Acontecimentos na Europa
As noticias que encontramos nas folhas parisienses com respeito á politica interna de França são altamente importantes, mas, como n’esta secção temos de tratar dos successos que mais preoccupam o mundo politico europeu, vamos, para interesse dos leitores, consubstancial-as, sentindo porem que não possamos analysal-as miudamente conforme era nosso desejo. O partido bonapartista tende a dissolver-se. No seio de suas fileiras lavra a mais espantosa anarchia e dois dos seus mais importantes membros M. M. Duval e Michel acabam de se separar. O primeiro filiou-se no partido legitimista e o segundo no centro direito do duque de Broglie. Este vem corroborar plenamente a nossa affirmativa de que a restauração do imperio em França é um impossivel. A França deixou de ser monarchica e imperialista para ser republicana. Nos circulos politicos da Europa causaram favoravel impressão as declarações feitas no senado pelo ministro dos negocios estrangeiros, sr. Barthelemy Saint-Hilaire, respondendo á interpellação dos senadores duque de Broglie e Gontaut-Biron, interpellação que não derramara toda a luz que as direitas da camara desejavam, ácerca do procedimento preterito e futuro do gabinete Ferry na politica exterior. Algumas folhas, entre ellas Le Rappel, censuram a politica do gabinete accusando-a de parcialissima, demonstrando ao mesmo tempo que se receia dos partidos avançados. “Art. 11.º De hoje em diante a educação religiosa não formará parte das materias obrigatórias do ensino primario. A instrucção religiosa será ministrada fóra das horas de ensino aos alumnos das escolas publicas, pelos ministros dos differentes cultos, conforme as familias desejem. O conselho departamental poderá, conforme a opinião dos conselheiros municipaes, auctorisar os ministros do culto que queiram ministrar a instrucção religiosa nos locaes das escolas. Fica revogado o disposto nos art. 18 e 45 da lei de 15 de março de 1850 relativos ao direito d’inspecção dos ministros dos cultos.” Posta á votação a urgencia da sua discussão, o sr. Paulo Bert declarou-se a favor d’ella, e o bispo d’Angers combateu-a. A urgencia da discussão foi votada. Paulo Bert tomou a palavra, sustentando e resumindo as origens do citado projecto de lei. Entre outras affirmativas, disse que a liberdade religiosa não está de modo algum ameaçada. Estes assumptos prendem muito a attenção e mostram a grande força de vida politica em França. As noticias da Irlanda, conforme os telegrammas de Dublin e as correspondencias enviadas ás folhas de Londres, continuam a prender a attenção publica. Ao mesmo passo que o governo toma todas as medidas preventivas, o movimento de resistencia accentua-se, de hora a hora, e faz prever serias difficuldades. Os meetings multiplicam-se, e os agitadores aconselham aos rendeiros que não paguem, emquanto as rendas não forem reduzidas a uma certa cifra, em verdade tão mesquinha que os proprietarios não podem acceitar por forma alguma. Os habitantes das cidades vão seguindo o exemplo das povoações ruraes. Em Castlebar teve logar um grande meeting para resolver os senhorios a reduzirem as rendas das casas: os inquilinos negam-se ao pagamento, ou offerecem uma renda que elles proprios arbitram. Além da liga agraria, que tem agitado o paiz, falla-se de uma outra liga, a liga dos consumidores, que tem por fim não pagar os generos alimenticios senão por um preço determinado, muito inferior ao preço corrente nos mercados. Parece que o governo britannico está resolvido a convocar o parlamento antes da epocha ordinaria; seria para desejar que as camaras preterissem a questão irlandeza á questão hellenica, porque aquella é de urgencia indeclinavel. Do Oriente as noticias são muito importantes. Um jornal de Constantinopla, o Vakit, dá-nos curiosas informações relativamente a um projecto d’alliança, que seria uma especie de sonho dourado, ha muito tempo, dos homens politicos de Constantinopla e de Washington. Não temos pela noticia da folha turca grande fé, mas entendemos que, a titulo de informação, devemos pôr os leitores ao corrente d’esse projecto, que por ser n’este momento simples utopia, não deixa de indicar uma forte tendencia dos Estados-Unidos para crear na Europa novas e importantes relações commerciaes. Esta alliança teria por alvo ferir a Inglaterra. A alliança dos Estados-Unidos com a Turquia permittiria á grande republica americana firmar pé em terra europea, e é claro, para todos que conhecem o antagonismo e animosidade que existem entre a America e a Inglaterra, que essa alliança teria desastrosas consequencias para esta ultima potencia. Os jornaes inglezes impressionaram-se muitissimo com a linguagem da imprensa ottomana ácerca d’este assumpto; e a substituição do presidente Hayes pelo general Garfield nas ultimas eleições presidenciaes não é de molde para serenar essas más impressões e apprehensões. Censurou-se ao sr. Hayes não ter trabalhado sufficientemente na destruição da influencia ingleza nas quatro partes do mundo. Ao contrario, o general Garfield está inteiramente disposto a trabalhar n’esse sentido e já por diversas vezes se declarou amigo da Turquia. Além d’elle, o sr. Arthur, novo vice-presidente dos Estados-Unidos, visitou a Turquia ha sete ou oito annos, demorando-se no paiz cerca de um anno. Portanto o terreno está preparado e certo é que, se a republica americana espera grandes vantagens d’uma alliança com a Turquia, esta por sua parte póde esperar muito da sua approximação á America. Seria para ella a rehabilitação e uma garantia seria da sua manutenção na Europa. Conta-se em Constantinopla, que o primeiro acto do novo presidente dos Estados-Unidos será enviar ao sultão uma declaração amigavel e ao mesmo tempo um projecto d’alliança com a America. Se este acontecimento vier a produzir-se, é naturalissimo que a Turquia acceite com o maior desvanecimento as propostas do governo de Washington, e veremos então a politica europea passar por transformação radical.