Carta do Porto
6 de novembro de 1879. Cidadão redactor: — Á falta de assumpto para fallarmos do interior, fallemos do exterior. Terminou as suas sessões o congresso operario de Marselha em que ficaram vencedores os partidarios do collectivismo, e vencidos os cooperadores. O governo francez vê-se cercado de embaraços; não quer acceder ao pedido da amnistia plena e o resultado da sua resistencia, será a sua morte; que os cardeaes, em cujas cabeças tem sido collocados os barretes, pela mão do sr. Grevy, hajam de dizer officios fúnebres. Não ha muito tempo que o districto de Javel elegeu conselheiro municipal de Paris o nosso companheiro Affonso Humbert, communnlista amnistiado; os liberaes, republicanos francezes annullaram-lhe a eleição e declaram que em nada se tinha alterado a resolução de votarem contra o projecto de amnistia geral; as camaras abrem segundo creio a 27 do corrente e então veremos qual a resposta obtida pelos governamentaes de França; parece-nos já estar vendo Gambetta no poder e Bismark perseguido por atrozes pesadellos; se isto ainda não for tudo, será pelo menos um grande passo. Já que fallámos de congressos aproveitemos a occasião para dizermos que a agrupação operaria da classe de tecelões nomeou já os delegados ao 4.º congresso operario portuguez; a nomeação recahiu sobre os companheiros J. Maia Pina, Silvestre Pinto Caldeira, Eduardo de Carvalho e Cunha; brevemente serão nomeados os representantes das outras agrupações. O Vaticano folga que as eleições em Portugal, dessem maioria aos progressistas, porque não são capazes de alterar as relações entre esta potencia e a Santa Egreja; os governamentaes pela bocca do sr. Marianno de Carvalho declararam proclamar a liberdade de cultos, resta saber quem é o enganado, se o povo, se Leão XIII; no caso do enganado ser o povo (o que sempre tem acontecido) dará pulos de contente a reacção; no caso do enganado ser o papa, pesará sobre Portugal uma tremenda excommunhão, forjada na basilica de S. Pedro; ora os progressistas que desejam as prosperidades da nação portugueza não podem querer que ella soffra o desagrado da curia, e tratarão de não ferir a Leão XIII; está pois visto que o povo será ainda mais uma vez enganado, e que a promessa da liberdade de cultos será ephemera (como todas as que são feitas em vesperas de eleições). Nós os liberaes devemos estar de atalaia para o que der e vier. Vae ser publicado n’esta cidade um livro intitulado A mentira da Egreja de Roma; é devido á penna do nosso intelligente companheiro M. Pinto Canedo, operario-charuteiro; o auctor do livro é um caracter sinceramente liberal o que nos leva a crer que a obra será importantissima, o que não obstará a que seja talvez anathematizada pelo jesuitismo, o que nenhum merecimento lhe tirará. Foram ultimamente presos n’esta cidade alguns desgraçados vendedores de folhas por serem encontrados a jogar jogos prohibidos... para proletarios. Não saberá a policia que bem perto do commissariado existe uma casa de batota? Não saberá que no Grémio Portuense se joga? Não saberá que na rua de Sá da Bandeira existe mais uma que foi aberta ha poucos dias? Sabe mas a essas não vae prender os jogadores porque pode dar-se o caso de prender algum collega... sem querer. N’uma das casas que fallei é director um homem que já foi deputado da nação; é por isso que a policia lá não vae. Que egualdade de justiça a da actual sociedade. Até á carta proxima. Bessa Carvalho.