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Odemira · Vila Nova · Portugal Correspondência

Odemira, 26 de janeiro de 1880. Dous sentimentos, e bem oppostos, se apoderaram de nosso espirito, ao lermos o communicado, assignado pelo sr. Joaquim Augusto de Oliveira, e inserto no n.º 995 do Bejense. Um, de dó, compaixão e lastima; de desprezo, tedio e aborrecimento, o outro. Não é ao sr. Oliveira, victima ignobil e insciente, a quem devemos, nem desejamos pedir contas, pelas verrinas contidas em tão notável communicado, não! o sr. Oliveira é um pobre diabo, presumindo muito de si, a quem, na qualidade de particular, respeitamos, porque é desgraçado; de quem temos dó, porque o vemos algemado á infelicidade; e a quem desejamos melhor futuro, do que o passado lhe tem sido. Mas, ao ente ignorado, que, manejando o punhal ás occultas, se acoberta com a individualidade passiva do sr. Oliveira, para, a salvo conducto, nos querer apunhalar, derramando sobre nós as fezes do seu coração; a esse, oh! sim, a esse, havemos de pedir estreitas contas, em occasião opportuna, pelos insultos que nos dirige, insultos que entretanto lhe devolvemos inteiramente. Fique certo, esteja descansado o sr. anonymo, que não se mandam impunemente communicados, para Milfontes, para o sr. Oliveira ali, inscientemente, assignar. Temos de acertar contas, repetimos, e conte desde já com o nosso genio activo e boa vontade. Voltemos, porém, ao sr. Oliveira, visto que elle é — a victima innocente, o bode expiatorio, a lima na mão do obreiro, o braço que executa a vontade da imaginação, — emquanto que o seu factum totum, o seu mentor, dorme tranquillamente o somno da innocencia, embalado pelas vagas encapelladas do oceano, para onde arremeçou o sr. professor sufficientissimo de Villa Nova de Milfontes. Vamos, sr. Oliveira (ministro responsável!) tem então vontade de escrever, não dizemos bem, de mandar escrever, plagiando, a biographia do noticiarista d’Odemira? Nada mais facil. É a biographia de um humilde filho do povo, que á custa de muito trabalho e vigilias, tem sabido e podido elevar-se um pouco acima da esphera em que a natureza o collocou; emquanto que outros teem, não sabemos bem se em orgias, malbaratado fraca herança paterna. Escreva biographias. Mas repare que o humilde filho do povo é honrado. Da sua vida privada, em que só sua consciencia é juiz, contas nenhumas ao sr. Oliveira tem de dar; não receiamos, ainda assim, confronto com a do sr. Oliveira e quejandos. Da sua vida publica, nada ha a recrear. Tem servido d’algumas corporações; tem dado conta plena dos seus actos; e de certo ainda se não alcançou, e em centos de mil reis, com qualquer confraria. O sr. Oliveira percebe perfeitamente... Deixemos o serio, que o serio é de mais para gente da apoucada, da myope intelligencia do sr. Oliveira. Vamos á chalaça. Com que então, sr. Oliveira, aqui á puridade, não copia s. s.ª com a maior precisão, os escriptos que de encommenda lhe enviam?... Não?! Não?! Pois olhe, sr. Oliveira, uma proposta: Ganha 5, 6, ou 8 libras, se em qualquer povoação á sua escolha, perante um jury rascavel, e n’um espaço de 6 horas, o sr. Oliveira se sujeitar, e sahir bem da conjugação de qualquer verbo activo, fazer uma simples operação decimal, e a botar um communicado d’umas 20 a 30 linhas. Quer?... Ha de querer; o sr. Oliveira não é rico, fazem-lhe conta esses vintens, e depois... depois, fica desafrontado, e o noticiarista d’Odemira inteiramente confundido. Acceita, hein?... Consulte o mentor, e diga que sim. Vamos: um cavalheiro não despreza um cartel de desafio, a não ser que o portador d’este seja um plebeu, cujo contacto possa sujar a mão do nobre desafiado. O noticiarista d’Odemira espera ancioso noticia do sr. Oliveira, já que as não póde ter do seu encantado mentor. Em quanto a valentias, sr. Oliveira, olhe lá — não venha buscar lã e vá tosquiado... (Noticiarista d’Odemira.)