Acontecimentos na Europa
Promettemos no preterito numero apresentar o texto da nota enviada á Turquia e á Grecia pelas potencias signatarias do tratado de Berlim, mas antes de darmos cumprimento á nossa promessa seja-nos concedida a permissão de fallar em primeiro logar dos successos de França. As eleições para conselheiros geraes deram, conforme se esperava, nova e assignalada victoria aos republicanos; a derrota dos conservadores e clericaes foi monumental; os republicanos obtiveram mais de duzentos e quarenta logares de conselheiros geraes, facto importante e que demonstra por uma fórma bem clara que a França, não obstante os esforços do ultramontanismo para a perderem, está firme no seu posto de honra para sustentar a liberdade, o progresso e a republica, unica fórma de governo que a salvou da horrivel desgraça que lhe preparou o imperio. Os conservadores, de mãos dadas com os ultramontanos, tinham todas as esperanças na lucta eleitoral; os seus trabalhos eram formidaveis; a urna, porém, declarou-se-lhes adversa, e os inimigos da liberdade tiveram de curvar a cerviz e de se confessarem vencidos. Gloria á republica franceza! Na Republique Française e noutras diversas folhas de Paris encontrámos dois importantes documentos, referimo-nos ás mensagens que os centros republicano federal e republicano democratico de Lisboa enviaram á municipalidade da grande capital e á imprensa, por occasião dos festejos em commemoração da tomada da Bastilha. Damos um dos documentos, a mensagem dos republicanos moderados de Lisboa, e sentimos que o espaço nos inhiba de transcrever o segundo documento. Durante a semana passada reuniu-se em Paris um congresso regional de operarios, ao qual a imprensa republicana não deu grande attenção e cujas doutrinas só duas ou tres folhas acceitam; a imprensa reaccionaria fez, a seu gosto, grande espalhafato com as theorias que no congresso se expozeram. A reunião intitulou-se Congresso regional de operarios revolucionarios collectivistas. A reunião compõe-se naturalmente de maioria e minoria, e esta, que é pouco numerosa, sustenta o programma do delegado do Havre, que publicam com satisfação algumas folhas republicanas, pois não contem proposições revolucionarias, mas manifesta a firme esperança de que a evolução ascendente do actual proletariado se verificará a favor das instituições republicanas. O programma da maioria é muito differente, porque é resolutamente revolucionario e comprehende que o seu ideal só é realisavel pela força. Este ideal é uma sociedade fundada sobre o principio do collectivismo, isto é, da communidade fraccionada. O facto dos reaccionarios se encommendaram com as reuniões dos collectivistas é bastante significativo. Passando porém dos assumptos da politica interna de França para a questão oriental, somos obrigados a dizer que as negociações travadas entre a Turquia e a Grecia para a rectificação das suas fronteiras não tendo dado resultados alguns, os plenipotenciarios das potencias chamados pelas provisões do acto de 13 de julho de 1878 a exercer a mediação entre os dois Estados reuniram-se em conferencia em Berlim e adoptaram por unanimidade o traçado seguinte: a fronteira seguirá o thalweg do Kalamas, desde a embocadura d’este rio no mar Jonio até á sua nascente, nas vizinhanças de Han Kalabaki, depois as cumeadas dos montes que formam a linha de separação entre as bacias: ao norte da Wouitz, de Halikmon e do Mavroneri e seus tributarios; ao sul, do Kalamas, da Arta e Aspropotamos e do Salambryas, para ir terminar no Olympo, de onde seguirá as alturas até á sua extremidade oriental sobre o mar Egeu. Esta linha deixa ao sul o lago de Janina e todos os seus affluentes, assim como Metzowo, que ficarão pertencendo á Grecia. Conquanto o sultão, mal aconselhado pelos softas, haja declarado que recusa satisfazer aos desejos das potencias signatarias do tratado, os embaixadores, e mui principalmente os embaixadores da França, Inglaterra e Italia, empregam ainda os maximos esforços para resolverem a Sublime Porta a acceitar as decisões da conferencia. Vamos finalisar por hoje este nosso trabalho com a importante noticia dos graves successos em Marrocos. Conforme é sabido, rebentou ha tempo uma sublevação entre as tribus montanhezas fronteiras d’Alcazar, contra o sultão de Marrocos. As hostes imperiaes acaudilhadas pelo pachá de Laracha teem sido por vezes derrotadas, tendo que refugiar-se em Alcacer Kibir, cuja população estava muito consternada á data das ultimas noticias, pois os montanhezes vencedores tratavam de forçar a entrada da cidade a ferro e fogo. Os sublevados estavam a menos de uma hora de distancia e em negociações com os mouros da planura, cuja tribu defende o ingresso da cidade. Talvez alcancem com ameaças o que não consigam com razões. As cabylas revoltosas acclamarão por unico chefe um pastor chamado Buemba, joven de muita energia, cujo nome infunde terror ás tropas inimigas. De Fez esperavam-se reforços, mas n’esta capital tambem se temia sublevação, á qual se attribuia a não chegada dos reforços, e, por tanto, a situação do imperio era gravissima, que continua ameaçado d’um movimento popular contra a tyrannia do sultão que é peior do que a dos seus antecessores. Os mouros mais illustrados e prudentes, conhecidos pela reserva das suas opiniões, começam a censurar altamente o governo e a maldizer o sultão. Como remate d’estas noticias, devemos dizer que fugiram das prisões todos os prisioneiros que estavam em Wazen, cidade proxima de Alcacer e residencia do grande xerife, tendo sido mortos, pelos evadidos, os guardas que os custodiavam.