Trombeta inspirada
Um corneteiro de um dos regimentos de caçadores de Hespanha dedicava os seus affectos a uma rapariga, que era aia de uma senhora de elevada jerarchia. Uma noute que estava com ella, entrou inesperadamente a dona da casa. Onde havia elle de se occultar? Estavam na sala do jantar, e a rapariga desappareceu logo por uma porta; o corneteiro e o seu instrumento, porque o levava, não tiveram outro meio de occultar-se senão debaixo de um sophá. Apresentou-se a dama, porem não ia só; acompanhava-a um cavalheiro. Sentaram-se exactamente ambos n’aquelle sophá, fallaram, combinaram diversas cousas, e chegando o momento da despedida, disse elle, com vehemencia: «Chegará um dia em que me esquecereis, ainda que me haveis promettido serdes minha esposa; e esta idea amofina-me.» «Não o julgueis; e se tal fizer que Deus me castigue neste mundo e no outro, quando soar a trombeta do juizo final.» Ouvindo isto o corneteiro, passou-lhe uma idéa pela imaginação, unica que realisou dando um toque de trombeta. O effeito que na dama e no cavalheiro produziu este inesperado toque, facilmente se comprehende. Ella desmaiou, e você deitou a correr, e o corneteiro, aproveitando o ensejo, fez airosa retirada.