Voltar ao arquivo
Artigo

Acontecimentos na Europa

Arqueologia e patrimónioCultura e espectáculoEconomia e comércioExércitoJustiça e ordem públicaPolítica e administracção do EstadoPreçosReligiãoTransportes e comunicaçõesComércio localCulto e cerimóniasDebates políticosDenúncias e queixasDestruição de patrimónioEpigrafiaJulgamentosLivros e publicaçõesMovimentos de tropasNomeaçõesParadas e cerimóniasPreços e mercadosReformasRestauro e conservacçãoTelégrafoVandalismo
Berlim · Londres · Paris · Alemanha · Europa · França · Itália · Reino Unido Correspondência · Exterior / internacional · Interpretacção incerta · Telégrafo

Somos hoje obrigados a preterir a diversas questões mais ou menos importantes do que se occupa a imprensa um dos assumptos mais palpitantes em Paris e sobre o qual largamente escrevem as folhas parisienses—referimo-nos ao processo Roustan—Rochefort—assumpto curiosissimo e de grande importancia politica. Os leitores devem por certo estar lembrados da noticia que a tal respeito demos em uma das nossas ultimas revistas. A questão tomada sob o ponto de vista politico era de summa gravidade para o governo e difficilmente se poderia prever o resultado que teve. Rochefort foi absolvido; isto é, o tribunal deu razão aos intransigentes nas accusações por elles formuladas contra o governo na questão de Tunes. Em um artigo do sr. Rochefort publicado no Intransigeant sob a epigraphe O segredo da questão de Tunes eram accusados os srs. Gambetta e Roustan, cônsul francez em Tunes, de se terem associado com o fim de promoverem uma grande baixa na cotação das obrigações da divida tunesina, compral-as por vil preço, levarem o governo francez a uma intervenção na regencia e a tomar a seu cargo o pagamento das referidas obrigações, que n’esse caso seriam convertidas em titulos de 3 por cento de divida franceza, e assim realisaram um lucro colossal. Segundo a opinião do sr. Rochefort era este e não outro o movel principal da expedição de Tunes. As accusações foram porém mais longe e envolveram outras pessoas. O sr. Rochefort não receando as consequencias que poderiam resultar da luva por elle arrojada ao governo teve egualmente o arrojo de tornar cumplice n’essa questão o sr. Challemel-Lacour, ex-director do jornal La République Française e actual embaixador da republica em Londres. A linguagem empregada nos artigos era violentissima, o que a muitos levava á convicção de estar o sr. Rochefort possuidor de documentos incontestaveis. Conforme era de prever o governo immediatamente instaurou processo contra o sr. Rochefort e contra o gerente do Intransigeant, pelo delicto de diffamação contra os ministros da França em Tunes e em Inglaterra. O tribunal decidiu, porém, que só para com o sr. Roustan se uéra a diffamação como funccionario, pois que o sr. Challemel-Lacour só fôra accusado na qualidade de antigo jornalista. Seguiu-se pois o processo intentado pelo ministerio publico pelo que respeitava ao sr. Roustan, e o sr. Challemel-Lacour, pela sua parte chamou á responsabilidade o sr. Rochefort e o sr. Delpierre, gerente do Intransigeant. No processo em que foi parte o sr. Roustan, e que durou tres dias, os depoimentos das pessoas mais graves e insuspeitas foram altamente favoraveis ao sr. Roustan; entre outros individuos que depuzeram como testemunhas, citaremos os srs. Fernando de Lesseps e antigos ministros dos negocios estrangeiros Waddington e Barthélemy Saint-Hilaire, bem assim diversos funccionarios muito conhecedores dos negocios da Tunesina. Por este facto se poderá julgar da impressão produzida na grande massa da população parisiense. Ficou demonstrado no julgamento d’esse processo pela fórma mais evidente e clara que mr. Roustan tem sido durante a sua já longa carreira diplomatica, seguida em differentes localidades, um empregado honrado e digno, extremosamente zeloso pela honra da França e pelos legitimos interesses dos seus compatriotas. Igualmente ficou demonstrado que quando elle tomou conta do consulado em Tunes, estava com completamente perdida a influencia franceza na regencia, na qual apenas dominavam os cônsules inglez e italiano e que, pouco depois, de a França ter recuperado posto que a muito custo a sua antiga preponderancia, e os interesses dos subditos francezes obtido novas garantias, começaram as intrigas do consul italiano Maceio, de que resultou a exaltação dos espiritos francezes contra os italianos em Marselha, e dos italianos contra os francezes em varios pontos da Italia. Convem ainda observar que por parte do sr. Rochefort nada absolutamente se produziu convincente a destruir essas deprimentes accusações, ou que deixasse manchado o sr. Roustan. A unica cousa que se provou foi que o sr. Roustan mantem em Tunes relações de intimidade com familias indigenas que não foram de boa reputação e especialmente com a do general tunesino Elias Mossali. Mas elle allegou, em sua justificação, que precisa de cultivar essas relações para ter conhecimento do que se passa na regencia, como convem ao bom desempenho da sua missão. Em todo o caso a clemencia do jury para com o sr. Rochefort preoccupou, como facil é de ver em assumpto de tanta importancia, o espirito publico. Um correspondente de Paris em telegramma dirigido á Gazeta de Colonia disse ácerca d’esta questão: “Quando o resultado do processo foi communicado a mr. Gambetta, declarou este que nunca duvidára da absolvição de Rochefort, porque a condemnação, por delicto de imprensa é muito difficil de se obter do jurados parisienses. O sr. Barthélemy Saint-Hilaire commetteu um erre, levando o sr. Roustan a intentar o processo.” A absolvição do sr. Rochefort animou os intransigentes que, cobrado animo nas suas ameaças ao governo, continuam ainda a observar que radicalismo vae estendendo o seu predominio nas principaes cidades e centros de commercio, o que nos demonstra que a França deseja no trilho da liberdade e do progresso conquistar novas e radicaes reformas, que a livrem da perniciosa influencia do ultramontanismo e da que provem dos nefastos e perniciosos principios adoptados pelos conservadores. Um outro assumpto não menos importante está na tella da discussão. É o que diz respeito ao conflicto que se estabeleceu entre o principe de Bismark e o centro ultramontano do reichstag, facto que veio malograr o plano de se formar uma maioria governamental pela alliança d’aquelle grupo parlamentar com os conservadores. A causa primaria d’elle foi a seguinte: n’uma reunião da commissão a que foi submettida a proposta da concessão dos creditos pedidos para as despezas que ficam a cargo do imperio pela inclusão da cidade de Hamburgo na liga das alfandegas allemães, o sr. Windthorst, chefe dos ultramontanos, perguntou ao ministro da fazenda, o sr. Bitter, se a annexação de Hamburgo á liga das alfandegas inglezas, ou melhor, a sua inclusão, que causava no paiz uma alta de commercio e que levaria o estado a fazer sacrificios, não daria queixa ás potencias estrangeiras com relação aos negocios interiores do imperio. O ministro atacou violentamente o sr. Windthorst e declarou que as potencias estrangeiras nenhum direito podiam ter a ingerir-se nos negocios interiores do imperio; a Gazeta da Allemanha do Norte, orgão da politica de Bismark, accusou aspera mente o sr. Windthorst de ter tomado uma attitude anti-patriotica. Foi a violencia do ataque feito por esta folha que levou os deputados ultramontanos a escusarem-se de comparecer na ultima série parlamentar; Bismark, porém, oppoz-se a qualquer transigencia e o conflicto augmentou. Soube-se depois que o sr. Bitter a principio se mostrara favoravel a uma declaração conciliadora, mas o chanceller oppoz-se e d’ahi nasceu o boato de que elle sairia do ministerio. A Gazeta da Allemanha do Norte desmentiu depois essa noticia, affirmando que as declarações francas e explicitas do ministro da fazenda no seio da commissão, a respeito dos direitos que poderiam ter os estados estrangeiros a ingerir-se nos negocios interiores do imperio, tinham merecido appreciação em todos os circulos officiaes de Berlim. Vê-se pois que não ha esperança de que se desfaça o conflicto; e tanto que o chanceller passa, com a mais admiravel sem cerimónia, por sobre os compromissos pessoaes dos ministros que com elle servem. Foi conforme era de esperar grande a impressão produzida no Vaticano quando se soube do malogro do plano. O Vaticano esperava que o chanceller conseguisse organisar com a união dos ultramontanos aos conservadores uma maioria favoravel aos seus desejos e aos trabalhos aguardados com anciedade na questão religiosa. Os factos vieram porém demonstrar que Bismark é hoje impotente para subjugar a vontade da Allemanha e de attentar contra as leis de maio, e que a Allemanha, cançada da politica traiçoeira e conservadora que o chanceller apoiado unicamente pelo velho imperador adoptou, se prepara para o illuminar da seita politica combatendo-o pelo meio do suffragio. É que a vontade livre d’um povo vale mais que a teimosia dos reis e dos seus ministros. É que acima dos thronos e dos altares está uma força poderosa que tudo destroe e reforma e essa força é a soberania popular.