Acontecimentos na Europa
Na tela da discussão continua de pé a pendencia entre a China e a Russia, discussão agora mais accentuada com novos e importantes successos. O London & China Telegraph publica telegrammas de Pekin confirmando a noticia de terem as tropas chinezas invadido varios territorios russos, e de terem as tropas russas evacuado Katakargan e Samarcand; e corria o boato de que os chinas tomaram o forte Naryn em Semireckensk pertencente aos russos. Os telegrammas parecem demonstrar que a luta entre os dois imperios está infelizmente declarada; não temos por emquanto noticias em contrario e assim vemos confirmada a nossa opinião por vezes manifestada de que a pendencia que tanto tem, e com justa razão, preocupado a diplomacia, só poderá ser resolvida pela força das armas. Vejamos no entanto o que dizem as correspondencias de S. Petersburgo dirigidas ao Times. Todas as tropas que se encontravam estacionadas em Tuchkend foram enviadas para a fronteira da China, e expediram-se reforços do interior da Russia para a fronteira extrema. Os maiores preparativos que o governo do Czar faz são maritimos. Em Kronstadt armaram-se muitos navios com destino á China. Toda a flotilha de navios-torpedos vae sahir para as possessões russas do Amor, de onde poderão ser dirigidos sobre os portos chinos. Em caso de guerra, o designado para commandar a esquadra russa na China parece ser o almirante Chestakoff, marinheiro distinctissimo, que commandou em 1860 a armada russa nas aguas da China, quando o imperador Napoleão mandou ali um corpo expedicionario. Depois de 1862 o almirante commandou como immediato a esquadra de Kronstadt, e por seu caracter independente teve desintelligencias com o ministro da marinha e deixou o serviço, passando em França os annos de exilio, e frequentando circulos onde se tornou muito conhecido e apreciado. Apesar da eminencia de uma guerra entre a China e a Russia, e talvez que a estas horas já se disparassem os primeiros tiros, o governo inglez não pensa em aliviar os chinezes da carnada de opio que os seus negociantes lhes mettem á cara, e que elles devem tomar, custe o que custe. N’uma das sessões da camara dos communs, um membro pronunciou-se contra a continuação do commercio do opio com a China; o marquez de Hartington, sub-secretario d’estado do departamento das colonias, respondeu que o commercio do opio era um elemento de receita para as Indias e que o momento não era o mais bem escolhido para tentar experiencias sobre as receitas indianas. O mercantilismo inglez domina sempre nos conselhos de guerra; e os chinezes, se tiverem de travar peleja com a Russia, não devem contar senão com os proprios chineses. A questão, conforme se vê, é analysada por uma fórma bem caracteristica em relação ao papel que a Grã-Bretanha está desempenhando. Deixemos porém este assumpto por hoje, e, pondo igualmente de parte, em consequencia da falta de espaço, a questão, aliás importante, das fronteiras da Grecia, de que nos occuparemos no proximo numero, vamos dar, posto que resumidamente, noticia dos ultimos successos tambem importantissimos, de que nos falla a ultima mala chegada aos portos da Europa. Os ultimos numeros do Correio Hespanhol de Buenos-Ayres noticiam a eminente catastrophe: o exercito avança sobre a capital da republica, amontoando aos muros todos os apetrechos de guerra, não para assassinar a liberdade e a soberania, como o pretende o jesuitismo, mas contra o mais respeitavel e digno do paiz. Por toda a parte o grito de As armas? A patria argentina, dizia tambem á ultima hora: “Soprae, ventos do passado, para que se não ouça o rumor da onda que avança silenciosa, e onde se intenta perpetrar o ultimo crime contra a liberdade. O presidente da republica é, e deve ser de futuro, o prisioneiro de Buenos-Ayres.” Esta attitude explica-se pela mudança de residencia do poder nacional para Belgrano. O presidente Avellaneda abandonou a capital ao sentir os primeiros ensaios da revolução, fugindo para o porto de Blanca, perto do rio Colorado. A força principal do governo acha-se em Rosario, ao norte de Buenos-Ayres, e o general Roca, candidato official á presidencia, contra Avellaneda, cujos poderes breve se extinguirão, calcula pôr em pé de guerra 30:000 homens, contando com a esquadra. A revolução dispõe em troca das guardas nacionaes e da defeza da capital. A causa da guerra civil é a luta dos dois candidatos á presidencia: o general Roca e o dr. Tejedor. Roca tem o apoio dos doze estados da republica, que se ligaram, e Tejedor é protegido pela região de Entre-Rios. Com relação aos principios politicos, as duas facções pretendem representar a liberdade e o direito. Se a guerra tomar proporções, não será difficil ver dentro em breve completamente desmembrada a republica argentina. Ácerca d’estes successos aguardam-se com impaciencia novas noticias. Seguiremos o assumpto com a maxima imparcialidade.