Correspondência (José Marcello de Mendonça)—No dia 2 do corrente mez de fevereiro saí de Mertola para a Corte do Pinto, acompanhado do sr. Antonio Quentinio desta villa, afim de fazermos a cobrança das contribuições do estado, que, na qualidade de recebedor proposto neste concelho, com a precisa antecipação havia annunciado. Cheguei áquella aldeia, seriam 10 horas da manhã, e dirigi-me a casa do meu amigo o sr. Antonio Rodrigues Colaço, que com antecipação me havia offerecido por hospedagem, ao entrar na qual soube, que no dia antecedente se havia sepultado o bom pae deste cavalheiro. Desejei por tal acontecimento retirar-me a outra qualquer casa, mas esta boa família não consentiu, e alli mesmo fiz a cobrança. Na tarde retirei-me para S. Domingos, não por vontade do sr. Rodrigues, mas porque entendi que devia deixar em plena liberdade e socego uma família que chorava a recente perda que acaba de soffrer; e mesmo por me constar que na mina havia estalagem, hospedaria etc. Cheguei áquella localidade pelo ocaso do sol, pedi quartel, e foi-me respondido, pelo encarregado da estalagem (com ar sombrio) que não havia. Instei-o com urbanidade, para que visse se me acolhia, e com a mesma dureza me respondeu que não. Então alguns empregados da fiscalisação, que ahi se achavam aquartellados, quizeram fazer-me campo ás cavalgaduras, mas a rispidez do dono da casa sobremodo contrariava esta boa intenção. Levava o proposito de abrir alli o cofre, sem lei que me obrigasse a tal, e somente para facilitar aos povos d’aquelle logar o ingresso de suas coletas, sem incommodo e sem desgostos; o que tudo fui frustrado pela imprudente e deshumana negativa. Era noite fechada e escura, e ainda esperavamos resignados, com a bagagem sobre as cavalgaduras, uma resolução humanitaria, que não conseguimos. Chegou-se então a mim o sr. Manoel Dias Pinto, empregado da empresa, a quem narrei o successo que se passava: este sr. mostrando-se sentido porque não achasse acolhimento, aconselhou-me para que mandasse pedir ao sr. Mascarenhas (pessoa que representa, ali, um dos primeiros papeis, na ausência do sr. James Mason) quartel para as cavalgaduras, pois era a unica dificuldade a vencer, visto que para mim não hesitava encontrar-o, porque tambem tenho ali amigos, a casa dos quaes ainda não tinha chegado, por saber que não possuíam o commodo que procurava. Meditei um pouco na indicação do sr. Pinto, e afinal pedi a meu companheiro nos trabalhos fosse ao sr. Mascarenhas expor-lhe a nossa situação, fui, e rogou, narrando-lhe tudo o acontecimento, mas não tivemos melhor sorte. O sr. Mascarenhas disse, que sentia não poder servir-me, pois que era contra os regulamentos da empresa accommodar cavalgaduras alheias nas suas quadras. Montámos então a cavallo, como ultimo recurso, em direcção a Sant’Anna de Cambas, onde chegámos pelas 9 horas da noite; não sabíamos o caminho, e a escuridão permittiu que, por mais d’uma vez nos desencaminhássemos; mas afinal chegámos; tivemos um excedente quartel em casa do meu bondoso amigo o sr. Manoel Coelho Palma, onde fomos recebidos com tão generoso acolhimento, que me deixa gratas recordações, o que ingenuamente agradeço ao sr. Palma e suas exm.as filhas; pois que no fim d’uma noite de infortúnios mais saliente se torna o bem dispensado ao homem que precisa, e muito mais ao que, como eu, reunia esta circumstancia á de ir em serviço do rei, e do povo, a lugares onde a lei me chamava. Não pedi recurso á authoridade porque ali a não ha; e mesmo que a houvesse talvez o não pedisse, porque até hoje só me tenho servido da força moral para conseguir todos os meus fins officiaes, no seio destes bondosos e civilisados povos, a quem tambem agradeço cordialmente a bondade com que me tratam, e a jovialidade com que sou recebido pelas pessoas de todas as classes. Sou feliz n’essa parte; tenho percorrido muitas vezes só, as 9 freguezias deste extenso município, que abrange 10 léguas de longitude e 6 de latitude, e nos seus habitantes só tenho encontrado bondade e prudência; sendo este o caso excepcional da minha vida publica e particular, contando 52 annos de idade e 13 de recebedor. Apesar porem do desgosto que significo nestas linhas, devo ingenuamente declarar que não levo a intenção reservada de censurar ninguém; todos estavam no seu direito e nenhuma obrigação tinham de abrigar-me, se não por humanidade; entenderam que o não deviam ter para comigo, paciência; bem sabem elles que um recebedor proposto é entidade nulla do mundo. O defeito é da lei, que nos faz andar com os dinheiros da nação á rojo, expostos aos rigores dos tempos, e arrostando com perigos e difficuldades, sem que os povos saibam agradecer, nem queiram utilisar, pois que tendo 60 dias para pagar á boca do cofre, nada mais exigem, se não meios para ganhar o dinheiro. Se todavia estranhei esta desconsideração para com minha humilde pessoa, não é porque me julgue com direito ou merecimento para utilisar-me d’uma cavallariça da mina, pois que mais nada pedi, mas porque sei que aquelle regulamento das quadras da mina não é igual para todos. Tenho a gloria de persuadir-me que pertenço á classe dos homens decentes; se todavia o não fôr então trai-m’o a minha consciencia. Este facto não é para mim um abatimento ou degradação moral, porque nenhum acto me desconsidera, debaixo do horisonte das minhas attribuições d’empregado, até ao momento em que escrevo. Sou bem conhecido de todos, na mina, e amigo d’alguns, e sei que houve pesar, quando vulgamente constou o facto da minha retirada. São azares da vida do homem, que muitas vezes vem sem se ganhar, e sem que se saiba a origem. Sómente narro o facto sem commentarios, na intenção de prevenir os transeuntes para não incorrerem no risco de dormirem ao abrigo d’um céu nublado, se não chuvoso, ou dos rigoros d’um gello matador, proprio da estação a que me refiro. Os muitos affazeres da actualidade me fazem ser conciso, pelo muito que tinha a dizer: mais tarde soltarei um brado de justiça, pela imprensa, a favor da infeliz classe a que pertenço, porque muito confiamos no exm.º sr. Fontes Pereira de Mello, que corrigirá certos defeitos de que a ultima reforma nos fez victimas.
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