Entre as novas verbas do imposto do sello tornam-se algumas muito salientes; os bilhetes de theatro pagarão 10 reis, 20, 30, 40, 50, 100 e 200 reis segundo forem até ao preço de 200 reis, d’ahi a 500, d’ahi a 2$000 reis, de 2 a 5, e de 5 para cima; os bilhetes das linhas ferreas ou das carreiras marítimas pagarão 10 reis de 300 a 500 reis, 20 de 500 a 1$000, e 20 reis por cada mais 1$000 ou fracção de 1$000 reis; os telegrammas pagarão no continente e ilhas 20 rs., do continente para as ilhas, nestas entre si, ou d’ellas ao continente 50 reis, para o Ultramar 100 reis; para paizes estrangeiros na Europa 100 reis; annuncios em jornaes ou em livros 5 0/0 do custo de cada annuncio. Ora ácerca das communicações telegraphicas entre as nações existe uma convenção internacional, que diz o seguinte no artigo 3.º do regulamento: «As tarifas das correspondencias trocadas entre dois pontos, de qualquer dos estados contratantes, deve ser composta de modo, que a taxa do despacho de vinte palavras seja sempre multipla de meio franco. Cobrar-se-ha no maximo por um franco: Em Portugal 200 reis.» E no artigo 14.º diz-se: «Applica-se o minimo da taxa ao telegramma cuja extensão não exceda vinte palavras.» E na tabella annexa á convenção diz-se quaes as taxas estabelecidas entre os diversos paizes de um modo positivo. Na convenção estabelece-se positivamente no artigo 10.º: «Declaram as altas partes contratantes adoptar para a formação das tarifas internacionaes as bases seguintes: A taxa applicada a todas as correspondencias trocadas pela mesma via será uniforme entre as estações de qualquer dos estados contratantes. Qualquer estado poderá comtudo na Europa ser subdividido, para a applicação da taxa uniforme, quando muito em duas grandes divisões territoriaes. A importancia da taxa é estabelecida de estado para estado por accordo com os governos extremos e intermédios. As taxas das tarifas applicaveis ás correspondencias trocadas entre os estados contratantes poderão em qualquer epocha ser modificadas por accordo mutuo.» Como pensa pois o governo alterar as taxas de telegrammas para paizes estrangeiros na Europa, e fóra d’ella? Esperamos que as folhas ministeriaes nos respondam. Vamos ao imposto de rendimento, o artigo 2.º da proposta diz assim: «A contribuição é dividida pelos chefes de familia na localidade do domicilio, e recae sobre os rendimentos proprios e sobre os da mulher e filhos que estejam sob o patrio poder.» Posto em execução este artigo succede o seguinte: Um pedreiro, por exemplo, ganha 400 reis por dia, 2$400 reis por semana, 124$000 reis por anno. Tem um filho de 8 annos que lhe dá serventia, e ganha 100 reis por dia, 600 reis por semana, 24$960 por anno. A mulher lava roupa e ganha n’este mister 40$000 reis annuaes. Tem ainda uma filha, menor, que serve na cidade uma casa, e ganha tres moedas, 14$400 reis, fóra o que come, que, segundo a disposição da lei proposta, deve tambem ser computado. O fisco faz esta operação: Pae 124$000; Mãe 40$000; Filho 24$960; Filha 14$400; somma 203$360, e acha um contribuinte, não já de 1.ª classe, porque para isso bastava que chegasse a 150$005 reis a somma dos lucros da familia, mas um contribuinte de 2.ª classe sujeito á taxa de 2 por cento! E note-se que, sendo ás outras classes de contribuintes descontado o que pagam por outras contribuições, aos infelizes operarios, chamados na lei de trabalho manual, não se faz egual equidade, ficando portanto o seu salario sujeito á decima de industria, á de renda de casas, á da junta geral, á do municipio, á da parochia, á congrua, etc. Se esse abatimento se fizesse, como se faz ás outras classes, ainda muitas ficariam ao abrigo do minimo, e livres portanto das unhas do novo imposto; mas ao sr. Barros Gomes pareceu-lhe que estes escolhidos da sorte não precisavam gosar das regalias que se concedem aos proprietarios, industriaes, commerciantes e outros. Tomamos para exemplo o minimo dos salarios da actualidade, e com os quaes, em presença da carestia que tudo assoberba, e que a reforma tributaria vae aggravar, não passa o misero operario de comer caldo e pão de rala, de dormir na enxerga dura, e de procurar na agitação do trabalho o calor que a roupa lhe não dá. D’ahi para cima o tributo vae subindo, de modo que a familia laboriosa, que conseguir reunir pelo trabalho de todos os seus membros 300$000 reis por anno, já sabe que tem de pagar, por cima de tudo o mais, 1$150 reis todos os tres mezes, porque o novo tributo, se vingar, hade ser pago aos trimestres. O imposto de rendimento é o income tax inglez que Pitt creou em 1798 como uma necessidade resultante da guerra que os inglezes tiveram de sustentar contra a França, medida que só em abril de 1803 foi completada. Os contribuintes foram divididos em cinco classes, e o imposto applicado na rasão de 5 por cento ás primeiras, terceiras, quartas e quintas, e de 3 3/4 á segunda. Devia tal imposto terminar com o tratado definitivo de paz, não succedeu porém assim, e teve de augmentar por uma resolução do parlamento de 13 de junho de 1806. Em 1816 foi abolido, mas em 1842 foi restabelecido por proposta de Robert Peel, devendo durar só até 6 de abril de 1845, data em que o praso foi prorogado até hoje. Em Inglaterra porém só pagam os que teem para mais de 100 libras de rendimento; o sr. Barros Gomes, ao copiar a lei ingleza, entendeu porém que o não devia fazer com fidelidade, e sujeita ao imposto todos os que auferem mais de 150$000 reis! Proseguiremos. Respondendo ao Bejense, diz o Operario: «O nosso collega O Bejense respondeu á pergunta que lhe fizemos ou por outra escreveu referindo-se a nós, mas não disse qual a sua opinião acerca do socialismo, apezar de prometter dizel-a livre e singelamente. Diz o collega que ignora se as suas opiniões serão as nossas; desde já lhe declaramos que existe divergencia.» Será certo que nós, querendo declarar ao Operario o que pensávamos acerca do socialismo, nada mais fizemos do que enfileirar phrases com referencia ao collega? Talvez; mas, se tal aconteceu, produziu um resultado que, alem de não podermos explicar, nos maravilha. Se não lhe manifestámos livre e singelamente, ou como quer que fosse, as opiniões do Bejense acerca do socialismo, como pôde o collega affirmar que ellas differiam das do Operario? Para que seja licito dizer que dois objectos são differentes é indispensavel comparal-os; ora, se as nossas opiniões acerca do socialismo lhe eram inteiramente desconhecidas, e se nas explicações que lhe démos, respondendo á pergunta que nos dirigio, não lh’as patenteámos; como conseguiu o collega comparar com as suas as nossas opiniões sobre aquelle assumpto, e habilitar-se para asseverar que ellas não eram conformes? O Operario explicará este caso verdadeiramente estupendo; milagroso lhe chamariamos, se a existencia de milagres nos merecesse mais credito que a efficacia das panacéas do socialismo revolucionario. O Operario e o Bejense pensam de modo diverso acerca do socialismo: até onde chega a divergencia? Ouçamos o Operario: «Diz o collega que ha dous systemas, ou com mais exacção duas escolas socialistas, e nós dizemos e affirmamos que ha mais escolas; de passagem citaremos as de Saint-Simon, Proudhon, Karl-Marx e Lassalle.» Perdôe o Operario; mas o que dissemos não foi o que o collega entendeu. Vamos transcrever textualmente a parte do nosso artigo a que o Operario se refere: «... verá que para nós ha socialismo, e socialismo. Diremos agora que ha dois systemas, ou, com mais exacção, duas escolas socialistas. Ambas se propõem o mesmo fim, melhorar o estado actual das classes trabalhadoras; mas divergem no methodo de resolver esse problema, cuja solução perturba dolorosamente as velhas nações da Europa. O socialismo, sem qualificativo, mas que se pode qualificar de pratico e moderado, adopta em sociologia o methodo experimental, seguido em todas as sciencias. O socialismo a que chamámos extremo, porque não quizemos dar-lhe o seu verdadeiro nome, usa e abusa do methodo subjectivo; é methaphysico.» Ou nós não sabemos nem ler nem escrever, ou o que ahi fica transcripto diz que o Bejense divide em dois grupos as escolas socialistas, ao primeiro dos quaes pertencem as que, procurando resolver o problema economico, adoptam o methodo experimental ou objectivo, e ao segundo as que se servem do methodo subjectivo: affirmar que o Bejense escreveu que houvera ou ainda havia no mundo só duas escolas socialistas, parece-nos um gracejo de tão mau gosto que vae tocar as raias da injustiça. Bastava que elle conhecesse, como conhece, a historia dos systemas de reforma social para não cahir em erro tão grosseiro, e até para acrescentar, alardeando erudição muito facil, a lista dos corypheos do socialismo que o collega nos offereceu, com os nomes de alguns reformadores, por certo muito dignos de figurarem entre os de Proudhon, Lassalle, Karl Marx, S. Simon, Baboeuf, Fourier, Cabet, Louis Blanc, Ouwen, A. Comte, Baakounine, querendo apenas citar os mais notaveis entre os modernos, e querendo esquecer os seus discipulos e os pontifices das seitasinhas e das igrejinhas em que o socialismo revolucionario se divide, pontifices que não só se contradizem, mas se combatem, se perseguem e se anathematisam mutuamente. Continua o Operario: «Não pára, porém, aqui a divergencia porque nós defendemos o socialismo que o collega combate e combatemos o socialismo que o collega defende e acha excellente, apezar de ser constituinte (o Bejense entende-se).» E porque não ha de sel-o? Que repugnancias descobre o collega entre os principios do partido constituinte, que apoiamos, e os da escola socialista pratica, que defendemos? Existem realmente taes repugnancias? Para o acreditar não basta que o collega o insinue, é necessario que o demonstre. Mas o collega combate o socialismo que defendemos, e defende o que combatemos: porquê? Porque o socialismo do Bejense, diz o Operario, «não é mais do que radicalismo, e então se quizer dar-se ao trabalho de ler o artigo de fundo do nosso n.º 35 e que é escripto pelo nosso correligionario do Proletaire, S. Paulard, ahi encontrará a prova de que divergem e muito as opiniões do collega das nossas.» Lemos o artigo de S. Paulard; e se achámos uma differença profunda entre o socialismo pratico ou positivo, que é o nosso, e o socialismo extremo ou revolucionario, que é o do collega, differença que para nós não foi novidade, não conseguimos achar conformes as nossas opiniões relativas á questão do melhoramento das condições actuaes das classes chamadas laboriosas, com as do radicalismo francez, cujas doutrinas apparecem no alludido artigo formuladas de um modo que nos absteremos de qualificar, ou a que chamaremos unicamente inexacto. A falta de espaço obriga-nos a interromper a resposta ao artigo do Operario; no seguinte numero concluiremos.
O sr. ministro do reino apresentou, na casa electiva, o projecto do codigo administrativo.
Na camara dos pares foram apresentadas as cartas regias que elevaram ao pariato os srs. D. Luiz de Carvalho Daun e Lorena, e Cardoso, e apresentados os pareceres relativos aos srs. Luiz de Campos e Manoel José de Seixas.
Elegeram
se as commissões de obras publicas e de agricultura.
A ordem do dia para hoje é a resposta ao discurso da corôa.
Na camara dos deputados, foi votado o projecto de resposta ao discurso da corôa, havendo declarado os srs. Thomaz Ribeiro e Dias Ferreira que se abstinham de o discutir porque o consideravam como um mero cumprimento a el-rei.
Antes de hontem foi regeitada a proposta do sr. Rodrigues de Freitas reduzindo a dotação do infante D. Augusto, e annulada a eleição de Certã, depois de pequena discussão.
Hontem houve trabalhos em commissões e hoje, para a ordem do dia, estão dados dois projectos de fazenda — arrematação do real de agua, e o caixa de depósitos.
A junta geral fechou, sexta feira, depois de declarar vagos, por se darem as incompatibilidades de que resa o codigo no artigo 10.º, os logares dos srs. Castro e Lemos (Aljustrel) e Assis e Britto (Serpa), e de ter votado a reconducção da commissão executiva.
O Ecco Picoense e A Voz do Povo transcreveram o artigo que, sob a epigraphe Acontecimentos na Europa, publicámos no n.º 993. Agradecidos.
Acontecimentos na Europa
O movimento socialista é a ordem do dia em S. Petersburgo, Berlim e Paris. Para avaliar do movimento em Paris bastará dizer que em menos de oito dias appareceu o Citoyen; o Rappel annunciou como uma honra a collaboração de Rochefort, da Lanterne; a Justice, do sr. Clémenceau, o mais eloquente dos deputados intransigentes; e o Réveil social, dos srs. Luiz Blanc e Baròdet. Em uma casa situada no Ufer-Plan, n.º 20 foi descoberta uma typographia socialista. O impressor por nome Werner, foi preso, assim como dois operarios seus, um austríaco e o outro saxonio. Ao mesmo tempo foram apprehendidos 1:000 exemplares de um jornal socialista-revolucionario que acabava de ser impresso. Procedeu-se, com este descobrimento, á prisão d’um estudante oriundo da Polonia, por appellido Cohn, e a pesquisas em dia de Natal e no seguinte, em casa de muitos estudantes estrangeiros. As prensas, os typos, o papel e demais objectos apprehendidos foram transportados para o Malkenmarkt. Diz-se que a policia anda na pista de uma associação nihilista. O Post de Berlim annuncia que novas pesquisas deram em resultado o descobrirem-se correspondencias que provam a existencia de uma associação entre socialistas e nihilistas. A policia descobriu em Berlim outra imprensa nihilista. As pesquisas feitas em casa de alguns estudantes estrangeiros, especialmente polacos e russos, deram em resultado encontrar-se grande porção de proclamações socialistas. Na imprensa acharam-se tambem muitos exemplares de uma nova proclamação nihilista de caracter revolucionario. Tem-se feito bastantes prisões. Os nihilistas empregam admirável actividade nos seus trabalhos em todo o império russo, e muito principalmente entre os officiaes do exercito e mesmo entre os soldados; e a darmos credito ás noticias da Rússia publicadas nos jornaes allemães, não são infructiferos os seus esforços. Em consequencia disto as auctoridades militares russas teem multiplicado o numero dos seus agentes, e tomado varias medidas com o fim de impedir a propaganda revolucionaria. Também o Standard de Londres publica vários telegrammas de Vienna e de outros pontos, dando noticia dos progressos do nihilismo no exercito moscovita. Os factos referidos nos jornaes allemães e no Standard são os seguintes: 1.º Em Voronesch, no dia 29 de dezembro ultimo, quatro officiaes de infanteria 141 foram presos por ordem do chefe da gendarmaria, por se ter descoberto que se reuniam para lerem a alguns dos seus subordinados escriptos adversos ao governo e revolucionarios. Por intervenção dos seus subordinados tinham feito chegar á tropa escriptos prohibidos pelas auctoridades de S. Petersburgo. Encontrou-se-lhes uma volumosa correspondencia e grande numero de impressos revolucionarios. 2.º Em Nowgorod foram encontrados em poder de alguns officiaes documentos revolucionarios, e em Borysoglobsk, dois officiaes que estavam de guarda á cadeia, ajudaram a evadirem-se oito presos politicos. Todos estes officiaes foram presos. 3.º Nos districtos de Olentz e de Areangel foram descobertos muitos nihilistas nos regimentos formando-se um conselho de guerra especial para os julgar. 4.º O Correio Russo, jornal de Moscou, annuncia que a caixa do regimento de hussares, de guarnição n’aquella cidade, foi roubada pelos soldados que estavam encarregados de a guardar. Continha a caixa 27:700 rublos, de que se apoderaram os nihilistas, sem que se podessem apanhar os ladrões. Além d’estes factos, os jornaes polacos fallam da prisão em Varsovia de mais de cem soldados nihilistas, noticia confirmada pelo Morning Post. Foi preso na Rússia um lente da universidade de Karkoff, em cuja casa se encontrou grande numero de proclamações revolucionarias, e uma quantidade considerável de matérias explosivas. Em muitos regimentos do exercito descobriram-se tambem conspirações nihilistas. O governo constituiu conselhos de guerra especiaes para julgar os que se acham compromettidos, e manda empregar as medidas mais severas. Pondo, por hoje, de parte estes assumptos vamos fallar d’alguns factos do Vaticano para assim, na missão a que nos propomos, trazermos o leitor ao facto de todos os successos. Ha tempos, o papa encarregou diversos cardeaes e prelados d’examinarem-se, no estado actual, era conveniente e necessario continuar o concilio ecumenico do Vaticano, e sob que fórma convinha fazel-o. Depois de estudada profundamente a questão sob todos os pontos de vista, os cardeaes concluiram que era absolutamente impossível continuar o concilio, quer em Roma, quer n’outra cidade, pelos motivos seguintes: 1.º Na condição em que se encontra o papa, a continuação do concilio seria moral e materialmente prohibida, senão pelo governo italiano, pelo menos pelas circumstancias que se lhe impõem; 2.º A affluencia a Roma de tão grande numero de bispos poderia dar logar a falsas apreciações e a provocar coleras; 3.º A continuação do concilio exigiria despezas que estão acima das forças da santa sé, na situação presente; 4.º As questões a tratar poderiam crear embaraços novos, e maiores, e mesmo despertar o ciume dos governos. Attendendo a estes motivos, e ainda a outros, o papa renunciou definitivamente á idéa de continuar o concilio do Vaticano. Considerando tambem que a sala do concilio custava annualmente uma forte somma (despeza com architectos, reparações, limpeza etc.) o papa ordenou que fossem demolidas as obras ali feitas, e a parte da basilica de S. Pedro, onde essa sala se achava, foi devolvida ao seu estado primitivo. Algumas folhas de Roma espalharam ultimamente a noticia de que estavam interrompidas as negociações pendentes entre o Vaticano e o principe de Bismark. A noticia é absolutamente falsa. Sobre este assumpto diremos que o projecto revisto pelo conselheiro íntimo, sr. Hubler, e o nuncio Jacobini, com o fim de estabelecer um modus vivendi entre ambas as côrtes, deve ser apresentado de um para outro momento, no Vaticano. Os nossos leitores recordam-se, de certo, que, quando o principe de Bismark se separou do partido nacional-liberal para unir-se com o Centro, o sr. de Forckenbeck, um dos chefes de fracção mais avançada do partido nacional-liberal, dirigiu um manifesto ao povo allemão com o fim de fundar um partido vigoroso que, ao mesmo tempo que resistisse á reacção, reivindicasse para o partido liberal a influencia que havia perdido com a attitude tomada pelo chanceller do imperio. Os esforços do sr. de Forckenbeck não foram coroados por bom exito; e nas eleições que tiveram logar o outono passado, os representantes do grupo a que pertence o antigo burgo-mestre de Berlim, ficaram reduzidos a 15 ou 16, e o seu fundador, sr. Lasker, perdeu a eleição e retirou-se á vida privada. O exiguo grupo que representa este partido na camara, obrigado a confundir-se com a maioria ou a condemnar-se á impotencia pelo isolamento em que se achava, resolveu entabolar negociações com o partido progressista para a fusão dos dois grupos, se bem que os seus desejos não tivessem até agora o resultado presumido. Os jornaes progressistas oppõem-se ao acto, allegando que o reforço é de pouca valia, julgando preferível não fazer concessões, conservando d’este modo a integridade do credo que representam na politica. Este fiasco annulla quasi completamente a importancia politica do partido nacional-liberal allemão. Surgiu nestes ultimos dias um conflicto entre o Vaticano e a Belgica o que motivou retardar a transferencia do nuncio em Bruxellas até que todo o perigo de ruptura de relações desappareça. Comtudo as principaes difficuldades que provocaram o conflicto podem considerar-se como aplanadas. O papa lamenta infinitamente que tivessem occorrido certos incidentes; sua santidade diz que o governo belga deveria ter dado prova de maior lealdade depois de ter, graças ao concurso da santa sé, conseguido evitar a lucta entre a Egreja e o Estado. Monsenhor Pallotti, designado para successor de monsenhor Vannutelli para a nunciatura de Bruxellas, demorar-se-ha ainda por algum tempo, e a sua nomeação de arcebispo in partibus, que estava destinada para um destes dias, fica adiada para fevereiro ou março proximos. Ainda duas noticias do Vaticano: Leão XIII, como é sabido, destinou a rosa de oiro á nova rainha de Hespanha. Esta distincção honorifica foi muito agradavel á côrte de Madrid, e tornou mais amaveis as boas relações entre o governo hespanhol e a santa sé. A côrte de Vienna acolheu egualmente com satisfação o acto do pontifice; viu n’esse acto uma attenção que elle se dignou ter com a familia imperial, que tem muita affeição por sua santidade. O grupo jesuita — ou por outra — o grupo intolerante que cerca o papa, pretende que seja canonizado o fallecido papa Pio IX e para isto estão traçados os primeiros trabalhos! É o que nos falta vêr.
Parte Official
Novo regulamento do real de agua, emendado.
Afim de acompanhar das differentes recebedorias de comarca, para a sede do districto, os dinheiros publicos, chegou, domingo, a Beja uma força de cavallaria n.º 5.
O cofre da bulla da crusada subsidiou com 70$000 reis algumas das egrejas pobres desta diocese.
Hontem houve reunião de familias na sociedade bejense.
Tem 30 dias de licença o sr. juiz de direito da comarca de Moura.
O gado suíno, de alfire, regula por 3$500 rs. cada cabeça.
Nos dias 18, 20, 21 e 24 de fevereiro vão á praça differentes bens nacionaes, neste districto.
Foi concedida a mina de manganês da Juliana, freguezia de Santa Victoria, ao sr. Alonso Gomes.
No primeiro de fevereiro proceder
se-ha á eleição do juiz de paz nos districtos de S. João e S. Thiago.
A carne de porco vendeu
se, no mercado de domingo, por 2$500 rs. cada quinze kilogrammas.
As terras do campo de Ourique teem pouco prado para os gados. O aspecto das searas, é bom.
Foi mudada para Serpa a séde da alfandega de Safára.
Installou
se, domingo, a commissão do recenseamento politico. O secretario e o vice-secretario foram reconduzidos.
Foi nomeado, escrivão do juízo ordinário de Castro Verde, podendo exercer o logar de tabellião, o sr. João Lobo de Castro Pimentel.
Recebemos e agradecemos o decimo quinto Brinde do Diario de Noticias aos seus assignantes.
As terras vão
se ressentindo de falta de agua.
Sahio mais uma caderneta do romance em publicação pela empreza Serões romanticos
Amor e crime.
A Senhora Rattazzi, por Camillo Castello Branco. Recebemos, agradecemos, e muito apreciamos, um folheto assim intitulado, com que o sr. Chardron nos brindou.
A banda do 17 de infanteria tocou, domingo, do meio dia ás duas horas da tarde, no largo Nove de Julho.
Durante o anno de 1878 commetteram
se neste districto 314 crimes.
Ricordo de Milano é o brinde que a empreza Serões Romanticos acaba de distribuir aos seus assignantes. Agradecemos.
Hontem teve revista de correame e armamento o 17 de infanteria.
Falta
nos a Carta do Porto, vae para duas quinzenas.
Acha
se em Beja, gravemente doente o distincto medico de Vianna, o sr. Sousa. Fazemos votos pelo seu restabelecimento.
Succumbio a uma congestão cerebral o honrado recebedor da comarca de Cuba, o sr. Raphael Sobrinho. Á sua familia os nossos sentidos pesamos.
Está a concurso o partido medico de Odemira. Ordenado 360$000 rs.
Correspondencias
Odemira, 26 de janeiro de 1880. Dous sentimentos, e bem oppostos, se apoderaram de nosso espirito, ao lermos o communicado, assignado pelo sr. Joaquim Augusto de Oliveira, e inserto no n.º 995 do Bejense. Um, de dó, compaixão e lastima; de desprezo, tedio e aborrecimento, o outro. Não é ao sr. Oliveira, victima ignobil e insciente, a quem devemos, nem desejamos pedir contas, pelas verrinas contidas em tão notável communicado, não! o sr. Oliveira é um pobre diabo, presumindo muito de si, a quem, na qualidade de particular, respeitamos, porque é desgraçado; de quem temos dó, porque o vemos algemado á infelicidade; e a quem desejamos melhor futuro, do que o passado lhe tem sido. Mas, ao ente ignorado, que, manejando o punhal ás occultas, se acoberta com a individualidade passiva do sr. Oliveira, para, a salvo conducto, nos querer apunhalar, derramando sobre nós as fezes do seu coração; a esse, oh! sim, a esse, havemos de pedir estreitas contas, em occasião opportuna, pelos insultos que nos dirige, insultos que entretanto lhe devolvemos inteiramente. Fique certo, esteja descansado o sr. anonymo, que não se mandam impunemente communicados, para Milfontes, para o sr. Oliveira ali, inscientemente, assignar. Temos de acertar contas, repetimos, e conte desde já com o nosso genio activo e boa vontade. Voltemos, porém, ao sr. Oliveira, visto que elle é — a victima innocente, o bode expiatorio, a lima na mão do obreiro, o braço que executa a vontade da imaginação, — emquanto que o seu factum totum, o seu mentor, dorme tranquillamente o somno da innocencia, embalado pelas vagas encapelladas do oceano, para onde arremeçou o sr. professor sufficientissimo de Villa Nova de Milfontes. Vamos, sr. Oliveira (ministro responsável!) tem então vontade de escrever, não dizemos bem, de mandar escrever, plagiando, a biographia do noticiarista d’Odemira? Nada mais facil. É a biographia de um humilde filho do povo, que á custa de muito trabalho e vigilias, tem sabido e podido elevar-se um pouco acima da esphera em que a natureza o collocou; emquanto que outros teem, não sabemos bem se em orgias, malbaratado fraca herança paterna. Escreva biographias. Mas repare que o humilde filho do povo é honrado. Da sua vida privada, em que só sua consciencia é juiz, contas nenhumas ao sr. Oliveira tem de dar; não receiamos, ainda assim, confronto com a do sr. Oliveira e quejandos. Da sua vida publica, nada ha a recrear. Tem servido d’algumas corporações; tem dado conta plena dos seus actos; e de certo ainda se não alcançou, e em centos de mil reis, com qualquer confraria. O sr. Oliveira percebe perfeitamente... Deixemos o serio, que o serio é de mais para gente da apoucada, da myope intelligencia do sr. Oliveira. Vamos á chalaça. Com que então, sr. Oliveira, aqui á puridade, não copia s. s.ª com a maior precisão, os escriptos que de encommenda lhe enviam?... Não?! Não?! Pois olhe, sr. Oliveira, uma proposta: Ganha 5, 6, ou 8 libras, se em qualquer povoação á sua escolha, perante um jury rascavel, e n’um espaço de 6 horas, o sr. Oliveira se sujeitar, e sahir bem da conjugação de qualquer verbo activo, fazer uma simples operação decimal, e a botar um communicado d’umas 20 a 30 linhas. Quer?... Ha de querer; o sr. Oliveira não é rico, fazem-lhe conta esses vintens, e depois... depois, fica desafrontado, e o noticiarista d’Odemira inteiramente confundido. Acceita, hein?... Consulte o mentor, e diga que sim. Vamos: um cavalheiro não despreza um cartel de desafio, a não ser que o portador d’este seja um plebeu, cujo contacto possa sujar a mão do nobre desafiado. O noticiarista d’Odemira espera ancioso noticia do sr. Oliveira, já que as não póde ter do seu encantado mentor. Em quanto a valentias, sr. Oliveira, olhe lá — não venha buscar lã e vá tosquiado... (Noticiarista d’Odemira.)
Bibliographia
O 1.º volume do Jornal de Viagens, recentemente completado, com mais de 300 paginas de texto e 100 gravuras geographicas e de sensação, algumas das quaes de dupla pagina, isto é as do maior formato que se tem publicado em Portugal, é o brinde mais elegante e de maior utilidade que se póde offertar ás pessoas de bom gosto. Além d’isso o seu preço modestissimo contribue fortemente em abono d’elle. Na redacção do Jornal de Viagens ainda ha alguns exemplares á venda.
Bibliographia
A Moda Illustrada. Publicou-se o numero 26 d’este curiosissimo periodico de familias, que vem muito interessante não só pelos figurinos, mas tambem pelas variadas noticias. A acreditada empreza Horas Romanticas, que o publica, esmera-se na boa redacção e bem assim na escolha dos figurinos, que o tornam igual ás demais publicações do seu genero no estrangeiro. A mesma empreza acaba de distribuir o Almanach illustrado das Horas Romanticas. Este graciosissimo almanach, illustrado com chistosas gravuras, enriquecido com tabellas de boa utilidade pratica, foi este anno collaborado pelos seguintes escriptores: D. Maria Adelaide Pereira Reis, Antonio Vigas, Cunha e Sá, Moura Cabral, Eduardo Garrido, Ferreira da Costa, Guilherme de Azevedo, José Joaquim Vieira, Julio César Machado, Gonçalves Freitas, Séguier, Luiz Augusto Palmeirim, Rangel de Lima, A. Carvalho, Theotonio de Oliveira e Ulpio Veiga. Director litterario, Guilherme Gorjão; desenhador, Manoel de Macedo. O almanach foi distribuído gratuitamente aos assignantes da obra Os Homens da Cruz Vermelha, da qual está concluído o 1.º volume; avulso 120 reis.
Bibliographia
Está publicado o fasciculo 93 do Diccionario de Geographia universal.
Bibliographia
Elementos de histologia geral e histophysiologia. Sob este titulo sahio ha pouco á luz da publicidade um importante trabalho elaborado pelo sr. dr. Eduardo Augusto Motta, lente da 2.ª cadeira da escola medico-cirurgica de Lisboa. O erudito professor dividiu a sua publicação em 8 secções: a primeira é consagrada ao estudo da cellula; a segunda occupa-se da transformação das cellulas em tecidos e da classificação d’estes; a terceira, quarta, quinta e sexta comprehendem o estudo histologico dos differentes tecidos e o da physiologia geral correspondente; a setima trata dos humores e dos principios immediatos em geral, como complemento dos estudos histologicos; e a oitava é um appendice, no qual se assentam as principaes regras relativas ao modo pratico de fazer e observar uma preparação histologica. O sr. dr. Motta demonstra no seu trabalho, que tem sido bem recebido, o quanto sabe corresponder á elevada missão que lhe foi incumbida, e o quanto se esforça, no que lhe é muito louvável, para se collocar ao lado dos mais notáveis vultos da sciencia que professa e na qual tanto se tem distinguido pelos seus admiraveis serviços.
Bibliographia
Maravilhas da Creação. Publicou-se a folha n.º 10, segundo volume. Lisboa. Sebastião J. Baçam.