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Beja 12 de novembro

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Beja · Coimbra · Faro · Lisboa · Moura · Porto · Portugal Correspondência · Governo Civil · Hospital · Interpretacção incerta

Reuniram os onze da ordem, e desta vez foram uns verdadeiros doutores sangrados. Aquelle famoso typo que todos temos admirado no Gil Braz de Santilhana, encarnou-se na maioria dos nossos bons procuradores. Vão lendo e admirando. Levantou-se um e disse que as latrinas do governo civil lhe não passavam do nó da guella; se haviam de bater-lhe nas costas, abriram a lanceta e zás, sangria na bolsa publica para passar o engasgo ao homem! Mandaram fazer novas latrinas. Vae depois outro começa a dizer que o grand salon de hiver não estava decente, que a casa reclamava reposteiros, bambinellas, lustres etc. etc. Sim? Pois demos-lhe reposteiros, bambinellas e lustres, acodem em côro os bons dos procuradores e isto, já se sabe, á custa do publico. Segunda sangria. Um terceiro achou que o engenheiro districtal não podia prover á sua decente sustentação com menos de 800$000 reis por anno, e que o conductor precisava de uns trezentos e tantos. — Mas a engenheria districtal tem, por lei, um quadro, os ordenados tambem estão n’ella marcados; disse á boca pequena o sr. dr. Machado. — A junta é suprema, grita a turba. Ita volumus per nos... Que se deem os 800$000 reis ao engenheiro, e os trezentos e tantos ao amanuense. — Bom, diz um outro todo satisfeito, para viver já os homens teem, mas o que é verdade é que trabalho não lhes falta e deve, no mau entender, diminuir-se-lhes. — Apoiado, apoiado, berra a turba ignara. Do pão do nosso compadre grossa fatia ao afilhado. Criemos mais um logar de conductor, e a quem doer que se torça. E o logar foi creado, e terceira e quarta sangria foi dada na bolsa publica. — Mas senhores venham cá, diz um da suprema, os senhores procuradores vão ter um bom e luxuoso salão, os engenheiros e conductores melhor ordenado e menos trabalho, um nosso collega está desengasgado, mas nós tambem queremos alguma coisa: queremos os condemnados gabinetes da repartição de obras publicas, aquellas casinhotas infectas tornadas confortaveis e dignas da nossa prosapia. — Que se decorem e mobilem. E ao povo applicaram ainda mais uma sangria — a quinta — os seus bons procuradores! Era porem preciso attenuar o mau effeito destas cousas, e que fizeram então os procuradores? Votaram um subsidio de 300$000 rs. para o hospital de Beja! Se nos perguntarem se applaudimos a esmola dizemos que não; mas se nos perguntarem se gostámos que o subsidio fosse votado pela junta actual, dizemos que sim e sabem porque? Porque vimos o sr. dr. Machado, que poz em duvida uns dados estatisticos que, na passada sessão, um procurador lhe offereceu, vir confessar a veracidade e exactidão desses dados, porque vimos o sr. Castro e Lemos engulir o seu famoso discurso, o sr. Metello os seus propositos, e o sr. dr. Menezes caçoar d’aquella tropa, porque, no fim de contas, elle e o sr. Henrique Fonseca triumpharam. E nada mais fizeram os snrs. procuradores? Ah! é verdade; a suprema votou louvores a si propria e distribuiu-se a quota para as despezas do districto. Bem podem pois as camaras preparar-se para entregar a tão altos senhores o melhor de suas rendas, o suor dos seus municipes. Lê-se no Districto de Vizeu: «Accusam o governo em primeiro logar do exagero das propinas que chamam vexatorias e cuidam que é do regulamento a taxa que foi votada em cortes. Não, srs. sabios! O regulamento não poderia alterar o preço das propinas porque a lei de 14 de junho o fixou. E quando essa lei foi discutida, nenhum membro da opposição orou em favor da bolsa do contribuinte. Todos acharam regular o imposto e ninguem o combateu.» E para se sahir com isto ruminou vinte e sete dias o bom do Districto de Vizeu!! Ora não ha!... Lê-se no Diario de Portugal: «Dizem de Faro que o numero de matriculas abertas este anno no lyceu d’aquella cidade é inferior ao do anno passado.» Ora toma lá pinhões Districto de Vizeu. Vae o Districto de Vizeu ouvir ainda mais alguns collegas sobre as propinas. O tempo vae frio, é verdade, mas nós é que não prescindimos de que a tosquia seja rente, bem rente. Tem a palavra o Correio do Norte: «... a reforma da instrucção secundaria que passa a ser vendida pelo estado a peso de ouro, leva a tristeza ao seio de todas as familias que teem filhos para educar. Dentro de poucos annos, a permanecer de pé a reforma, o nivel intellectual do paiz terá descido de um modo espantoso, porque poucos serão os portuguezes que possam ter uma instrucção regular. Só os ricos, só os opulentos.» Agora oiça a Correspondencia da Figueira: «Nem sabemos se lastimar mais a imbecilidade que presidiu a similhante reforma, se a ingratidão do governo para com o seu dilecto povo, que ha de ficar analphabeto por falta de meios, e que é mister que seja estupido e selvagem para não comprehender a importancia e a força que tem.» O Constituinte diz: «Aproveitar a reforma da instrucção secundaria para fazer pezar sobre o contribuinte um novo vexame fiscal, é realmente um pensamento deploravel, e que merece o mais severo castigo. E’ verdade que, segundo parece, o Progresso já disse terminantemente que a instrucção secundaria não era para os pobres. Assim o referiu o Diario de Noticias nos seus Echos dos jornaes e não nos consta que o Progresso proteste contra esta interpretação das doutrinas de um artigo que não vimos. Assim a instrucção secundaria não é para os pobres! Eis o lemna profundamente democratico que o regulamento assignado pelo sr. José Luciano de Castro, o regulamento dos 15 dias por semana, inscreve na sua bandeira.» No Diario do Lisboa deparámos com o seguinte, sob a epigraphe fornada: «O sr. visconde das Altas Moras, que tem de receber em Moura, com foguetes e vivorio, o infeliz Ulysses dos errores do Porto, de Coimbra e da Figueira da Foz, indemnisando-o pela testa que lhe prepara dos desgostos e fiascos, foi convidado pelo sr. Saraiva a acceitar os arminhos de par, na proxima fornada.» Aqui ha coisa de mais ou coisa de menos. O tempo o mostrará. Mas serio, serio, a fornada faz-se?