Ambição
A Escriptura diz, que é de estimar a riqueza, mas sem remorsos de ambicencia; que tristes são os dias do pobre, mas a paz da sua consciencia é um continuado banquete. Os que não seguem esta doutrina, com tenção de melhorar, peioram. E senão veja-se um caso que conta o auctor da obra intitulada Ceo de Graça. «Sahiu um mochacho de casa de seus paes para terras estranhas, assentou praça de soldado com tão bom successo que ajuntou muitos cruzados. Voltou depois de muitos annos para a terra. Em um lugar visinho perguntou a uma mulher se conhecia taes pessoas. Respondeu a mulher, sim conheço, e sou sua filha, casaram-me neste lugar. Alvoroçado o soldado descobriu-se por irmão, e para tirar duvidas descobriu uns signaes que no peito tinha. Alegre a irmã lhe disse que fosse dar gosto aos paes, e que ella na manhã seguinte iria ajudar a festejar sua vinda. O soldado partiu resoluto a não se dar a conhecer senão no dia seguinte quando chegasse a irmã. Entrou como hospede na casa dos paes, que eram estalajadeiros, e depois de cêa entregou dinheiro consideravel á mãe, dizendo-lhe que lh’o guardasse aquella noite. Ella cobiçosa do dinheiro concertou-se com o marido, que matassem aquelle passageiro desconhecido. Executaram o delicto. Na manhã seguinte chega a irmã, pergunta pelo irmão, ficam assustados os paes; vão ao corpo do morto, acham os signaes, conhecem o filho, entram em desesperação. O pae foi enforcar-se na forca publica, a mãe se matou com o mesmo ferro que o matára dormindo.» Crime sobre crime, mas ainda o ultimo peor que o outro.