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As folhas de Madrid occupam-se d’um successo importante, que póde ser altamente fatal ao actual ministerio que o sr. Canovas del Castillo conseguiu organisar. Fallamos da colligação dos deputados e senadores contra o governo, colligação que apesar de ser monarchica não deixa comtudo de offerecer importancia. O gabinete é accusado pelos que acceitam a monarchia affonsina de ser pouco activo em remediar os males da nação e de indolente em face da questão de Cuba. A colligação dos monarchistas é, conforme a phrase popular, uma questão de tira-te tu para me pôr eu; e, no entanto, a Hespanha, a infeliz Hespanha, continua sob a acção d’um despotismo feroz que não só a envergonha ante os povos livres, mas que lhe damnifica o commercio, a industria e a agricultura. As noticias recebidas das provincias em Madrid são tristissimas; milhares de familias luctam com a miseria e com a fome; o numero de fabricas fechadas, em resultado da crise de trabalho, é espantoso, e em diversas localidades varias guerrilhas de bandoleiros levam a consternação ao seio das populações e põem em risco a vida dos mais notaveis possuidores de dinheiro. A côrte folga e o povo geme. Esta verdade confirma o antagonismo entre as classes, antagonismo que os verdadeiros democratas procuram extinguir. Deixando porem os assumptos da politica castelhana porque assim nol-o obriga o exiguo espaço de que podemos dispor, e lançando mão das folhas de Londres e de Roma temos de fallar, ainda que resumidamente, não só nos successos de Italia mas tambem dos da Allemanha e da Russia. Conforme se sabe a eleição complementar, a que se procedeu segundo estava estipulado no dia 23 do preterito mez, confirmou a victoria do governo. A lucta foi liberrima e o povo teve occasião para declarar francamente qual a politica, d’entro da orbita monarchica, que mais lhe convinha; a politica progressista-democrata foi, pois, a que triumphou. A abertura do parlamento teve logar no dia 26 e o discurso da corôa diz que espera, graças á iniciativa da Inglaterra e ao accordo das potencias, uma prompta solução para as questões da Grecia e do Montenegro, e declara igualmente que a situação actual é favoravel á paz. Está outra vez na talla da discussão a questão entre o governo allemão e o Vaticano. Sobre este assumpto as folhas italianas e as de Berlim escreveram largamente, sendo para notar que as do partido ultramontano nas duas potencias agridem energicamente o sr. de Bismark por não se submetter ás deliberações da curia, o que nos parece demonstrar que desta vez ainda falhará a tentativa para o restabelecimento das relações entre a Santa Sé e a Allemanha. A questão está no entanto submettida ao reichstag. A Gazeta da Allemanha do Norte inseriu um importante despacho confidencial enviado pelo sr. de Bismark ao embaixador allemão em Vienna. O despacho diz que o chanceller não pensou jamais em admittir a revisão ou abolição das leis de maio, como julgavam os ultramontanos. Um modus vivendi supportavel, baseado na tolerancia reciproca, foi quanto pareceu possivel attingir. Não era isto, conforme a ninguem era dado ignorar, o que o partido ultramontano esperava; d’aqui a guerra encetada contra o chanceller do imperio. Demoremo-nos um pouco neste assumpto que é importante. A situação parlamentar, diz uma folha de Berlim, nunca foi tão grave na Allemanha; os ultimos incidentes politicos são de tal gravidade que não podem ficar no olvido. Bismark depois de ter vendido e ludibriado todos os partidos do parlamento, chegou a ponto de não poder contar com as boas graças de qualquer d’elles. Os nacionaes-liberaes, não tendo conseguido effectuar a conciliação dos seus chefes, voltaram de novo para a opposição, salvo uma pequena fracção que segue a voz do sr. de Bennigsen, e que se tornou impotente desde o momento em que renunciou á fusão com os conservadores, não podendo portanto entrar no campo dos seus antigos amigos. Os conservadores não estão menos descontentes com o principe de Bismark, porque a esperança de se converterem em partido governamental não se realisou. Os clericaes, que durante um breve momento se consideraram indispensaveis á politica reaccionaria de Bismark, encontraram-se n’um estado de indivisivel desillusão, e, estando privados das compensações e premios, a que se julgavam com direito, pelos serviços que prestaram por occasião da discussão das leis financeiras, no anno passado, manifestam altamente o seu arrependimento. Os progressistas, que nunca sustentaram por qualquer preço a politica bismarkiana, ao contrario—quasi sempre a combateram, poucas vezes a louvaram ou a toleraram—receberam n’estes ultimos tempos um reforço consideravel pela eleição ao reichstag do sr. Virchow, seu verdadeiro chefe, que até o presente tinha sido o seu leader unicamente no landtag prussiano. Ainda não é tudo. Ao lado d’esta visivel transformação sempre hostil ao principe de Bismark, acaba de se manifestar um outro facto, que merece ser aquilatado com a maior attenção. Os differentes partidos do reichstag tiveram n’esse facto um pretexto magnifico para dar uma lição muito sensivel ao governo. Tratava-se d’uma provocação mal disfarçada e evidentemente premeditada, que dava ares de preludio para a dissolução, mais ou menos proxima, do parlamento allemão. Desta questão resultou a apresentação d’uma ordem do dia hostil ao principe de Bismark, a qual fôra approvada; conforme era natural declarou-se o dualismo entre o reichstag e o chanceller; Bismark comtudo não cedeu: o parlamento foi encerrado porque o imperador preferiu mais uma vez seguir a politica das aventuras do que obedecer ás praxes constitucionaes. Os factos posteriores a estes successos são bastante conhecidos para que d’elles façamos menção. O conflicto, resultado da excitação dos espiritos, póde comtudo ser origem de mais graves successos. Fallemos agora ácerca dos assumptos politicos na Russia. A questão suscitada entre a Russia e a China continua ainda no campo da discussão e a todo o momento é aguardada a ultima palavra da diplomacia. Segundo as ultimas noticias esperava-se em S. Petersburgo um embaixador chinezo; se ha de fallar com conhecimento de causa do estado actual das relações entre a Russia e o celeste imperio. Até então, é prudente não depositar grande confiança nas noticias de sensação que diariamente nos chegam do estrangeiro. Como facil é de presumir, os russos, preoccupados com esta questão, abandonaram posto que por momentos os principios predicados pelo nihilismo; no entanto o receio entre as auctoridades de que a revolução se manifeste n’uma ou noutra provincia do imperio é grande, e os membros da aristocracia e do militarismo que seguem o partido liberal não cessam de recommendar ao czar as reformas que julgam mais urgentes para desarmar os revolucionarios. O Daily News diz que o general Lorís-Melikoff submetteu ao czar um projecto de duas camaras legislativas. O czar regeitou-o, dizendo que depois da sua morte o principe herdeiro, caso seja proclamado, fará as reformas que são declaradas urgentes. Apezar da obstinação do czar em ceder ao grande principio reformador, o conde Lorís-Melikoff continua a desenvolver grande actividade, e os negocios politicos da sua alçada são manejados por mão habil e forte. Fallaremos mais desenvolvidamente sobre este assumpto.