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Artigo

Barrancos

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Barrancos · Beja · Moura · Portugal Câmara Municipal · Hospital · Igreja · Interpretacção incerta

Barrancos e seu estado de abandono—A trinta kilometros pouco mais ou menos de Safara, e a 50 de Moura, encontra-se a villa de Barrancos, pertencente ao concelho do mesmo nome, districto de Beja, tendo apenas uma freguezia com 632 fogos, e 2:390 almas. Segundo dizem os antigos, foram os habitantes d’aquella villa que em 1820 deram o primeiro grito de liberdade em Portugal; mas infelizmente de nada lhes valeu tão grande coragem, porque além de terem sido castigados pelo absolutismo d’aquelle tempo, foram, e ainda são hoje olvidados dos poderes publicos. Não ha n’aquelle concelho um unico melhoramento, as vias de communicação são pessimas, e é por serras e valles que se tem de andar para se ir a este, ou aquelle ponto; acontecendo muitas vezes no inverno, ficar-se incommunicavel por alguns dias, em consequencia das enchentes nas ribeiras, e com especialidade a do Mortigão, que dista da villa uns dezoito kilometros. As ruas da villa, quasi todas em plano inclinado, estão pessimamente calçadas. De dia é preciso muita cautella no andar por ellas, para se não soffrer o desgosto d’uma perna quebrada, ou pelo menos a torcedura d’um pé. De noite, os proprios praticos, teem que se munirem de lanternas, para chegarem ao seu destino a salvamento. N’um ponto elevado da villa, está collocado o cemiterio, que é muito pequeno, e sem condições algumas de aceio. Ha alli um costume extravagante, e de grande risco para a saude publica. Quando fallece alguma pessoa com meios de fortuna, pede antes de morrer para ser depositado em um jazigo, que é construído sobre o solo, e tendo o leito d’uma tumba, feita de lages ou tijolos, e á proporção que vae augmentando o numero de mortos, vão-se formando jazigos sobre jazigos. Hoje tem o cemiterio já tres ordens d’esses depositos mortuarios, os quaes pela construcção, e pelas fendas que teem, os corpos exalam um cheiro horrivel. A egreja matriz, está edificada n’uma praça e defronte das repartições publicas. Este templo de medonha apparencia, que em 1876, já o administrador do concelho, Lobo Pimentel, dissera officialmente, que mais parecia um armazem de negociante fallido do que uma egreja; não tem d’então para cá um simples concerto, sendo certo porém, que continuando assim, aos breve deixará de existir. Nota-se tambem que o numero de fieis que quotidianamente vão ouvir os officios divinos é assaz limitado, dando talvez causa a isso as condições do templo, receiando os fieis serem victimas d’um desabamento. As repartições publicas estão dispostas da seguinte maneira. N’um primeiro andar ha duas casas, uma que é a moradia do carcereiro, e outra que serve de secretaria e sala de sessões da camara municipal. O tecto d’esta está em misero estado de ruina, e em grande risco de um dia abater. A mobilia que ornamenta aquella sala, é composta de tres cadeirões de páo, alguns bancos, e duas mesas. Nas lojas está a administração do concelho, a repartição de fazenda, e junto a esta a cadeia, que é lageada, com tecto tambem de lage, não tendo nenhuma tarimba onde os presos se possam deitar. Pois n’aquelle recinto estão armadas 26 camas de ferro, juntas umas ás outras, com enxergões rotos e immundos. Os soldados comem o rancho em cima das camas, pela falta d’uma mesa. Por esta casa paga a delegação d’infanteria legal 453000 reis annuaes. A casa que serve de escola d’instrucção primaria, na qual têm aula 47 alumnos, é um sotão abuhardillado, com o tecto em risco de algum dia sepultar alguns innocentes victimas. A escola das meninas, é no pavimento térreo da mesma casa, está em melhores condições, isto é mais aceiada, e tem tecto de abobadilha; as alumnas matriculadas são 57. Pelo ultimo orçamento da camara, consta que a renda annual da casa das escolas é de 673000 reis, e que a mesma camara subsidia a professora com 60305 reis, e o professor com 500300 reis annuaes. A população, segundo o movimento parochial do anno findo, augmentou: os nascimentos foram 78, os casamentos 41, e os obitos 99. E’ verdade porem que no orçamento municipal ha a verba de 1206000 reis para material do ensino, quantia insignificante para haver um aproveitamento real. A casa do professor, que pela renda do seu ordenado se vê, anda mal da comida, está sem agua, e o poço da rua da Esperança, para onde vão as mulheres e as crianças levar agua, é um perigo para quem ali passa. A casa que serve de hospital é pequena, sem condições de aceio, e sem um medico permanente. Não ha tabellião, nem agente do ministerio publico, e quem deseja reconhecer uma assignatura, ou comprar um sello ou um vale do correio, tem de se dirigir a Moura, com grande transtorno. O povo de Barrancos, comtudo, não é rebelde no pagamento de tributos, antes se torna notavel em não dever um só recruta. Sendo o concelho de Barrancos composto de uma só freguezia, e tendo em cofre dinheiro de viação, fora de esperar que fosse empregado em melhoramentos da villa, que tanto carece e tanto ambiciona aquelle povo esquecido. Ferreira 11 de junho de 1881. A. C. Sampaio.