Pedem
nos a publicação do seguinte: Discurso, do sr. Mattos, proferido no Sarau Litterario, no dia 1.º de dezembro: Corria o anno de 1139. Por este tempo já n’um pequeno condado, que mais tarde havia de ser um povo d’heroes, se manifestavam idéas d’independencia, ainda que fracas e timidas. Porém, com o alvorecer do dia 25 de julho, do já mencionado anno de 1139, raiava segundo alguns historiadores, a aurora d’uma nacionalidade; surgia no solo, que outr’ora fora dos Viriatos, Apimanos e Sertorios, um povo pacifico, que havia de levar as armas da conquista ás plagas africanas, ás regiões além dos Ganges. Sim, surgia um povo bellicoso; porque, conjuntamente surgiam genios guerreiros, como os de Affonso Henriques; vassallos d’abnegação, como Egas Moniz. E, acalentado por estes vultos, que te consagravam um amor sem meta, esse amor, que os portuguezes d’outr’ora consagravam á patria, não podias morrer, oh povo bellicoso; eras invencivel, porque teus filhos, unificando-se nas idéas, nas aspirações, anciavam horizontes dilatados, que podessem consolidar a sua grande obra—a d’uma nacionalidade. Se não fosse este amor patrio, este amor ardente, que germinava em peitos portuguezes, como é que Ourique seria ainda hoje uma vaga recordação, do que foste ao nascer, oh athleta, oh gigante do passado?!... Como é que Sallado, Aljubarrota e Valverde se teriam vinculado na tua historia, tão fecunda em feitos valerosos?! Ou estes factos se haviam registar, ou a tua existencia havia de ser ephemera; e então não tinhas historia. Mas não; tinhas d’ir mais longe ainda; por isso avassallaste os mares tenebrosos, assim chamados pela lenda. Senhores, quando a providencia quer formar grandes estados, grandes imperios, dá-lhes legisladores, como Lycurgo; oradores, politicos, capitães, como Pericles; conquistadores, como Phelipe da Macedonia e seu filho Alexandre Magno; dá-lhes finalmente Julios Cesares, como deu a Roma. Como a apparicção d’estes grandes homens é condição essencial para formar e tornar florescente qualquer estado, Portugal tambem sem ella não podia nascer, Portugal sem ella não podia attingir ao seu bem alto grão d’explendor; por isso teve Diniz, o rei amante e protector das lettras, Affonso 4.º, o vencedor de Sallado; por isso, quando essa mulher impudica, que tão fatal nos ia sendo; essa mulher indignamente estremecida pelo 9.º rei da 1.ª dynastia, nos atirava ás garras do leão de Castella, não lhe faltou um Mestre d’Aviz, para dar a seu nome um realce imponente e talvez immortal. Portugal tem desempenhado entre as nações europeas e na evolução social um papel importante. Chegou o seu arrojo a fazer partilha dos mares com a nação visinha. Seria isto devido á sua fraqueza? Não. Era devido ao seu esplendor. Se Portugal fazia partilha dos mares com a nação visinha, é porque n’aquella epocha fora a nação, que mais desenvolvera a arte nautica; é porque, dispondo de meios fornecidos pela mesma arte, fôra a 1.ª potencia, que sulcára mares, nunca d’antes navegados. E quem te havia dizer, que, nascendo pobre e pequeno, como Roma, e alargando-te como ella de conquista em conquista, havias, depois d’envolto n’um manto aureo de felicidade, cahir do apogeu das tuas glorias, talvez immorredouras? E’ este o fatal destino dos povos; porque teem, á semelhança do homem, seu nascer, sua juventude, e no ultimo quartel da vida, sua morte, seu derradeiro alento, sua derradeira agonia! A tua vida foi, desde o raiar da tua nacionalidade, até á malfadada expedição de Tanger, uma serie não interrompida de victorias. Este facto lastimoso, que veio empanar a gloria da tua phalange d’intrepidos guerreiros, era já preludio da tua decadencia; era já o primeiro symptoma da doença, que te corroia até á medulla; era já o verdadeiro inicio do drama tragico, em que havias dar o ultimo suspiro, o ultimo soluçar de moribundo!!... Oh drama tragico, oh drama d’horror, como no teu inicio se menoscabava a gloria das armas portuguesas; como no teu inicio o mouro cuspia affrontas para um reino refulgente; como no teu inicio ainda não bastava isto!... Cumpria, que a alma candida d’um infante, d’um martyr, expiasse nos horrores d’um carcere as imprudencias da patria. Todavia, não foi ainda o facto desastroso de Tanger uma barreira, que se oppôz á intrepidez d’uma nação cheia d’iniciativa, d’uma nação emprehendedora. (Continua).