Revista da semana
Arqueologia e patrimónioCultura e espectáculoEconomia e comércioEstatísticasExércitoMeteorologia e fenómenos naturaisMunicípio e administracção localPolítica e administracção do EstadoReligiãoTransportes e comunicaçõesAbastecimento de águaAgriculturaConcursos e provisõesDebates políticosDecretos e portariasDestruição de patrimónioFeirasFestas religiosasFontes e chafarizesFrio intensoImpostos e finançasMercados e feirasMovimentos de tropasNavegacçãoNomeaçõesNomeações eclesiásticasObras de infraestruturaObras municipaisObras religiosasPartidasPecuáriaQuartéisRestauro e conservacçãoRuínas e monumentosSecasSessões da câmara
A noticia que correu em Lisboa, e que demos na passada revista, de ter entrado em Portugal uma força hespanbola, é verídica. Compõem-se ella não de 30 soldados como se dizia, mas de 12 e entraram pela Malhada Sôrda e não por Bragança. Contam elles, segundo diz o Nacional, n’uma carta, que tendo diversos sargentos do regimento 7.º d’Africa, tencionando dar na noute de 24 do passado mez o grito de revolta, o commandante da força insurgida, que é um sargento, prendera o capitão da guarda, mas que apenas pôde tirar do quartel a gente que o acompanha porque alguns cabos, sabendo o plano, fallaram aos soldados, fecharam as portas do quartel, e os que já se achavam fóra tiveram de fugir para não serem mortos. Da Malhada Sôrda foram os emigrados mandados para Sabugal, onde os habitantes da localidade os receberam com todo o carinho e estão promovendo uma subscripção em beneficio dos soldados. Fazemos votos para que o mesmo tratamento lhes seja feito pelas povoações por onde tiverem de passar até chegarem ao ponto que lhes for destinado para deposito. São elles dignos de tudo porque a causa porque se acham no exilio é a mais nobre e santa. De política não temos cousa alguma que registrar; nem pelo menos boatos. A imprensa das províncias trata de negocios locaes e a da capital occupa-se da desamortisação. O Portuguez continua com o seu mau humor e porque discute cousas e não pessoas, como elle diz, é por isso que n’um dos seus últimos numeros se pôz a descompôr os principaes cavalheiros da situação. Ao sr. Aguiar chamou vingativo e malcreado, ao sr. Fontes patarata, ao sr. conde de Castro ratão, orador somno ao sr. Barjona e estúpido ao sr. Sampaio! Não tem rasão o Portuguez em injurar estes cavalheiros, outro tanto não diremos do que elle tem escripto com respeito ao gazeteiro, porque d’esse metro tudo quanto diga é pouco. Já vê que cortamos direito e quo sabemos discriminar o justo do injusto. Veio no Diário a carta de lei approvando o contracto ultimamente feito entre o governo e o sr. Salamanca, e bem assim a relação dos despachos effectuados pela direcção geral dos negocios da justiça, tres decretos pelo ministerio das obras publicas permittindo a expropriação de certos terrenos, e um referendado pelo sr. Fontes, e datado de 27 do passado mez, pelo qual a delegação de primeira ordem da alfandega de Olhão, estabelecida no Pomarão é substituída por um posto fiscal, devendo de ora em diante, os navios que subirem o Guadiana, receber o despacho em Villa Real de Santo Antonio, para o que são dadas, á delegação daquella alfandega, as attribuições de delegação de alfandega da raia. Com respeito a sacaria destinada a conduzir cereaes, permittiu-se, em portaria de 22 do passado mez, a sua sahida mediante fiança á importancia dos direitos de exportação, a qual, se no praso de quatro mezes não fôr levantada, passará á receita respectiva. Pelo ministerio das obras publicas foi publicada, com data de 3 do corrente, uma portaria, sobre o transporte de gado bovino pelas linhas ferreas do sul e sueste. Como interessa aos povos d’esta província ter conhecimento d’ella, damol-a n’outra secção d’esta folha. Alem do que fica extraviado publicou mais a folha official alguns decretos concedendo mercês. Entre os agraciados figura com o titulo de barão, em uma vida, o súbdito britânico James Mason. Os serviços que sua ex.ª tem prestado ao paiz, e especialmente a esta província como explorador da importante mina de S. Domingos, são revelantissimos e bem fez pois o governo em recompensar-lhos. O general Prim sua esposa e filhos chegaram no dia 4 a Soulhampton, depois de uma feliz viagem. E pois falsa a noticia que correu do Rhone ter arribado a Vigo. Na camara electiva, depois de ter fallado sobre a desamortisação o sr. Gavicho, requereu o sr. Quaresma que a matéria se julgasse discutida, e lendo retirado o sr. Fradesso da Silveira a sua proposta de adiamento, procedeu-se á votação nominal sobre a generalidade do projecto sendo approvado por 91 votos contra 6. Na sessão seguinte começou a discussão na especialidade. Abrio os debates o sr. Ayres de Gouveia que mandou para a mesa tres propostas; a 1.ª para que o laudemio fique reduzido a quarentena; a 2.ª para que a doutrina do artigo 1684 do codigo civil seja introduzida no projecto, e a 3.ª para que reveriam a favor dos foreiros os prasos a que se refere o projecto. O sr. José de Moraes assignou tambem estas propostas e o sr. Faria Rego propoz duas emendas uma, para se estabelecer o praso de doze mezes para a remissão parcial ou total dos foros, e a outra ao § 4.º do projecto. O sr. Barbosa Lemos entende que o projecto, no artigo relativo a foros, censos, pensões e quinhões, comprehende disposições contrarias á lei de 4 d’abril de 1861 e propõe que a remissão continue pela forma estabelecida nessa lei com a declaração de que se a remissão fôr só da parte do foro, conservando a propriedade a natureza emphyteutica, não poderá comprehender parte alguma do laudemio. Por esta proposta, se fôr approvada, ficam supprimidos os §§ do artigo 1.º do projecto á excepção do 1.º, 5.º e 7.º. Ao artigo 2.º, propõe o mesmo sr. deputado, que nos prasos pertencentes aos conventos e corporações religiosas fique o laudemio reduzido a quarentena em todos os casos á similhança do que com relação aos prasos da coroa e da fazenda nacional, dispõe a lei de 22 de junho de 1846. Seguiu-se-lhe o sr. Francisco Costa e acabava elle de mandar para a mesa uma proposta, quando se ouve o sr. Cunha Barbosa pedir a palavra. Advertiu a presidência o orador que não podia continuar, mas elle replicou-lhe que se fallava não era para defender as suas idéas mas sim para desaffrontar a camara, porque no artigo da Revolução se lhe chamava a elle orador, papa moscas, o que era um insulto á representação nacional! A hilariedade rebenta na camara e nas galerias, fica meio aparvalhado o sr. Cunha Barbosa, mas recuperando o sangue frio berra, esbraveja e exclama como o vale Bernardo quando o publico ria das suas pingadas nenias, não riam que é cousa seria, papa moscas é a maior injuria que se póde dirigir a um deputado. Rebenta a gargalhada novamente, o presidente chama o orador á ordem, mas elle faz ouvidos de mercador e continua a mostrar o que quer dizer papa moscas, no que ficaria eternamente se o sr. presidente não levantasse a sessão. Na seguinte usou elle ainda da palavra; como se esperava que continuasse a divertir a assembléa roderam-no logo os deputados, mas o illustre orador começou a sustentar uma proposta para que a commissão de fazenda harmonise a lei dé 4 dabril com o projecto em discussão e isso foi bastante para que todos fugissem da sala. A mesa e os bancos é que lhe aquentaram a estopada. O sr. Bento de Freitas apresentou tambem algumas emendas e a camara determinou que todas, sem prejuízo da discussão, fossem mandadas á commissão para dar sobre ellas o seu parecer. Longa promette pois ser a discussão, mas se a desamortisação fôr applicada de modo que produza os melhores resultados para o paiz, não terá elle que chorar o tempo consummido nos debates. Na camara dos deputados foi approvado, sem discussão, na primeira parte da ordem do dia da sessão de terça feira o projecto de lei n.º 5 que isempta de direitos do mercê e do sello todas as encommendações ou provimentos temporários de parochias, coadjutorias, curatos e thesourarias nas ilhas adjacentes. Depois entrou em discussão o projecto de lei n.º 18 pelo qual são applicados ás camaras municipaes as disposições da lei de 18 de julho de 1863, sobre demolição dos edifícios que pelo seu estado de ruina, possa resultar perigo para a segurança publica. Como se suscitassem algumas duvidas a respeito da necessidade da lei, em vista da disposição do decreto de 31 de dezembro 1864, ficou o projecto para ser hoje novamente discutido. A Patrie, orgão semi-official do governo francez, folha que no império e no estrangeiro é considerada uma das mais illustradas e conspícuas, noticiando a medida concernente ao general Prim, adoptada pelo nosso governo, exprime-se nos termos seguintes: «A medida adoptada pelo governo portuguez contra o general Prim não foi desapprovada pelas côrtes. Esta medida justifica-se plenamente pela attitude do conde de Reus, o qual, ao dirigir uma proclamação ao povo hespanhol, olvidou o compromisso que havia tomado de se abster de qualquer manifestação hostil.» Nós sómente registramos as palavras da Patrie mas o Portuguez que nos ameaçou com a imprensa estrangeira e que esperava que ella lhe fizesse côro, que agarre este pão á unha e commenle como poder.
Para a historia
ExércitoJustiça e ordem públicaJulgamentos
Eis a sentença proferida pelo conselho de guerra de Madrid contra o general Prim, marquez de Castillejos e outros, pelo delicto de sedição: (transcripção) Madrid, 23 de fevereiro de 1866.
Resposta do ex.mo governador civil do Algarve
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Ê pratica minha não responder ás considerações que o espirito de cada um se diverte em fazer a meu respeito como lume sobre uma nave em ondas mil dispersas por todo o mundo. Quando me accusam, defendo-me e respondo, peço provas, e produzo as que tenho. Por este motivo não respondi ao que o Correspondente de Lisboa no Jornal do Porto do dia 17, escreveu, e eu li. Hoje leio o que escreve um dos dignos empregados no governo civil de Faro; os amigos do fallecido Plácido Negrão prestam homenagem aos seus bons serviços, e ás suas virtudes. Distingo-me em assim haver procedido. Exagerar porem o sr. Plácido, procurar desfazer nos srs. Araújo, Ribeiro e Furtado, actuaes officiaes do governo civil a meu cargo, não é pagar justiça á memória do sr. Plácido, é fazer injustiça ao mérito e bom serviço dos empregados do governo civil de Faro. Para bem dizer dos bons serviços e habilitações do digno secretario geral de Aveiro, transferido para Faro, não sei que se precize deixar em duvida a intelligencia e aptidão do secretario geral do districto de Faro, transferido para Aveiro. Exagerar uns, desfazer em outros para criticar das transferencias, não se me affigura, nem justiça, nem razão, nem verdade. Na secretaria do reino sobram as provas ao nobre ministro do reino para avaliar da verdade tal qual esta é. Devo um testemunho publico a favor dos dignos empregados do governo civil de Faro, porque ao governo de sua magestade por mais de uma vez se me proporcionou occasião de o prestar, do serviço do sr. secretario geral, e de cada um a todo* os empregados, ainda mesmo daquelles de outras repartições, acreditando que sempre fui imparcial, justo e verdadeiro. Estimo o novo secretario geral de Faro, que já foi meu secretario em Aveiro, e em crise tão difficil, que posso testemunhar da sua inteira lealdade e dedicação. Nos governos civis, ninguém tome a responsabilidade dos meus actos; sobre mim toda a mais inteira responsabilidade; eu não a declino do menor delles, respondo por todos, sem conselhos, admoestações ou lições, que não acceitei nunca, nem acceito, nem acceitarei, repugna-me tudo quanto se me affigura pressão por maior valor que tenha, por mais delicada e diplomática que se procure insinuar, por mais alto donde possa partir. Sou assim constituído, assim tenho provado que o sou, e não se illuda pessoa alguma que eu altere; serei sempre assim. Entendo que a confiança n’um cargo de confiança, ou se tem ou se não tem. Sustentar um governo quem lha não merece, prejudica-se, esmolar quem a não obtem é uma vergonha. Peço pois sr. redactor a publicação destas poucas palavras no seu creditado jornal, que me provocaram a correspondência do sr. Ribeiro da Silva, 2.º official do governo civil, ainda hoje a meu cargo. Lisboa, 24 de fevereiro de 1866. L. T. Sampaio.
Correspondência (Mertola, 20 de fevereiro de 1866)—Sr. redactor
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Na margem do Guadiana para o occidente, na província do Alemtejo, reside um tardo honrado e pessoa de bem, (diz elle!) que desejando seduzir um mancebo, para o fazer confessar coisinhas que só a elle lembravam, começou por períphrase dizendo assim: «O sr. não tenha duvida expor-me os seu pensamentos sobre o que lhe vou perguntar, de que lhe prometto guardar toda a fidelidade; porque, não sei se sabe, que eu sou um homem honrado e pessoa de bem.» Tanta miséria! Onde está a sua beneficencia e honradez? Miseravel! Quem se tem portado mais indignamente perante a sociedade dos homens? Pois elle não sabe que está intimamente desconsiderado na localidade aonde reside?! Não sabe que tem manchado o seu caracter com mil nodoas?! Não sabe finalmente que a moral nos diz: «não fuçaes a outrem, o que não desejarieis que vos façam»?! Nada d’isso sabe; só conhece os erros dos outros homens, que podem considerar-se innocentes por não lhes provarem as partes essenciaes das suas culpas propostas! Até breve. *** Mertola 20 de fevereiro de 1866. Sr. redactor.—Su no seu illustrado jornal conceder um espaço ás linhas que infra vou traçar será, com especial reconhecimento sempre grato o de v. etc. José Marcello de Mendonça.
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Correspondência (José Marcello de Mendonça)—No dia 2 do corrente mez de fevereiro saí de Mertola para a Corte do Pinto, acompanhado do sr. Antonio Quentinio desta villa, afim de fazermos a cobrança das contribuições do estado, que, na qualidade de recebedor proposto neste concelho, com a precisa antecipação havia annunciado. Cheguei áquella aldeia, seriam 10 horas da manhã, e dirigi-me a casa do meu amigo o sr. Antonio Rodrigues Colaço, que com antecipação me havia offerecido por hospedagem, ao entrar na qual soube, que no dia antecedente se havia sepultado o bom pae deste cavalheiro. Desejei por tal acontecimento retirar-me a outra qualquer casa, mas esta boa família não consentiu, e alli mesmo fiz a cobrança. Na tarde retirei-me para S. Domingos, não por vontade do sr. Rodrigues, mas porque entendi que devia deixar em plena liberdade e socego uma família que chorava a recente perda que acaba de soffrer; e mesmo por me constar que na mina havia estalagem, hospedaria etc. Cheguei áquella localidade pelo ocaso do sol, pedi quartel, e foi-me respondido, pelo encarregado da estalagem (com ar sombrio) que não havia. Instei-o com urbanidade, para que visse se me acolhia, e com a mesma dureza me respondeu que não. Então alguns empregados da fiscalisação, que ahi se achavam aquartellados, quizeram fazer-me campo ás cavalgaduras, mas a rispidez do dono da casa sobremodo contrariava esta boa intenção. Levava o proposito de abrir alli o cofre, sem lei que me obrigasse a tal, e somente para facilitar aos povos d’aquelle logar o ingresso de suas coletas, sem incommodo e sem desgostos; o que tudo fui frustrado pela imprudente e deshumana negativa. Era noite fechada e escura, e ainda esperavamos resignados, com a bagagem sobre as cavalgaduras, uma resolução humanitaria, que não conseguimos. Chegou-se então a mim o sr. Manoel Dias Pinto, empregado da empresa, a quem narrei o successo que se passava: este sr. mostrando-se sentido porque não achasse acolhimento, aconselhou-me para que mandasse pedir ao sr. Mascarenhas (pessoa que representa, ali, um dos primeiros papeis, na ausência do sr. James Mason) quartel para as cavalgaduras, pois era a unica dificuldade a vencer, visto que para mim não hesitava encontrar-o, porque tambem tenho ali amigos, a casa dos quaes ainda não tinha chegado, por saber que não possuíam o commodo que procurava. Meditei um pouco na indicação do sr. Pinto, e afinal pedi a meu companheiro nos trabalhos fosse ao sr. Mascarenhas expor-lhe a nossa situação, fui, e rogou, narrando-lhe tudo o acontecimento, mas não tivemos melhor sorte. O sr. Mascarenhas disse, que sentia não poder servir-me, pois que era contra os regulamentos da empresa accommodar cavalgaduras alheias nas suas quadras. Montámos então a cavallo, como ultimo recurso, em direcção a Sant’Anna de Cambas, onde chegámos pelas 9 horas da noite; não sabíamos o caminho, e a escuridão permittiu que, por mais d’uma vez nos desencaminhássemos; mas afinal chegámos; tivemos um excedente quartel em casa do meu bondoso amigo o sr. Manoel Coelho Palma, onde fomos recebidos com tão generoso acolhimento, que me deixa gratas recordações, o que ingenuamente agradeço ao sr. Palma e suas exm.as filhas; pois que no fim d’uma noite de infortúnios mais saliente se torna o bem dispensado ao homem que precisa, e muito mais ao que, como eu, reunia esta circumstancia á de ir em serviço do rei, e do povo, a lugares onde a lei me chamava. Não pedi recurso á authoridade porque ali a não ha; e mesmo que a houvesse talvez o não pedisse, porque até hoje só me tenho servido da força moral para conseguir todos os meus fins officiaes, no seio destes bondosos e civilisados povos, a quem tambem agradeço cordialmente a bondade com que me tratam, e a jovialidade com que sou recebido pelas pessoas de todas as classes. Sou feliz n’essa parte; tenho percorrido muitas vezes só, as 9 freguezias deste extenso município, que abrange 10 léguas de longitude e 6 de latitude, e nos seus habitantes só tenho encontrado bondade e prudência; sendo este o caso excepcional da minha vida publica e particular, contando 52 annos de idade e 13 de recebedor. Apesar porem do desgosto que significo nestas linhas, devo ingenuamente declarar que não levo a intenção reservada de censurar ninguém; todos estavam no seu direito e nenhuma obrigação tinham de abrigar-me, se não por humanidade; entenderam que o não deviam ter para comigo, paciência; bem sabem elles que um recebedor proposto é entidade nulla do mundo. O defeito é da lei, que nos faz andar com os dinheiros da nação á rojo, expostos aos rigores dos tempos, e arrostando com perigos e difficuldades, sem que os povos saibam agradecer, nem queiram utilisar, pois que tendo 60 dias para pagar á boca do cofre, nada mais exigem, se não meios para ganhar o dinheiro. Se todavia estranhei esta desconsideração para com minha humilde pessoa, não é porque me julgue com direito ou merecimento para utilisar-me d’uma cavallariça da mina, pois que mais nada pedi, mas porque sei que aquelle regulamento das quadras da mina não é igual para todos. Tenho a gloria de persuadir-me que pertenço á classe dos homens decentes; se todavia o não fôr então trai-m’o a minha consciencia. Este facto não é para mim um abatimento ou degradação moral, porque nenhum acto me desconsidera, debaixo do horisonte das minhas attribuições d’empregado, até ao momento em que escrevo. Sou bem conhecido de todos, na mina, e amigo d’alguns, e sei que houve pesar, quando vulgamente constou o facto da minha retirada. São azares da vida do homem, que muitas vezes vem sem se ganhar, e sem que se saiba a origem. Sómente narro o facto sem commentarios, na intenção de prevenir os transeuntes para não incorrerem no risco de dormirem ao abrigo d’um céu nublado, se não chuvoso, ou dos rigoros d’um gello matador, proprio da estação a que me refiro. Os muitos affazeres da actualidade me fazem ser conciso, pelo muito que tinha a dizer: mais tarde soltarei um brado de justiça, pela imprensa, a favor da infeliz classe a que pertenço, porque muito confiamos no exm.º sr. Fontes Pereira de Mello, que corrigirá certos defeitos de que a ultima reforma nos fez victimas.
Demissão
A mesa da misericórdia d’esta cidade, em sua sessão de 4 do corrente, deliberou demittir 1 capellães da mesma misericórdia. A causa da demissão, segundo nos consta, foi o não cumprimento das obrigações que o compromisso incumbe aos capellães da misericórdia.
Uma alma do outro mundo
ReligiãoSaúde e higiene públicaFestas religiosasHospitaisIrmandades e confrarias
Aconteceu ha dias no cemitério d’esta cidade um caso digno de registar-se. Deu-se elle entre o Tasquinha e umas mulheres. Havia este estado bastante doente no hospital d’esta cidade e espalhou-se que havia morrido. Muitas vendedeiras choraram a falta de tão bom freguez e a irmandade de S. Martinho dizem que tratava de celebrar-lhe exequias pelo seu eterno descanço. Felizmente o homem restabeleceu-se e hoje acha-se nas melhores disposições de saude. N’um dos dias da semana passada encommendaram-lhe uma cruz para uma sepultura e elle foi ao cemitério tomar as medidas. Junto desta sepultura estava uma outra aberta e perto d’ella um cypreste. Como o Tasca não estivesse para rodear o cemitério saltou a cova. Elle a acabar de dar o salto e umas mulheres a entrarem as quaes reconhecendo-o cahiram de joelhos e começaram a bradar:—Alma de José Jacintho nós te esconjuramos! O Tasca que é um maganão de bom gosto, ouvindo isto encostou-se ao cypreste e começou a fizer caretas, e arranhar a terra e a chamar as mulheres para lhe communicar um segredo. Estas transidas de medo não se atreviam a chegar-se perto da alma do outro mundo até que este investio para ellas obrigando-as a sahir do cemitério e a correrem, persiguando-se, até Santo André! Escusado é dizer que o caso fez seu barulho e que ainda hoje ha quem creia que a alma de José Jacintho, vulgarmenle conhecido pelo Tasca, anda passeando por este mundo.
Movimento de tropa
ExércitoTransportes e comunicaçõesCaminho de ferroMovimentos de tropas
Chegaram na tarde de sabbado, pelo caminho de ferro, tendo sido rendidos, os destacamentos do regimento de infanteria n.º 17, que se achavam em Evora e Monte-mór-o-Novo. Commandava o primeiro o digno capitão Barbosa e o segundo o sr. alferes Wenccshiu.
Epidemia
Economia e comércioSaúde e higiene públicaAgriculturaEpidemiasPecuária
Nos concelhos de Serpa e Moura manifestou-se uma terrível epidemia, que dizem ser sarampo, no gado suíno, havendo lavrador a quem tem morrido diariamente 90 cabeças. Por ordem do governo, foram mandados para aquelles concelhos, a fim de estudal-a, os intendentes de pecuaria d’este districto e do de Evora.
Ao sr. intendente de pecuaria (Doença no gado bovino)
Economia e comércioMeteorologia e fenómenos naturaisMunicípio e administracção localSaúde e higiene públicaAbastecimento de águaAgriculturaFrio intensoMédicos e cirurgiõesPecuáriaVentos fortes
Tendo-se manifestado n’este concelho, em animaes bovinos, procedentes das províncias do norte, alguns casos da doença que epizooticamente ali tem acommettido o gado vaccum, aconselha o intendente de pecuaria d’este districto, as seguintes medidas hygienicas e preservativas: 1.º Separar os animaes doentes dos sãos. 2.º Asseiar e arejar os estabulos ou malhadas. 3.º Renovar as camas amiudadas vezes. 4.º Não apascentar o gado em terrenos muito húmidos ou ensarcados. 5.º Ter os animaes abrigados das correntes de ar frio e das chuvas. 6.º Não fazer uso da sangria porque esta no começo da doença póde aggravar o estado do enfermo. E como tratamento curativo dá o que em seguida se lê: 1.º Lavar a bocca dos animaes doentes duas ou tres vezes no dia com cosimento de cevada avinagrado e adoçado convenientemente com mel. 2.º Para tratamento das aphlas que tem sua sede nos beiços e em torno das ventas o cosimento de silvas e o de folhas de nogueira podem com vantagem ser empregados. 3.º As empolas que apparecerem entre as unhas devem ser tratadas com os mesmos cosimentos, nos casos benignos; mas quando ulcerações de mau aspecto se manifestam, então a agua de Rabel ou unguento egyptciaco são medicamentos que convem pôr em acção. 4.º O tratamento do gado miúdo que lhe em grandes rebanhos pode unicamente consistir no seguinte: conduzir o rebanho a bebedouros que contenham agua ligeiramente salgada, apascental-o em terrenos que não sejam lamacentos, e abrigal-o dos ventos frios e de chuvas.
Serviço telegraphico
Transportes e comunicaçõesTelégrafo
Começou a vigorar no dia 1 do corrente mez o novo regulamento para o serviço telegraphico. Um despacho simples que até agora custava 300 rs. contendo 20 palavras, poderá conter 25, e 5 rs. mais se pagarão por cada 5 palavras.
Destacamento
Economia e comércioExércitoMunicípio e administracção localChegadasFeirasMovimentos de tropasQuartéis
Na quarta feira chegou a esta cidade um destacamento de cavallaria n.º 3, que vae para o seu quartel em Villa Viçosa.
Juizes substitutos
Justiça e ordem públicaPolítica e administracção do EstadoCrimesDecretos e portarias
Foram nomeados, por decreto de 27 do passado mez, para servirem de juizes substitutos, nas comarcas abaixo designadas, os indivíduos seguintes: Beja—José Pedro de Carvalho e Sousa, José Augusto Guerreiro d’Aboim, Caetano José da Fonseca e José Militão de Castro e Sousa. Almodovar—Manoel Joaquim de Vilhena, Manoel Carrilho Garcia, Lino Cordes Mascarenhas Azevedo, e José Ignacio Romano. Cuba—Manoel Bernardo de Barahona, Joaquim Ignacio Cabrita, Luiz José Laymé, e Pedro José Limpo Tosca no. Moura—Bacharel Antonio Maria Tovar de Lemos, bacharel Manuel Pires Lavado de Britto, José do Prado Torres Salgueiro e Domingos Maria Gavião Peixoto. Odemira—Jeronymo Maximo d’Almeida, José Maria Lopes Falcão, José Rodrigues Furtado Nobre e José Serrão do Valle.
Chegada
Município e administracção localTransportes e comunicaçõesCaminho de ferroChegadasCorreio
No sabbado chegou da capital, pelo caminho de ferro, onde esteve quasi cinco mezes com licença (?) o sr. administrador do correio desta cidade.
Campeão do Alemtejo
Cultura e espectáculoEconomia e comércioFeirasLivros e publicações
Recebemos e agradecemos o primeiro numero do jornal assim intitulado, que começou a ver a luz publica em Portalegre, no dia 4 do corrente. O Campeão publica-se ás quintas feiras e domingos, e tem por editor responsável o sr. Francisco Vicente Ramos. Ao novo collega desejamos todas as venturas.
Fuzilamentos
Economia e comércioEstatísticasExércitoAgricultura
A Correspondência de Hespanha publica a seguinte noticia dos fuzilamentos e execuções que tem havido no reino visinho por motivo das discórdias políticas. É um triplo quadro: «Desde que terminou a guerra civil os fuzilamentos e execuções que se tem verificado por causa das nossas tristes discórdias políticas teem sido os seguintes: Sendo regente do reino e presidente do conselho de ministros o general Espartero. — Pelas insurreições de outubro de 1841 e a de um esquadrão de cavallaria em Saragoça, sendo capitão general o general Guerreia: 1 ex-ministro da marinha—1 tenente-general—1 marechal de campo—1 brigadeiro—1 coronel—1 commandante—3 capitães—10 sargentos—4 paizanos—Total 23. Sendo presidente do conselho D. Luiz Gonzalez Bravo. — Pelos acontecimentos de Alicante e Carthagena, em 1844: 1 secretario do governo—2 capitães—2 tenentes—3 segundos tenentes—1 cabo—1 soldado—4 paizanos—Total 14. Sendo presidente o general Narvaez. — Pelos successos de Logrono em 1845, sublevação da Galliza, em 1845; de Madrid, em 1848; e de Arahal e Utrera, em 1857: 1 marechal de campo—3 commandantes—10 capitães—2 segundos-tenentes—1 sargento—2 cabos—5 soldados—68 paizanos—Total 92. Sendo presidente o general O’Donnell—Pelos successos de S. Carlos de la Rápita, em 1860; Loja, em 1861; e a insurreição militar de Villarejob da Salvanés no presente anno: 1 marechal de campo—1 coronel—um capitão—2 sargentos—8 paizanos—Total 13.» O numero total dos fuzilamentos e execuções nas epochas acima referidas eleva-se a 142!
Preços por que correm os generos em Beja
Economia e comércioPreçosAgriculturaPreços e mercados
Trigo alqueire, 500 reis; milho, 480; centeio, 400; cevada branca, 360; feijão, 900; chicharo, 400; fava, 500; grão de bico, 800; batatas, 360; azeite almude, 3:200; vinho, 1:200.
EXTERIOR
Berlim, 1 de março.—No conselho de ministros celebrado hontem decidiu-se chegar a uma solução definitiva a respeito dos ducados.
EXTERIOR
Meteorologia e fenómenos naturaisTempestades
Paris, 2.—No corpo legislativo depois de alguns discursos pró e contra o poder temporal do Papa, a parte da mensagem relativa ás coisas de Italia, foi approvada por 218 votos contra 15.
EXTERIOR
Londres, 2.—Mr. Gladstone apresentará ao parlamento 12 projectos sobre reforma eleitoral.
EXTERIOR
Município e administracção local
Madrid, 5.—A municipalidade de Nápoles pediu a sua demissão.
EXTERIOR
ExércitoPolítica e administracção do EstadoDebates políticos
O Chili não conseguia, apesar dos seus esforços, arrastar as republicas de Bolivia, Equador e Venezuela á guerra contra Hespanha.
EXTERIOR
ExércitoMovimentos de tropas
Madrid, 6.—Gohz chegou a Paris no dia 5. A «Gazeta da França» diz que os regimentos 59 e 71 subirão de Roma no meado de abril proximo.
EXTERIOR
Economia e comércioAgricultura
Berlim, 6.—Corre o boato de que a Austria cederá á Prússia os ducados, mediante a somma de quarenta milhões de thalers.
EXTERIOR
Paris, 6.—O sr. Aumale pediu ao corpo legislativo que as colonias sejam assimiladas politicamente á França.
EXTERIOR
Tripoli, 22.—Chegou Dervisch com dez mil homens. Karam está em Kiangr. Banachi espera Dervisch.