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No penultimo numero do nosso modesto Bejense dissemos ao finalisar o artigo que elaboramos relativo á importante questão do iberismo, novamente suscitada n’uma entrevista em Caceres, que opportunamente tornaríamos a fallar do assumpto, e, no cumprimento da nossa promessa, seja-nos primeiro que tudo permittido dizer que estranhamos que os principaes pontos da questão não tivessem sido contestados pela imprensa ministerial o que nos leva a crer que nem todos os boatos propalados álem das fronteiras e mui principalmente accentuados nas folhas de Madrid não sejam destituidos de fundamento. Assim, pois, vemos que ficam de pé as allegações das folhas conservadoras de Madrid e de Paris de que na entrevista de Caceres alem da projectada liga aduaneira, primeiro passo para se chegar á politica da federação hispano-portugueza, se tratou do casamento do principe D. Carlos, herdeiro da corôa portugueza, segundo as leis monarchicas, com a princeza Maria de la Paz, filha de D. Izabel de Bourbon. Vamos, pois, proseguir nas considerações que esta importantissima questão nos suggere. A tentativa d’um enlace matrimonial entre os principes das duas casas reinantes da peninsula iberica não é de moderna data; a historia apresenta-nos muitas d’essas tentativas, algumas das quaes chegaram a ser transformadas em factos e em realidades. Modernamente e mui principalmente nos nossos dias os trabalhos para que as duas corôas possam cingir uma só cabeça, vivente esperança dos que suspiram por uma federação monarchica na peninsula ou pela constituição d’um imperio iberico, tem tomado incremento, e por este facto não nos devemos admirar que na entrevista em Caceres se pensasse no enlace matrimonial que tanta celeuma com justissima rasão tem levantado no nosso paiz quando por certo poucos individuos haverá que se tenham esquecido de quanto entre uma parte da nossa aristocracia se forjou para que se realisasse o casamento de D. Pedro V com a princeza D. Maria Izabel Francisca d’Assis, filha de D. Izabel de Bourbon, trabalhos que se frustraram pela recusa d’esse principe. Além d’isto haja vista aos trabalhos do finado Fernandes de los Rios que, appoiado por muitos fidalgos portuguezes dos quaes alguns ainda são vivos, pretendem convencer el-rei D. Fernando a acceitar a corôa de Castella, após a revolução de Cadiz de 1868, para que no futuro a união de Portugal á Hespanha pudesse ser uma realidade. Os que pensam na possibilidade da constituição do imperio iberico, os que teem sido denominados pela ambição de poderem um dia ditar a lei n’uma potencia que seria grande em territorio e em população, esquecem por certo que acima de tudo, acima dos seus interesses pessoaes, acima das suas ambições, está uma grande questão—a questão de nacionalidades—e que esta jamais se domina e se destroe. Demonstrámos em o numero 1:088 do Bejense os perigos que resultariam a Portugal se a politica da federação hispano-portugueza podesse um dia triumphar. Entremos agora na questão das nacionalidades, questão importante que nos corrobora o que então avançámos. Na Europa, e como muito bem diz um distincto publicista nosso compatriota, ainda não houve uma guerra, um grande conflicto internacional, uma reunião ou separação de estados, uma remodelação ou desmembramento depois das guerras de Napoleão I, que não tivesse por origem a questão das nacionalidades. As insurreições da Servia e da Moldo-Valackia, a autonomia e independencia d’estes estados foram questões de nacionalidade. A independencia da Grecia, questão de nacionalidade. A erecção do reino da Belgica, questão de nacionalidade. As insurreições da Polonia, questão de nacionalidade. As revoluções politicas de 1848 transformam-se em guerras na Italia e Hungria por questões de nacionalidade. A guerra da Italia em 1859 e a formação da monarchia italiana, questão de nacionalidade. A guerra com a Dinamarca, por causa do Schleswig-Holstein allemão, d’onde se originou a guerra austro-prussica, questão da nacionalidade. Apenas a guerra da Criméa deixou de ser uma questão de nacionalidade para ser o preludio da questão do Oriente que ainda hoje não obstante os trabalhos na conferencia de Berlim a diplomacia procura resolver no interesse de evitar maior effusão de sangue. Como pois seria possivel a constituição do imperio iberico ou d’uma federação nos estados monarchicos da peninsula iberica se nos dois paizes separados desde 1839 existem as questões de nacionalidade? A independencia e a liberdade de Portugal jamais seria manietada e perdida pelos que acima de todas as conveniencias sociaes e internacionaes collocam unicamente a satisfação dos seus desejos e ambições. Portugal poderia por momentos ser subjugado pela Hespanha mas haveria sempre de pugnar pela sua liberdade e pela sua independencia e reconquistal-a-hia nos campos da batalha dando ao mundo novos exemplos de heroismo, de valor, de civismo e de gloria. A unica forma de governo possivel no futuro da peninsula será, conforme dissemos em o numero 1:088, a federação republicana que assegurará a independencia e a liberdade dos povos. Não ha outra forma de governo possivel e façam os ibericos o que fizerem, preparem quantos trabalhos desejarem, levem as intrigas ao seu auge, n’uma palavra, forjem quantas machinações quizerem, a unica cousa que poderão conseguir é desacreditarem e perderem as instituições monarchicas da peninsula e darem maior força e maior vida ao partido republicano. A peninsula iberica não é a peninsula dos Balkans. Ao passo que nos Balkans estão lançados os germens para a constituição do imperio slavo que n’um futuro mais ou menos longinquo virá a ser uma realidade, na iberia estão preparados os trabalhos para a proclamação do governo republicano debaixo da forma federativa; além o imperio—a união da raça slava—aqui a republica federal—a independencia e a liberdade dos povos—essa forma de governo que hade levantar Portugal ao seu apogeu de gloria e de grandezas e salvar o resto da raça latina das ameaças e da nefasta influencia da perniciosa politica do Norte. É esta a nossa convicção—são estas as nossas idéas, robustecidas com a serie de acontecimentos que uns após outros se teem dado tão rapidos como a velocidade do raio e que a muitos tem ainda que por momentos deixado boquiabertos. A entrevista de Caceres, a julgar pelos assumptos que nella se trataram, foi uma entrevista impensadamente planeada. Os seus resultados deixaram de ser proveitosos ás instituições monarchicas da peninsula para lhe serem unicamente prejudiciaes e ruinosos. O principio monarchico não se reabasteceu—antes pelo contrario mais se desprestigiou, mais se comprometteu, e como consequencia logica trouxe comsigo o impulso ás idéas republicanas. Um passo mais no caminho traçado na entrevista de Caceres para a federação hispano-portugueza será a perda irremediavel das instituições monarchicas da peninsula já condemnadas pela civilisação e pelo progresso. Appellamos para o tempo porque elle nos dará rasão ao que deixámos exposto n’esta importantissima questão que tanto nos interessa como povo livre e independente.