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O movimento socialista é a ordem do dia em S. Petersburgo, Berlim e Paris. Para avaliar do movimento em Paris bastará dizer que em menos de oito dias appareceu o Citoyen; o Rappel annunciou como uma honra a collaboração de Rochefort, da Lanterne; a Justice, do sr. Clémenceau, o mais eloquente dos deputados intransigentes; e o Réveil social, dos srs. Luiz Blanc e Baròdet. Em uma casa situada no Ufer-Plan, n.º 20 foi descoberta uma typographia socialista. O impressor por nome Werner, foi preso, assim como dois operarios seus, um austríaco e o outro saxonio. Ao mesmo tempo foram apprehendidos 1:000 exemplares de um jornal socialista-revolucionario que acabava de ser impresso. Procedeu-se, com este descobrimento, á prisão d’um estudante oriundo da Polonia, por appellido Cohn, e a pesquisas em dia de Natal e no seguinte, em casa de muitos estudantes estrangeiros. As prensas, os typos, o papel e demais objectos apprehendidos foram transportados para o Malkenmarkt. Diz-se que a policia anda na pista de uma associação nihilista. O Post de Berlim annuncia que novas pesquisas deram em resultado o descobrirem-se correspondencias que provam a existencia de uma associação entre socialistas e nihilistas. A policia descobriu em Berlim outra imprensa nihilista. As pesquisas feitas em casa de alguns estudantes estrangeiros, especialmente polacos e russos, deram em resultado encontrar-se grande porção de proclamações socialistas. Na imprensa acharam-se tambem muitos exemplares de uma nova proclamação nihilista de caracter revolucionario. Tem-se feito bastantes prisões. Os nihilistas empregam admirável actividade nos seus trabalhos em todo o império russo, e muito principalmente entre os officiaes do exercito e mesmo entre os soldados; e a darmos credito ás noticias da Rússia publicadas nos jornaes allemães, não são infructiferos os seus esforços. Em consequencia disto as auctoridades militares russas teem multiplicado o numero dos seus agentes, e tomado varias medidas com o fim de impedir a propaganda revolucionaria. Também o Standard de Londres publica vários telegrammas de Vienna e de outros pontos, dando noticia dos progressos do nihilismo no exercito moscovita. Os factos referidos nos jornaes allemães e no Standard são os seguintes: 1.º Em Voronesch, no dia 29 de dezembro ultimo, quatro officiaes de infanteria 141 foram presos por ordem do chefe da gendarmaria, por se ter descoberto que se reuniam para lerem a alguns dos seus subordinados escriptos adversos ao governo e revolucionarios. Por intervenção dos seus subordinados tinham feito chegar á tropa escriptos prohibidos pelas auctoridades de S. Petersburgo. Encontrou-se-lhes uma volumosa correspondencia e grande numero de impressos revolucionarios. 2.º Em Nowgorod foram encontrados em poder de alguns officiaes documentos revolucionarios, e em Borysoglobsk, dois officiaes que estavam de guarda á cadeia, ajudaram a evadirem-se oito presos politicos. Todos estes officiaes foram presos. 3.º Nos districtos de Olentz e de Areangel foram descobertos muitos nihilistas nos regimentos formando-se um conselho de guerra especial para os julgar. 4.º O Correio Russo, jornal de Moscou, annuncia que a caixa do regimento de hussares, de guarnição n’aquella cidade, foi roubada pelos soldados que estavam encarregados de a guardar. Continha a caixa 27:700 rublos, de que se apoderaram os nihilistas, sem que se podessem apanhar os ladrões. Além d’estes factos, os jornaes polacos fallam da prisão em Varsovia de mais de cem soldados nihilistas, noticia confirmada pelo Morning Post. Foi preso na Rússia um lente da universidade de Karkoff, em cuja casa se encontrou grande numero de proclamações revolucionarias, e uma quantidade considerável de matérias explosivas. Em muitos regimentos do exercito descobriram-se tambem conspirações nihilistas. O governo constituiu conselhos de guerra especiaes para julgar os que se acham compromettidos, e manda empregar as medidas mais severas. Pondo, por hoje, de parte estes assumptos vamos fallar d’alguns factos do Vaticano para assim, na missão a que nos propomos, trazermos o leitor ao facto de todos os successos. Ha tempos, o papa encarregou diversos cardeaes e prelados d’examinarem-se, no estado actual, era conveniente e necessario continuar o concilio ecumenico do Vaticano, e sob que fórma convinha fazel-o. Depois de estudada profundamente a questão sob todos os pontos de vista, os cardeaes concluiram que era absolutamente impossível continuar o concilio, quer em Roma, quer n’outra cidade, pelos motivos seguintes: 1.º Na condição em que se encontra o papa, a continuação do concilio seria moral e materialmente prohibida, senão pelo governo italiano, pelo menos pelas circumstancias que se lhe impõem; 2.º A affluencia a Roma de tão grande numero de bispos poderia dar logar a falsas apreciações e a provocar coleras; 3.º A continuação do concilio exigiria despezas que estão acima das forças da santa sé, na situação presente; 4.º As questões a tratar poderiam crear embaraços novos, e maiores, e mesmo despertar o ciume dos governos. Attendendo a estes motivos, e ainda a outros, o papa renunciou definitivamente á idéa de continuar o concilio do Vaticano. Considerando tambem que a sala do concilio custava annualmente uma forte somma (despeza com architectos, reparações, limpeza etc.) o papa ordenou que fossem demolidas as obras ali feitas, e a parte da basilica de S. Pedro, onde essa sala se achava, foi devolvida ao seu estado primitivo. Algumas folhas de Roma espalharam ultimamente a noticia de que estavam interrompidas as negociações pendentes entre o Vaticano e o principe de Bismark. A noticia é absolutamente falsa. Sobre este assumpto diremos que o projecto revisto pelo conselheiro íntimo, sr. Hubler, e o nuncio Jacobini, com o fim de estabelecer um modus vivendi entre ambas as côrtes, deve ser apresentado de um para outro momento, no Vaticano. Os nossos leitores recordam-se, de certo, que, quando o principe de Bismark se separou do partido nacional-liberal para unir-se com o Centro, o sr. de Forckenbeck, um dos chefes de fracção mais avançada do partido nacional-liberal, dirigiu um manifesto ao povo allemão com o fim de fundar um partido vigoroso que, ao mesmo tempo que resistisse á reacção, reivindicasse para o partido liberal a influencia que havia perdido com a attitude tomada pelo chanceller do imperio. Os esforços do sr. de Forckenbeck não foram coroados por bom exito; e nas eleições que tiveram logar o outono passado, os representantes do grupo a que pertence o antigo burgo-mestre de Berlim, ficaram reduzidos a 15 ou 16, e o seu fundador, sr. Lasker, perdeu a eleição e retirou-se á vida privada. O exiguo grupo que representa este partido na camara, obrigado a confundir-se com a maioria ou a condemnar-se á impotencia pelo isolamento em que se achava, resolveu entabolar negociações com o partido progressista para a fusão dos dois grupos, se bem que os seus desejos não tivessem até agora o resultado presumido. Os jornaes progressistas oppõem-se ao acto, allegando que o reforço é de pouca valia, julgando preferível não fazer concessões, conservando d’este modo a integridade do credo que representam na politica. Este fiasco annulla quasi completamente a importancia politica do partido nacional-liberal allemão. Surgiu nestes ultimos dias um conflicto entre o Vaticano e a Belgica o que motivou retardar a transferencia do nuncio em Bruxellas até que todo o perigo de ruptura de relações desappareça. Comtudo as principaes difficuldades que provocaram o conflicto podem considerar-se como aplanadas. O papa lamenta infinitamente que tivessem occorrido certos incidentes; sua santidade diz que o governo belga deveria ter dado prova de maior lealdade depois de ter, graças ao concurso da santa sé, conseguido evitar a lucta entre a Egreja e o Estado. Monsenhor Pallotti, designado para successor de monsenhor Vannutelli para a nunciatura de Bruxellas, demorar-se-ha ainda por algum tempo, e a sua nomeação de arcebispo in partibus, que estava destinada para um destes dias, fica adiada para fevereiro ou março proximos. Ainda duas noticias do Vaticano: Leão XIII, como é sabido, destinou a rosa de oiro á nova rainha de Hespanha. Esta distincção honorifica foi muito agradavel á côrte de Madrid, e tornou mais amaveis as boas relações entre o governo hespanhol e a santa sé. A côrte de Vienna acolheu egualmente com satisfação o acto do pontifice; viu n’esse acto uma attenção que elle se dignou ter com a familia imperial, que tem muita affeição por sua santidade. O grupo jesuita — ou por outra — o grupo intolerante que cerca o papa, pretende que seja canonizado o fallecido papa Pio IX e para isto estão traçados os primeiros trabalhos! É o que nos falta vêr.