Acontecimentos na Europa
As noticias de Madrid continuam a ser deploraveis. A restauração monarchica, preparada pelos conservadores, tem arrastado a infeliz nação ao ultimo ponto de degradação. Em todas as provincias ainda mesmo as mais importantes pelo seu commercio e industria, é espantosa a miseria em consequencia da paralisação dos trabalhos. Dezenas de fabricas teem fechado as suas portas e milhares de operarios luctam com o horroroso castigo da desgraça e da fome. Sobre a imprensa continua a pezar o mais atroz despotismo que unicamente agrada a Cánovas del Castillo e aos affonsinos de pur sang que hoje colligados aos jesuitas e aos reaccionarios de todas as matizes pensam unicamente em affrontar a liberdade e portanto em destruir todas as conquistas da gloriosa revolução de 1868. Numerosas greves teem tido logar, consequencia logica do actual estado de cousas. Nas provincias vascongadas observa-se grande agitação nos espiritos, o que tem obrigado o governo a reforçar as guarnições das praças. O jesuitismo, auxiliado pelo apoio que encontra no governo, continua a estabelecer collegios de educação nos quaes bestialisam o povo, ensinando-se-lhe doutrinas falsas e absurdas. Pode-se dizer que a Hespanha está expiando o seu crime em não ter sabido defender a liberdade quando os generaes traidores á republica a atraiçoaram em Sagunto. As folhas de Paris occupam-se agora muito ácerca da questão do Tunis que veio dar um bom contingente á politica europea, e, ao que parece, Tunis, caso a diplomacia não possa desvanecer as impressões e regularisar os assumptos importantes, será para a Europa uma questão não menos importante que a do Oriente. As folhas de Londres tractam da questão do Transwal com a maior seriedade, prova cabal da importancia da revolução. Em Londres aguardam-se noticias ainda mais graves, pois sabe-se que a revolução augmenta espantosamente. Parte da imprensa que mais se tem occupado da questão do Oriente falla agora e com muito interesse da posição cada vez mais vantajosa que o exercito russo vae adquirindo na Asia central, pela sua constancia, pela sua disciplina e pela sua força numerica, incommodando muito a Inglaterra, porque vê compromettida a politica geral do imperio anglo-indio. Assim a imprensa procura desfigurar os factos aos olhos dos inglezes, já muito preoccupados com os successos da India, como claramente o mostram as discussões ácerca do abandono de Candahar, espalhando noticias desfavoraveis aos russos. Os ultimos jornaes inglezes affirmam que os russos foram derrotados pelos tekkes em recentes combates. Esta noticia não sabemos até que ponto seja exacta; duvidamos d’ella pelas razões que deixamos expendidas, porque a vemos negada em um despacho de S. Petersburgo, datado de 12, que diz assim: «Contra as asserções dos periodicos inglezes, o encarniçado combate, dado ultimamente contra os tekkes, o general Skobeleff é senhor de todas as obras avançadas do inimigo.» Esta questão é demasiada monta conhecida e por este facto nos abstemos d’outras informações. Fóra d’estes assumptos a imprensa trata da questão hellenica cada vez mais complicada, e bem assim d’outros factos, posto que de importancia secundaria, mas nos quaes as attenções se fixam attentamente. Consubstanciaremos todas as noticias e fallaremos opportunamente com mais vagar.