castellar, e da Union que representa o sr. Pi y Margall e os federaes, não pôde ser mais digna. Só dois jornaes declararam que não dizem nada ácerca das resoluções tomadas em Paris porque ainda não as conhecem, e só depois de as conhecerem as discutirão. O Liberal parece que tambem não quiz ser orgão do novo partido. As pequenas divergencias suscitadas no seio do partido progressista-democratico serão sem duvida vencidas e as cousas marcharão conforme as decisões tomadas em Paris. Um jornal conservador, o Diario de Barcellona, declara que a actual insurreição em Cuba é uma advertencia que não convem dispensar. E apesar disso o governo ainda não pensa em decretar a abolição da escravidão; os seus jornaes dizem que a insurreição diminue, mas apesar disso não publicam os telegrammas. Volvendo ainda aos assumptos da politica no Norte diremos que cessou a guerra levantada entre a imprensa moscovita e o allemão o que nos demonstrou que se entre Bismark e Gortschakoff existiam algumas divergencias com relação ao tratado de Berlim, essas divergencias desappareceram para dar logar á fiel execução das disposições d’um tratado. Será por este facto que ao seio da diplomacia volveram as esperanças da estabilidade da paz?